Dirigido por Andre Gaines, Desejo em Manhattan traz proposta ambiciosa, mas a quantidade de camadas metalinguísticas torna a experiência mais confusa do que poderosa.
Lá em 1964, às vésperas da eclosão dos movimentos pelos direitos civis nos Estados Unidos, estreava em Nova York a peça The Dutchman. Ao retratar o encontro entre um homem negro bem-sucedido e uma misteriosa e sedutora mulher branca dentro de um vagão de metrô, Amiri Baraka construiu muito mais do que um embate entre dois personagens. Sua obra discute como a sociedade norte-americana aprisiona o homem negro dentro de uma identidade moldada pelo olhar branco, ao mesmo tempo em que provoca reflexões sobre pertencimento, assimilação e violência estrutural por meio de uma poderosa alegoria política.
Mais de sessenta anos depois, essa discussão permanece assustadoramente atual. O racismo continua presente de forma cotidiana e, justamente por isso, adaptar The Dutchman para o século XXI parecia uma oportunidade de ampliar o alcance de uma das peças mais importantes do teatro político norte-americano. Entretanto, ao tentar expandir seu universo e reinterpretar constantemente seus significados, Desejo em Manhattan dilui parte da contundência que tornou o material original tão memorável.

Kate Mara em cena de “Desejo em Manhattan”- Divulgação Fimmelier+
Desejo em Manhattan chega ao público vendido como um thriller erótico protagonizado por André Holland e Kate Mara. Ainda durante seus primeiros minutos, algumas escolhas narrativas despertaram minha curiosidade a ponto de buscar imediatamente a peça original. A leitura evidencia justamente aquilo que o longa deixa em segundo plano: The Dutchman é, antes de tudo, um discurso político. Seu texto abraça o realismo enquanto flerta discretamente com o sonho e a abstração, culminando em um desfecho devastador cuja intenção nunca foi oferecer respostas, mas evidenciar um ciclo constante de violência racial dentro da sociedade norte-americana.
A adaptação de Andre Gaines parte justamente da decisão de ampliar esse universo. Clay recebe um passado mais desenvolvido e a narrativa, originalmente concentrada em cerca de uma hora de duração e praticamente restrita ao vagão do metrô, ganha novos espaços. Caminhamos por Nova York, visitamos o apartamento de Lula, acompanhamos uma festa, uma prisão e, acima de tudo, um teatro, ambiente que passa a funcionar como um comentário direto sobre a própria peça.
É justamente nesse momento que Desejo em Manhattan encontra seu maior problema. Se Baraka trabalhava a subjetividade como ferramenta para potencializar seu discurso político, Gaines transforma essa subjetividade em uma constante reflexão metalinguística sobre a própria obra. O resultado exige um conhecimento prévio do texto original para que muitas de suas escolhas façam sentido, transformando aquilo que deveria ser uma adaptação em uma espécie de continuação crítica da peça. Mais do que um complemento, essa abordagem constitui um dos principais obstáculos do filme.
Da mesma forma que a peça, Desejo em Manhattan nunca pretende ser entretenimento puro. Trata-se de um discurso político. Contudo, ao acumular alegorias, referências e novos símbolos para discutir diferentes questões simultaneamente, o longa se torna excessivamente carregado. A contundência quase cirúrgica do texto de Baraka dá lugar a uma narrativa hermética que frequentemente parece mais interessada em ser interpretada do que em comunicar sua própria mensagem.

André Holland e Kate Mara em cena de “Desejo em Manhattan”- Divulgação Fimmelier+
Paradoxalmente, é justamente quando o filme se distancia da peça que encontra alguns de seus melhores momentos. A alteração do desfecho, uma das sequências mais impactantes do texto original, funciona como uma quebra de ciclo que acrescenta novas possibilidades de leitura. É também nesse trecho que André Holland entrega, talvez, a melhor atuação de sua carreira recente.
Seu longo monólogo final, praticamente original se comparar com o da peça, expõe toda a complexidade emocional de Clay com uma intensidade crescente, revelando camadas de vulnerabilidade, revolta e resignação que o texto teatral apenas sugeria. Kate Mara também impressiona ao construir uma Lula simultaneamente sedutora, ameaçadora e imprevisível, fazendo da dupla o grande alicerce dramático da produção.
Visualmente, Andre Gaines demonstra um domínio muito maior da linguagem cinematográfica do que de sua organização narrativa. A fotografia limpa, elegante e cuidadosamente iluminada transforma praticamente todos os enquadramentos em imagens carregadas de significado, estabelecendo um contraste interessante entre a beleza plástica e a violência do discurso.
Em contrapartida, a montagem parece nunca decidir exatamente qual caminho deseja seguir. Em um momento aposta em cortes secos e objetivos; no seguinte mergulha em abstrações, surrealismo e rupturas temporais que interrompem o fluxo dramático. Em vez de ampliar a experiência sensorial, essas escolhas frequentemente fragmentam a narrativa e reforçam a sensação de desorientação que acompanha boa parte do longa.
No fim, Desejo em Manhattan permanece como uma obra de nicho. Enquanto The Dutchman surgia como um grito urgente em um país atravessado por profundas transformações sociais, o filme de Andre Gaines soa como um sussurro sofisticado. A ambição de reinterpretar um clássico demonstra talento e coragem, porém, o excesso de metalinguagem e simbolismos enfraquece justamente aquilo que fazia da peça um marco: a contundência de um discurso que não precisava ser explicado para ser devastador.
Desejo em Manhattan estreia com exclusividade no Filmelier+ em 6 de agosto.
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