As rajadas de vento que atingiram o Sul e o Sudeste nesta semana, deixando mortos, milhões de imóveis sem energia e um rastro de destruição, reacenderam um debate: afinal, o fenômeno já é consequência do El Niño ou foi um evento isolado? Segundo especialistas, a resposta é mais complexa do que parece.
Embora o El Niño crie um ambiente mais favorável à ocorrência de eventos climáticos extremos, ele não explica sozinho a ventania histórica registrada na quarta-feira (29). Para o climatologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e professor da Unesp, é preciso separar os fenômenos meteorológicos dos impactos causados por eles.
A quarta-feira (29) ficou marcada por uma sucessão de eventos extremos no país.
No Rio Grande do Sul, um tornado provocou destruição em municípios do estado. Já no Sudeste, rajadas de vento chegaram a cerca de 90 km/h no Rio de Janeiro e ultrapassaram 120 km/h em áreas de São Paulo, derrubando árvores, destelhando imóveis, interrompendo voos e causando mortes.
No Rio de Janeiro, o temporal provocou duas mortes, centenas de ocorrências e deixou quase dois milhões de imóveis sem fornecimento de energia elétrica. Em São Paulo, três pessoas morreram, enquanto o litoral registrou mar agitado e embarcações arrastadas pela força dos ventos.
As imagens rapidamente viralizaram nas redes sociais, levando muitos internautas a relacionarem imediatamente o episódio ao fortalecimento do El Niño.
O El Niño influenciou, mas não foi o único responsável
Segundo os especialistas, o fenômeno realmente contribuiu para criar um cenário favorável aos eventos extremos, mas a ventania foi resultado da combinação de diferentes fatores atmosféricos.
O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial apresentam aquecimento acima da média. Essa alteração modifica a circulação dos ventos em escala global e influencia o comportamento da atmosfera em diversas regiões do planeta, incluindo o Brasil.
Entretanto, no episódio desta semana, outro ingrediente foi decisivo.

Enquanto uma frente fria avançava pelo Sul e pelo Sudeste, uma massa de ar muito quente e seco permanecia sobre grande parte do país. O choque entre essas duas massas de ar gerou um forte gradiente de pressão atmosférica, acelerando os ventos de forma intensa.
Em outras palavras, o El Niño ajudou a criar um ambiente propício, mas a ventania nasceu da interação entre vários sistemas meteorológicos que atuaram simultaneamente.
José Marengo destaca que a intensidade do El Niño não determina, necessariamente, a quantidade de desastres que ocorrerão.
Segundo o pesquisador, é comum afirmar que um El Niño forte provocará mais tragédias, mas essa relação depende diretamente da capacidade de prevenção dos municípios.
“Pode acontecer de cair muita chuva em uma região, mas, se os administradores tiverem aprendido a lição deixada pelos eventos anteriores e tiverem construído barreiras de proteção ou limpado os bueiros, o impacto diminui”, explica.
Na avaliação do especialista, eventos extremos podem se tornar mais frequentes, mas seus efeitos variam conforme o planejamento urbano, a existência de planos de contingência e a proteção das populações mais vulneráveis.
Ele lembra que continuar ocupando áreas de risco ou negligenciar sistemas de alerta e evacuação aumenta significativamente o potencial de tragédias.
O aquecimento global também entra na conta
Outro ponto destacado por Marengo é que nem todo evento extremo registrado nos próximos meses poderá ser atribuído ao El Niño.
O aquecimento global vem elevando a temperatura média do planeta e aumentando a energia disponível na atmosfera, favorecendo tempestades mais intensas, ondas de calor, secas prolongadas e ventos mais fortes.
Historicamente, durante episódios de El Niño, o Brasil costuma registrar aumento das chuvas na Região Sul e redução das precipitações no Norte e em parte do Nordeste, elevando o risco de secas na Amazônia e no Pantanal.
A expectativa dos meteorologistas é que o fenômeno permaneça ativo ao longo da temporada 2026-2027.
Durante a reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada nesta semana, autoridades anunciaram um novo programa voltado à preparação das cidades brasileiras para enfrentar os impactos do El Niño.
Marengo afirma que o Cemaden tem sido constantemente procurado por governos estaduais e municipais para discutir medidas preventivas.
Um dos exemplos é o Rio Grande do Sul, que reconstruiu as comportas do Lago Guaíba após as enchentes históricas de 2024. O sistema tem como objetivo impedir que o acúmulo de água invada áreas urbanas em episódios de cheia.
“Se essas iniciativas vão funcionar, é outra história. Mas já existem planos de prevenção e contingência nas cidades. Um lado positivo de todo esse alarde sobre o El Niño é que o governo escutou”, afirma o pesquisador.
Os modelos climáticos indicam que o El Niño deverá ganhar intensidade ao longo dos próximos meses, aumentando as condições favoráveis para chuvas intensas, ondas de calor, secas e outros eventos extremos.
Isso não significa que todos os episódios climáticos severos serão provocados diretamente pelo fenômeno, mas sim que a atmosfera permanecerá mais instável e suscetível a situações de grande impacto.
Para os especialistas, o principal desafio agora não é apenas prever esses eventos, mas garantir que cidades e governos estejam preparados para reduzir seus efeitos sobre a população.
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