Dirigido por Muriel d’Ansembourg, Literalmente Nu encontra no universo pornográfico uma motivação para discutir amor e intimidade
Eu ainda irei produzir a crítica de Só por Uma Noite (2026, Will Gluck), porém, acho curioso como, de maneiras distintas, tanto ele quanto Literalmente Nu discutem o universo sexual e a intimidade física para, ao final, chegarem a uma mesma lição. Enquanto a comédia romântica de Gluck segue uma atmosfera tradicional do gênero, incluindo grandes músicas pop que iluminam o filme e um certo receio de ousar, a produção de Muriel d’Ansembourg já começa com os dois pés na porta e, sem medo, nos leva a lugares cada vez mais inesperados.
A trama acompanha o jovem Alec, um cinematógrafo pornô amador que grava os vídeos do pai e é um dos melhores no trabalho. Por viver cercado por corpos, câmeras e relações sexuais, acredita entender tudo sobre sexo e intimidade. Porém, ao aceitar fazer um trabalho com Nina, uma espécie de “manic pixie riot girl”, percebe que intimidade e amor são coisas bem distintas daquilo que registra através de suas lentes.
Como primeiro longa-metragem de Muriel d’Ansembourg, Literalmente Nu não tem receio de abraçar a nudez e o erotismo como elementos naturais de seu universo, e a presença de Alessa Savage, atriz pornô britânica, permite algumas liberdades que trazem maior veracidade ao filme. Cintaralho, plugs anais, cigarros em orifícios que não a boca: a produção explora tudo isso e muito mais. Entretanto, justamente por se aproximar tanto da realidade, encontra um humor que transita entre o natural e o famoso “riso de nervoso”. É nesse equilíbrio que Literalmente Nu consegue prender sua audiência.

Alessa Savage e Caolán O’Gorman em cena de “Literalmente Nu”- Divulgação
Em determinado momento, por incentivo de seu pai, Dylan, Alec tenta filmá-lo com Rosa, uma atriz novata que nunca havia trabalhado em produções para maiores. Consequentemente, o nervosismo está à flor da pele. Quando Rosa explica sua situação e afirma precisar de carinho e afeto para conseguir se excitar, Dylan fica indignado. Afinal, para ele, aquilo é um mercado, é arte, é trabalho, não sentimento.
Da mesma forma, quando Lizzie conversa com Nina sobre os pormenores da indústria pornográfica e explica que eles não inventaram aquelas fantasias, apenas aprenderam a explorá-las de maneira vantajosa, surge uma reflexão que permanece atual e, ainda assim, é pouco discutida. O mais interessante é que Literalmente Nu não se estabelece nem a favor nem contra a indústria pornográfica. Em vez disso, simplesmente a retrata como parte de uma realidade complexa, utilizando diferentes modos de filmagem para estabelecer seu ponto de vista.
Toda a jornada de Alec gira, em primeiro plano, em torno de sua compreensão sobre o que realmente significa intimidade e, em segundo, de sua libertação do jugo do pai que, à sua própria maneira, acredita estar fazendo o melhor para o filho enquanto ambos tentam seguir em frente após a morte da mãe. Para acompanhar esse amadurecimento, o longa constrói uma direção de arte consistente, cenários belíssimos e, principalmente, um jogo de câmera mutável, que assume diferentes funções dependendo da relação retratada.
Os enquadramentos inseridos no cenário pornográfico são, propositalmente, objetificantes e enaltecem os belos corpos presentes na tela. Entretanto, quando Alec e Nina interagem, até mesmo a paleta de cores se torna mais acolhedora, enquanto os enquadramentos deixam os corpos em segundo plano para enfatizar olhares, gestos e trocas não ditas. É justamente nesse contraste que a proposta de Literalmente Nu se torna mais potente: quanto mais o filme se distancia do sexo como performance, mais se aproxima da intimidade como sentimento.

Caolán O’Gorman e Safiya Benaddi em cena de “Literalmente Nu”- Divulgação
A sequência final, na qual Alec e Nina observam o próprio vídeo e o jovem percebe que aquelas imagens não conseguem capturar tudo o que ele sentiu naquele momento, funciona como a cereja do bolo. Alec passou boa parte da vida acreditando que a câmera poderia registrar a intimidade porque sabia registrar o sexo, apenas para descobrir que determinadas sensações simplesmente não cabem dentro de um enquadramento.
Literalmente Nu consegue manter um humor praticamente constante por meio dos paralelos com a realidade e dos próprios preconceitos de sua audiência. Porém, quando deseja, abraça o drama e a tensão com a mesma segurança, conduzindo a narrativa por caminhos inesperados sem abandonar a naturalidade com que trata seus temas.
O romance entre Alec e Nina, entretanto, poderia ter sido mais bem explorado. Em determinados momentos, a relação entre os dois não parece completamente factível, principalmente porque Nina se aproxima demais do arquétipo da “manic pixie dream girl”, ou, como prefiro chamá-la aproveitando um apelido utilizado pelo próprio filme, uma “manic pixie riot girl”.
Embora ambos carreguem seus próprios conflitos, permanece a sensação de que Nina é uma personagem subdesenvolvida, utilizada principalmente como instrumento para fazer Alec evoluir e amadurecer. Por mais que o longa tente conceder autonomia a ela, essa impressão nunca desaparece completamente e enfraquece parte do impacto emocional do relacionamento.
Ao final, Literalmente Nu não possui a grandiosidade de Boogie Nights: Prazer sem Limites (1998, Paul Thomas Anderson) em seu retrato da indústria de filmes para maiores, e nem precisa ter. Em sua abordagem minimalista, sem pudor ou receio, consegue construir algo particular, simultaneamente doce, abjeto, engraçado e reflexivo. Ao expor corpos sem qualquer vergonha, o filme descobre que aquilo que realmente nos deixa vulneráveis não é a nudez, mas a intimidade.
Cabe à audiência decidir de que lado dessa discussão deseja ficar ou simplesmente aceitar que o mundo é muito mais complexo do que qualquer julgamento definitivo consegue capturar.
Literalmente Nu integra a programação do Festival Filmes Incríveis e terá mais duas exibições durante o evento, nos dias 7 e 10 de agosto.
A programação completa está disponível no site oficial do festival.
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