Continuando a saga das dificuldades do time de futebol feminino, Ted Lasso abraça mais a realidade e apresenta novos personagens no episódio mais fraco da temporada até o momento
O episódio começa com algumas das sequências de humor mais certeiras da temporada até agora, emendando gag atrás de gag. Do grito sobre a tela preta às interações entre Chilton, Ted e Beard, passando por Matthijs e Rebecca e pela coletiva de Roy, Ted Lasso demonstra rapidamente que ainda sabe explorar muito bem o timing cômico de seus personagens.
Entretanto, não demora para o episódio revelar o quanto pretende se aproximar da realidade. Jornalistas homens deixam a sala quando começa a discussão sobre o time feminino do Richmond; Keeley demonstra sua frustração com uma situação que, infelizmente, é resolvida rápido demais; e até o confronto entre Roy e Phoebe me relembrou algumas das questões que mais pesaram negativamente para mim durante a segunda e a terceira temporadas: abordagens políticas e sociais apresentadas de maneira direta, mas solucionadas antes que possam realmente ser aprofundadas.
Sem contrariar o que disse anteriormente no texto sobre o segundo episódio, Ted Lasso continua retratando o mundo que podemos construir, sem fugir completamente da realidade, principalmente ao mostrar com honestidade as dificuldades enfrentadas pelo futebol feminino. Meu receio é que esse hiperfoco em reforçar constantemente seus obstáculos se torne uma fórmula recorrente e, consequentemente, desgaste uma audiência que já compreendeu a mensagem.
Estamos apenas no terceiro episódio. Se, em todos os capítulos, o peso dessas dificuldades for tão grande, e acompanharmos Kelley Jones sofrendo constantemente por elas, o desgaste será inevitável. Existem diferentes maneiras de abordar essas questões, e uma das mais interessantes é justamente por meio do simbolismo.

Abbie Hern em cena de “Ted Lasso”- Divulgação Apple TV
É aí que entra Susan Boyle.
Citada logo no começo e constantemente referenciada durante o episódio, Boyle talvez represente o maior símbolo até agora do percurso das Lady Greyhounds. Sua trajetória, marcada inicialmente pela desconfiança e pelo julgamento no Britain’s Got Talent, antes de surpreender completamente público e jurados, funciona como um paralelo direto com aquilo que a série pretende construir com o time feminino.
No mundo em que vivemos, infelizmente, o futebol feminino dificilmente receberá o mesmo reconhecimento dado ao masculino. Isso, entretanto, não o torna menos importante. Boa parte dessa diferença nasce justamente de preconceitos, expectativas e julgamentos estabelecidos antes mesmo de essas atletas entrarem em campo, e Ted Lasso compreende isso.
A inclusão de uma mãe no time, por exemplo, surge como uma das maiores promessas para o futuro da temporada, principalmente pelo potencial dramático que carrega. Assim como Boyle, essas mulheres podem contrariar as expectativas colocadas sobre elas. Afinal, estamos assistindo a Ted Lasso, um universo ficcional no qual, no fim das contas, o otimismo tende a prevalecer.
E a série ganha muito mais quando trabalha essas ideias com sutileza do que quando constantemente precisa nos lembrar: “é difícil”, “não temos apoio”, “ninguém acredita em nós”. São situações que já compreendemos e cuja repetição, sem novas perspectivas, pouco acrescenta à narrativa.

Faye Marsay em cena de “Ted Lasso”- Divulgação Apple TV
O restante do episódio volta a posicionar peças para o futuro. A aparição da irmã de Dani Rojas funciona como uma boa isca, que espero ser aproveitada com maior peso posteriormente, principalmente pelo fato de a personagem ser interpretada pela própria irmã de Cristo Fernández. Enquanto isso, a inclusão de Gemma acrescenta novas camadas à treinadora Chilton, enquanto Shannon finalmente recebe maior destaque, ainda que sua presença possa trazer mais problemas do que soluções e obrigue Ted a colocar o profissionalismo do time acima de questões pessoais.
O flerte entre Roy e Keeley também continua evidente. Entretanto, assim como acontece com a insistência em demarcar as dificuldades do futebol feminino, está na hora de a série mudar o disco e proporcionar alguma evolução concreta. Mesmo com a bem-vinda presença de Phoebe, sempre um raio de luz dentro da produção, esse eterno “vai ou não vai?” acompanha os personagens praticamente desde a primeira temporada. Neste momento, qualquer conclusão parece mais interessante do que prolongar novamente a indefinição.
Algo semelhante pode ser dito sobre Matthijs e Rebecca. Depois de três temporadas acompanhando o sofrimento dela nas mãos de Rupert, parte de mim torcia por uma escolha narrativa que não envolvesse novos problemas amorosos, especialmente diante do carisma de Matthijs. Entretanto, é justamente esse caminho que o episódio começa a percorrer. Algo inicialmente inocente e aparentemente fácil de resolver pode acabar se transformando em um conflito muito maior.
Ao final, a ideia mais forte do episódio continua sendo Susan Boyle e seu paralelo narrativo com as próprias Lady Greyhounds. Nunca julgue um livro pela capa, porque aquilo que inicialmente parece improvável pode surpreender completamente.
Isso vale para o time feminino do Richmond e, talvez, para a própria quarta temporada de Ted Lasso. Agora, resta esperar pelo momento em que essa surpresa finalmente acontecerá.
Disponível na Apple TV+, a quarta temporada de Ted Lasso já conta com três episódios na plataforma, com novos capítulos lançados semanalmente até o início de outubro.
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