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Literatura e HQ

O discurso de Meribald que Game of Thrones deixou de fora e que entrega uma das grandes verdades da humanidade

Em O Festim dos Corvos, Septon Meribald faz uma das reflexões mais contundentes de George R.R. Martin sobre violência, sobrevivência e os homens destruídos pelos conflitos. A passagem foi parcialmente transformada em Game of Thrones, mas o discurso original nunca chegou à televisão.

Por Redação
Última Atualização 15 de agosto de 2026
16 Min Leitura
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Poucos momentos de As Crônicas de Gelo e Fogo resumem tão bem a visão de George R.R. Martin sobre a guerra quanto o discurso de Septon Meribald sobre os chamados “homens quebrados”. A passagem aparece em O Festim dos Corvos, quarto volume da saga, durante uma viagem de Brienne de Tarth e Podrick Payne pelas Terras Fluviais, mas não na série Game of Thrones.

A cena acontece depois que Brienne, Podrick e seus companheiros encontram Meribald, um septão itinerante que conhece as estradas devastadas pelos conflitos. Ao conversar sobre os perigos da região, ele menciona os “homens quebrados”.

Brienne associa essas pessoas a foras da lei. Meribald, porém, estabelece uma diferença fundamental. Alguns criminosos escolhem a violência por ganância ou crueldade. Outros chegaram àquele estado depois de serem consumidos pela guerra.

O que começa como uma explicação sobre criminosos se transforma em uma das maiores críticas de Martin à romantização dos conflitos. O autor mostra como homens comuns podem partir para uma guerra sonhando com glória e terminar vivendo como animais, preocupados apenas com a próxima refeição.

Quem são os “homens quebrados” de Game of Thrones?

Para Meribald, os homens quebrados são, em sua maioria, pessoas comuns. São camponeses e trabalhadores que passaram praticamente toda a vida perto do lugar onde nasceram.

Eles não começam como assassinos.

Quando um senhor chega para convocá-los para a guerra, muitos partem com irmãos, pais, filhos e amigos. Eles carregam armas improvisadas e seguem os estandartes acreditando nas histórias que ouviram durante toda a vida.

Existe, inicialmente, uma espécie de encantamento.

A guerra parece uma aventura. Os jovens imaginam que conhecerão novos lugares, ganharão riquezas e participarão de feitos que serão lembrados.

É justamente essa visão que Meribald destrói.

Como o trecho foi fornecido integralmente no material enviado, segue abaixo a passagem completa, em português, preservando o discurso como o foco desta matéria:

“Mais ou menos. Há muitos tipos de foras da lei, assim como há muitos tipos de pássaros. Um maçarico e uma águia-marinha têm asas, mas não são iguais. Os cantores gostam de cantar sobre bons homens obrigados a infringir a lei para lutar contra algum senhor perverso, mas a maioria dos foras da lei se parece mais com este Cão voraz do que com o senhor do relâmpago. São homens maus, movidos pela ganância, azedados pela malícia, desprezando os deuses e preocupados apenas consigo mesmos.

“Os homens quebrados merecem mais nossa piedade, embora possam ser igualmente perigosos. Quase todos são de origem humilde, pessoas simples que nunca haviam ido mais de uma milha além da casa onde nasceram até o dia em que algum senhor apareceu para levá-los à guerra. Mal calçados e mal vestidos, marcham sob seus estandartes, muitas vezes sem armas melhores que uma foice ou uma enxada afiada, ou uma marreta que fizeram amarrando uma pedra a um pedaço de madeira com tiras de couro. Irmãos marcham com irmãos, filhos com pais, amigos com amigos. Eles ouviram as canções e as histórias, então partem com o coração cheio de entusiasmo, sonhando com as maravilhas que verão, com a riqueza e a glória que conquistarão. A guerra parece uma bela aventura, a maior que muitos deles jamais conhecerão.

“Então eles experimentam a batalha.

“Para alguns, esse único gosto é suficiente para quebrá-los. Outros continuam por anos, até perderem a conta de todas as batalhas em que lutaram, mas até mesmo um homem que sobreviveu a cem combates pode quebrar no centésimo primeiro. Irmãos veem seus irmãos morrerem, pais perdem seus filhos, amigos veem seus amigos tentando segurar as próprias entranhas depois de terem sido abertos por um machado.

“Eles veem o senhor que os levou até ali ser derrubado, e algum outro senhor grita que agora eles pertencem a ele. Eles sofrem um ferimento e, quando este ainda está apenas meio curado, recebem outro. Nunca há comida suficiente, seus sapatos se desfazem por causa das marchas, suas roupas ficam rasgadas e apodrecidas, e metade deles está cagando nas próprias calças por ter bebido água ruim.

“Se querem botas novas, um manto mais quente ou talvez um elmo de ferro enferrujado, precisam tirá-los de um cadáver, e em pouco tempo começam também a roubar dos vivos, dos camponeses cujas terras estão sendo usadas para a guerra, homens muito parecidos com os homens que eles costumavam ser. Eles matam suas ovelhas e roubam suas galinhas e, daí, é apenas um pequeno passo até levar suas filhas também. E um dia olham ao redor e percebem que todos os seus amigos e parentes se foram, que estão lutando ao lado de estranhos sob um estandarte que mal reconhecem. Não sabem onde estão nem como voltar para casa, e o senhor por quem lutam não sabe seus nomes. Mesmo assim, lá vem ele, gritando para que se organizem, formem uma linha com suas lanças e foices e enxadas afiadas, permaneçam firmes. E os cavaleiros descem sobre eles, homens sem rosto vestidos inteiramente de aço, e o trovão de ferro de sua carga parece preencher o mundo…

“E o homem quebra.

“Ele se vira e corre, ou rasteja depois sobre os cadáveres dos mortos, ou foge durante a escuridão da noite e encontra algum lugar para se esconder. Todo pensamento sobre casa desapareceu a essa altura, e reis, senhores e deuses significam menos para ele do que um pedaço de carne estragada que lhe permita viver mais um dia, ou um odre de vinho ruim que possa afogar seu medo por algumas horas. O homem quebrado vive dia após dia, refeição após refeição, mais fera do que homem. Lady Brienne não está errada. Em tempos como estes, o viajante deve tomar cuidado com os homens quebrados e temê-los… mas também deve ter piedade deles.”

O momento mais forte talvez seja também o mais simples:

“E o homem quebra.”

A frase aparece depois de uma longa descrição da deterioração física e psicológica dos soldados.

Martin constrói a transformação gradualmente. Primeiro, o homem acredita nas histórias sobre a guerra. Depois, conhece a batalha. Em seguida, testemunha mortes, sofre ferimentos, passa fome e perde seus companheiros.

Aos poucos, deixa de reconhecer o próprio mundo.

Seus irmãos desapareceram. Seus amigos morreram. Seu senhor pode ter sido substituído. O estandarte que segue já não significa nada.

Ainda assim, ele continua sendo enviado para lutar.

Quando finalmente quebra, já não pensa em honra, glória ou política. Pensa em sobreviver.

Essa é uma das razões pelas quais o discurso é tão importante dentro de As Crônicas de Gelo e Fogo.

A saga frequentemente acompanha reis, rainhas, lordes, cavaleiros e membros das grandes casas. São personagens envolvidos diretamente nas disputas pelo poder.

Para eles, uma batalha pode representar uma vitória estratégica.

Para o soldado comum, a mesma batalha pode significar a morte do irmão.

A guerra também pode ser descrita pelos vencedores como uma conquista histórica. Os cantores podem transformar uma batalha em uma grande canção. Os nobres podem receber títulos e terras.

Os soldados que sobreviveram, porém, carregam outra história.

É justamente essa diferença que Meribald evidencia.

No final da passagem, o discurso ganha uma dimensão ainda mais pessoal.

Hyle Hunt pergunta a Meribald sobre a Guerra dos Reis dos Nove Vinténs.

A resposta é curta:

“A Guerra dos Reis dos Nove Vinténs? Foi assim que a chamaram, embora eu nunca tenha visto um rei, nem ganhado um vintém. Mas foi uma guerra. Isso foi.”

A fala funciona porque reduz todo o significado histórico de uma guerra a uma experiência individual.

Existem reis no nome.

Existe dinheiro no nome.

Mas Meribald não viu nenhum rei e não recebeu nenhum dinheiro.

Ele apenas esteve na guerra.

Para quem combate, isso pode ser tudo o que importa.

Embora a saga tenha dragões, batalhas, cavaleiros e disputas pelo trono, Martin frequentemente desconstrói a ideia de que conflitos armados são aventuras gloriosas.

O discurso de Meribald é um dos exemplos mais evidentes.

A guerra não produz apenas vencedores e derrotados.

Ela produz pessoas traumatizadas.

Também destrói comunidades, rompe famílias e transforma cidadãos comuns em criminosos.

A trajetória dos homens quebrados mostra ainda que a violência não termina necessariamente quando uma batalha acaba.

O soldado que sobrevive pode carregar a guerra para o resto da vida.

Por que Meribald não apareceu em Game of Thrones?

Septon Meribald não aparece diretamente em Game of Thrones. A série, porém, incorporou elementos de sua história em outro personagem.

Na sexta temporada, Irmão Ray, interpretado por Ian McShane, surge como líder de uma comunidade que tenta abandonar a violência e construir uma vida pacífica.

A conexão fica evidente até no título do episódio: “The Broken Man”, traduzido como “O Homem Quebrado”.

Irmão Ray também conta sua experiência durante a guerra e fala sobre ter lutado, roubado e matado em nome de outras pessoas.

A série Game of Thrones, portanto, preserva a ideia central de Martin.

Mas transforma a reflexão coletiva de Meribald em uma história individual, especialmente ligada a Sandor Clegane, o Cão de Caça.

No livro, Meribald está descrevendo um fenômeno social.

Ele fala de centenas ou milhares de homens que tiveram suas vidas destruídas pela guerra.

Na série, Irmão Ray fala principalmente sobre a própria experiência e sobre a possibilidade de abandonar a violência.

A adaptação também tinha uma necessidade narrativa específica. O episódio precisava trabalhar o retorno do Cão de Caça e avançar a história daquela região.

Um longo monólogo sobre os efeitos da guerra poderia comprometer o ritmo do episódio.

Por isso, a produção utilizou o conceito, mas não reproduziu a passagem de Martin.

O resultado televisivo funciona dentro da história de Game of Thrones, mas não possui a mesma abrangência do texto de O Festim dos Corvos.

A principal perda foi justamente a dimensão social da reflexão.

O discurso não fala apenas sobre um homem traumatizado.

Ele explica como uma sociedade em guerra pode fabricar homens quebrados.

A transformação acontece porque o sistema de guerra exige que pessoas comuns continuem lutando, mesmo quando já perderam suas famílias, seus amigos, sua casa e qualquer ligação com o conflito.

O soldado não sabe mais por que está lutando.

Também não conhece o homem que está dando as ordens.

Mas continua marchando.

Essa é a crítica mais profunda de Martin: aqueles que iniciam as guerras raramente experimentam suas consequências da mesma maneira que aqueles enviados para lutar.

O texto funciona porque Martin evita transformar os homens quebrados em vítimas completamente inocentes.

Meribald reconhece que eles são perigosos.

Eles roubam.

Matam.

Podem atacar viajantes.

Podem cometer crimes contra pessoas que nada têm a ver com a guerra.

Mas ele insiste em uma distinção moral importante: compreender a origem de uma violência não significa justificá-la.

Significa reconhecer que existe uma história por trás dela.

Por isso, a recomendação de Meribald é dupla.

É preciso temer os homens quebrados.

Mas também é preciso ter piedade deles.

Essa contradição é justamente o coração do discurso.

Uma das passagens mais importantes de Game of Thrones

O Festim dos Corvos não possui a mesma quantidade de personagens populares de outros volumes da saga. Jon Snow, Daenerys Targaryen e Tyrion Lannister, por exemplo, não aparecem na narrativa principal do livro.

Mas a ausência desses personagens permite que Martin explore outros aspectos de seu universo.

O discurso de Meribald é um desses momentos.

Ele tira a história dos castelos e a coloca nas estradas.

Sai dos salões dos reis e chega aos campos devastados.

Sai da perspectiva dos vencedores e olha para aqueles que simplesmente tentam sobreviver.

É por isso que a passagem permanece tão marcante.

Os reis podem dar nomes às guerras. Os senhores podem ordenar as batalhas. Os cantores podem transformar os conflitos em histórias de glória. Mas Meribald lembra que, para quem está no campo de batalha, uma guerra pode significar apenas perder tudo o que um dia fez daquela pessoa um ser humano.

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