Após montar o time, agora a missão é uni-lo, e Ted Lasso entrega um episódio ainda pouco focado em futebol, enquanto tudo ao seu redor avança lentamente
A aparição de Trent Crimm e da Doutora Sharon logo no início do episódio funciona como um aceno aos fãs e, ao mesmo tempo, reforça que, apesar da reformulação de boa parte do elenco secundário, personagens importantes continuam presentes neste universo, ainda que de maneiras diferentes. Aqui, ambos assumem quase a função de narradores ao discutirem a importância do vestiário para qualquer equipe de futebol, estabelecendo desde cedo que o verdadeiro conflito do episódio não está dentro de campo, mas na dificuldade de transformar um grupo de jogadoras em um verdadeiro time.
A missão, portanto, é unir uma equipe ainda desequilibrada. Algo que não foi necessário da mesma maneira com o time masculino, mas que se torna essencial agora. É difícil não questionar se a série está recorrendo, ainda que involuntariamente, a um velho clichê de rivalidade feminina. Afinal, até mesmo Rebecca e Keeley começaram sua relação em meio a desconfianças e atritos antes de se tornarem praticamente inseparáveis. A diferença é que, até aqui, Ted Lasso parece consciente desse histórico e utiliza o conflito mais como ponto de partida para desenvolver suas personagens do que como uma simples caricatura.
A união do time acontece por meio de um pub quiz e do clássico conceito do “inimigo em comum”. Neste caso, um grupo de homens particularmente intoleráveis se transforma no catalisador para que as jogadoras deixem suas diferenças de lado, com a série conseguindo equilibrar o discurso com o humor sem transformar a discussão em algo excessivamente didático.

Brett Goldstein e Juno Temple em cena de “Ted Lasso”- Divulgação Divulgação Apple TV
Do outro lado, Roy e Keeley finalmente avançam em seu relacionamento, embora não exatamente da maneira esperada. A interação do casal com Higgins está entre as mais espirituosas do episódio, enquanto a tentativa de Roy de cumprir dez encontros proporciona situações nas quais Brett Goldstein consegue novamente demonstrar seu talento cômico.
O problema é que a trama também transmite a sensação de estar adiando um desfecho inevitável. A partir do momento em que Roy conhece alguém capaz de, ao menos temporariamente, tirá-lo de sua obsessão por Keeley, a série parece prolongar uma dinâmica cujo destino já é bastante previsível.
A inclusão de Tracey Ullman como Zelda Southport acrescenta outra personagem feminina de personalidade forte ao universo da série. A diferença é que o humor de Ullman se aproxima de uma espécie de loucura que contrasta com a naturalidade de outras personagens, parecendo exagerada demais para os padrões de Ted Lasso, e por consequência, se sobressaindo perante os demais.
A série costuma construir suas personagens a partir de diferentes camadas, permitindo que força, vulnerabilidade e contradições coexistam. Zelda, por enquanto, parece mais próxima de uma caricatura de uma mulher poderosa e empoderada do que de uma personagem capaz de escapar dessa primeira impressão. Por isso, sua presença acaba se destacando, não necessariamente de forma positiva, dentro de um universo construído justamente sobre personagens tão complexos.

Jason Sudeikis, Brendan Hunt em cena de “Ted Lasso”- Divulgação Apple TV
A longa sequência do quiz funciona como o grande momento catártico do episódio e reúne alguns de seus melhores momentos de leveza. Desta vez, Tilton fica em segundo plano, enquanto o foco está quase completamente nas jogadoras e nas conexões que começam a surgir entre elas. Ao mesmo tempo, percebemos o quanto ela está aberta às decisões de Ted, afastando-se cada vez mais da persona de “megera” que inicialmente parecia destinada a ocupar.
Ao final, o quarto episódio da quarta temporada de Ted Lasso funciona principalmente como preparação. O time começa a encontrar sua identidade antes de um grande jogo que se aproxima; Roy e Keeley entram em uma nova etapa de seu relacionamento; e Rebecca e Keeley começam a encarar os conflitos internos de comandar uma equipe feminina sem o apoio esperado dos torcedores e diante de dificuldades financeiras.
A série parece, assim, estabelecer uma ideia importante para o restante da temporada: esperança pode ser suficiente para iniciar um projeto, mas não necessariamente para fazê-lo vencer. É uma conclusão coerente para um episódio que foca em médios acontecimentos e prefere preparar lentamente o terreno para os conflitos que ainda estão por vir.
Disponível na Apple TV+, a quarta temporada de Ted Lasso já conta com quatro episódios lançados, com novos capítulos disponibilizados semanalmente até o início de outubro.
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