Dirigido por Macon Blair, Idiotas encontra equilíbrio entre a comédia exagerada e um drama que, nem sempre, consegue acompanhar seu caos
Se existe algo que Idiotas deixa claro desde seus primeiros minutos é que seu roteiro é, na falta de uma palavra melhor, verdadeiramente idiota. E isso não é necessariamente um problema. Um homem, interpretado por O’Shea Jackson Jr., é demitido da congregação em que trabalha após levar crianças para assistir a um filme proibido para menores. Em meio a lágrimas e desculpas esfarrapadas, fica evidente que Davis pode até tomar decisões estúpidas, mas é, curiosamente, a pessoa de melhor coração entre todos aqueles apresentados inicialmente.
Ao seu redor estão figuras igualmente problemáticas, como Mark, um viciado em drogas preguiçoso vivido por Dave Franco, e Sheridan, um sociopata interpretado por Mason Thames. Juntos, eles embarcam em uma viagem na qual Davis e Mark precisam levar Sheridan a uma clínica de reabilitação. Naturalmente, nada sai como planejado. A jornada rapidamente se transforma em uma sucessão de acontecimentos absurdos, criando uma espécie de encontro entre Se Beber, Não Case! (2009, Todd Phillips), e Debi & Lóide: Dois Idiotas em Apuros (1995, Peter Farrelly)
É justamente dessas referências que nasce boa parte do humor da produção. Com uma energia claramente independente, Idiotas aposta em xingamentos, fluidos corporais, sangue, pancadaria e situações progressivamente absurdas provocadas pela inocência, ou simplesmente pela estupidez, de seus protagonistas. É uma comédia que não demonstra qualquer interesse em ser sutil. Para embarcar na experiência, o espectador precisa aceitar as regras desse universo e entender exatamente qual tipo de humor Macon Blair pretende explorar.

Dave Franco em cena de “Idiotas”- Divulgação Imagem Filmes
A grande questão é que o filme funciona melhor quando simplesmente abraça sua própria anarquia. Quando tenta desacelerar para discutir temas como fé, redenção e a ideia de que seus personagens estão fazendo o melhor que conseguem diante das circunstâncias, o ritmo perde força. Existe um paralelo interessante entre a bondade de Davis e a imaturidade caótica de Mark, mas a pausa para momentos dramáticos é desnecessária, afinal, por meio da comédia podemos compreender esta dinâmica de modo bem mais orgânico.
Ainda assim, além dos secundários que roubam a cena com pouco tempo de tela, o elenco principal é um dos grandes acertos da produção. O’Shea Jackson Jr. consegue trazer humanidade para um personagem que facilmente poderia se tornar apenas mais um idiota da história, enquanto Dave Franco abraça completamente o caos de Mark, enquanto Mason Thames interpreta Sheridan com uma inquietante naturalidade, construindo um personagem que transita entre o imprevisível e o genuinamente perturbador.
O problema, portanto, não está no elenco, mas na forma como alguns desses personagens são desenvolvidos. Idiotas parece constantemente interessado em avançar para a próxima grande sequência, sem oferecer ao espectador tempo suficiente para absorver as consequências da anterior. Essa escolha contribui para a sensação de uma verdadeira bola de neve, mas também prejudica alguns momentos que poderiam ganhar maior impacto. Quando o filme finalmente decide parar para respirar, por outro lado, a mudança é brusca demais, interrompendo a energia da comédia e fazendo com que determinados minutos pareçam mais longos do que realmente são.
Visualmente, porém, Macon Blair entende perfeitamente a natureza da história que está contando. A fotografia acompanha a agilidade dos momentos mais insanos, enquanto a direção de arte constrói um universo visualmente barulhento e constantemente sujo, como se existisse uma camada de caos impregnada na própria tela. É uma estética que combina perfeitamente com a narrativa e ajuda a transformar cada nova situação em algo ainda mais exagerado.

Najah Bradley e Peter Dinklage em cena de “Idiotas”- Divulgação Imagem Filmes
E existe uma satisfação curiosa em simplesmente se deixar levar por essa anarquia. Em diversos momentos, Idiotas arranca um sorriso justamente por não tentar justificar cada absurdo que apresenta. Afinal, existe algo inerentemente divertido em assistir ao caos alheio, especialmente quando ele é construído com criatividade suficiente para surpreender. A escalada de acontecimentos funciona como uma bola de neve: quando parece impossível que a situação possa piorar, o filme encontra uma nova maneira de surpreender.
Nem todas essas situações funcionam com a mesma eficiência. Algumas acabam caindo em um terreno excessivamente previsível e recorrem a clichês conhecidos das próprias referências que inspiram o filme. Ainda assim, mesmo com seus tropeços, Idiotas encontra um espaço interessante dentro de um tipo de comédia adulta que parece cada vez mais raro no cinema contemporâneo.
Talvez uma eventual continuação pudesse aproveitar ainda melhor seus personagens, agora que o público já conhece suas personalidades e dinâmicas, elevando o caos a níveis ainda maiores sem precisar gastar tanto tempo com apresentações ou tentativas de aprofundamento dramático. Nesta primeira aventura, porém, Macon Blair entrega uma comédia imperfeita, exagerada e assumidamente estúpida, mas que encontra sua maior qualidade justamente na liberdade de abraçar o absurdo.
Distribuído pela Imagem Filmes, Idiotas chega aos cinemas em 3 de setembro de 2026.
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