Dirigido por Will Lovelace e Dylan Southern, Oasis: Don’t Look Back In Anger acompanha o reencontro da banda por uma perspectiva bíblica, épica e honrosa, mas também um tanto cansativa
Existe algo quase bíblico em acompanhar a trajetória do Oasis. Desde sua criação, em 1991, passando pela meteórica ascensão ao topo do rock britânico e pela queda provocada pelas constantes brigas entre Liam e Noel Gallagher, até a inesperada ressurreição 15 anos depois, a história da banda parece construída em três atos: ascensão, queda e redenção.
É justamente esse arco que Oasis: Don’t Look Back In Anger abraça, mas por uma perspectiva bastante específica: não a dos irmãos Gallagher, e sim a dos fãs que mantiveram viva a chama da banda durante os anos de separação.
Com 120 minutos de duração e roteiro de Steven Knight, o documentário estrutura o reencontro como um grande épico de reconciliação. Há pouco interesse em revisitar as feridas que levaram ao fim do Oasis e muito mais vontade de mostrar o significado de seu retorno. É uma escolha compreensível, mas também uma escolha que acaba passando uma camada de verniz sobre uma história marcada por conflitos, excessos e algumas das mais públicas e desgastantes brigas do rock britânico.
A presença de Knight como responsável pela concepção do filme é, inclusive, curiosa. Se existe algo que o roteirista de Peaky Blinders (2013) conhece bem, é a capacidade de transformar personagens moralmente questionáveis, arrogantes e frequentemente autodestrutivos em figuras grandiosas e, sobretudo, empáticas. O mesmo mecanismo aparece aqui. Só que, em vez de discutir diretamente as brigas entre Liam e Noel, o documentário prefere contorná-las.

Cena de “Oasis: Don’t Look Back In Anger”- Divulgação 20th century Studios
Por meio de imagens de arquivo, acompanhamos shows, gravações e momentos da trajetória do Oasis, além de uma breve linha do tempo que conduz ao rompimento em 2009, pouco antes da apresentação no festival Rock en Seine, em Paris. Não há uma investigação aprofundada sobre o que aconteceu. Não há grandes confrontos, acusações ou detalhes das inúmeras crises que marcaram a relação dos irmãos. O passado aparece quase como uma cicatriz que não precisa mais ser tocada.
Essa escolha fica ainda mais evidente nos primeiros minutos. Durante um ensaio, a câmera insiste em enquadrar um microfone vazio, lembrando constantemente que existe uma ausência naquela sala. Quando Liam chega e protagoniza um momento de comportamento pouco amigável, a banda e o próprio filme parecem congelar. Logo depois, ele vai embora sem se despedir. É uma maneira visualmente eficiente de comunicar que aquela reconciliação não é tão simples quanto parece.
E então chega o momento pelo qual o documentário realmente espera: Liam e Noel entram juntos no palco, de mãos dadas. A sensação é simultaneamente de nostalgia e novidade. Não estamos apenas diante de uma banda retornando; estamos diante de uma memória coletiva que ganha novamente um corpo.
Will Lovelace e Dylan Southern demonstram uma pesquisa rica sobre o impacto da turnê Oasis Live ’25. Existe, naturalmente, um carinho especial pelos fãs britânicos, especialmente na sequência do show em Manchester, mas o documentário faz questão de expandir esse olhar. Coreia do Sul, Estados Unidos, Irlanda e até o Brasil encontram espaço dentro dessa peregrinação mundial.

Cena de “Oasis: Don’t Look Back In Anger”- Divulgação 20th century Studios
Fãs chorando, se abraçando, beijos, maquiagens borradas, famílias, amigos e histórias pessoais que encontram no Oasis uma espécie de trilha sonora particular. Há desde uma sobrevivente do atentado de Manchester de 2017 até uma brasileira cujo cachorro se chama Bonehead, em homenagem ao guitarrista da formação clássica. São histórias que ajudam a compreender que, para muita gente, Oasis deixou há muito tempo de ser apenas uma banda.
Senti falta da identificação de alguns entrevistados, embora, em determinado momento, a quantidade de depoimentos seja tão grande que a ausência de nomes quase se torne uma consequência da própria proposta. São muitos rostos, muitas histórias e muitos sentimentos. O problema é que essa abundância também gera repetição. As homenagens e declarações de amor ao Oasis frequentemente chegam às mesmas conclusões, fazendo com que a experiência se torne redundante.
Ainda assim, existe uma razão para isso. O documentário parece interessado justamente em construir uma nova imagem da banda: menos preocupada com seus integrantes e mais interessada no legado que eles deixaram. Não importa tanto quem brigou com quem. Importa o que aconteceu quando aquelas músicas voltaram a ser cantadas por milhares de pessoas.
Isso funciona especialmente bem quando o filme abandona os depoimentos e simplesmente observa os shows. Wonderwall e Don’t Look Back In Anger, naturalmente, recebem um tratamento especial, mas o que realmente impressiona é a capacidade de registrar uma multidão compartilhando o mesmo sentimento. Quando Liam pede que o público vire de costas e pule, um plano de drone captura milhares de pessoas saltando simultaneamente. É uma imagem simples, mas extremamente eficaz: por alguns segundos, não existem desconhecidos ali. Existe apenas uma multidão unida pelo mesmo refrão.

Cena de “Oasis: Don’t Look Back In Anger”- Divulgação 20th century Studios
O problema é que faltou ao filme coragem para encarar aquilo que tornou o retorno tão improvável. As brigas entre os irmãos, as provocações públicas, as ofensas mais pesadas, os conflitos que continuaram depois do fim da banda e até a longa guerra travada pelas redes sociais poderiam oferecer uma dimensão muito mais interessante à reconciliação. Se o Oasis passou 15 anos separado, compreender o peso dessa distância tornaria o reencontro ainda mais poderoso.
Em vez disso, Oasis: Don’t Look Back In Anger prefere a redenção.
Quando um pastor utiliza os fãs do Oasis como uma analogia para as peregrinações religiosas de outrora, fica evidente o tamanho da aura que o documentário deseja construir. A banda deixa de ser apenas um grupo de músicos e assume uma dimensão quase apoteótica. Os shows parecem missas; os fãs, peregrinos; e as músicas, hinos.
Esqueça as polêmicas. Esqueça o caos. Esqueça as feridas. Este é um novo Oasis.
Essa parece ser a principal mensagem do filme. E talvez seja justamente isso que os próprios irmãos Gallagher desejam neste momento: não reabrir velhas feridas, mas ressignificar o que aconteceu. Noel chega a afirmar que os dois nunca estiveram tão próximos, e a frase funciona quase como uma declaração de princípios para essa nova fase.
Ainda assim, apesar de cansativo e “limpo demais”, Oasis: Don’t Look Back In Anger encontra força em suas imagens grandiosas, na energia dos shows e, principalmente, nos fãs que transformam a banda em algo muito maior do que Liam e Noel Gallagher. Se o documentário não está interessado em explicar o Oasis, mas em mostrar por que ele continua significando tanto para tanta gente, então sua missão é cumprida.
No fim, talvez essa seja a maior contradição do filme: ao tentar transformar o Oasis em uma história de redenção, ele acaba escondendo justamente aquilo que tornou sua ressurreição tão extraordinária.
Distribuído pela Walt Disney Studios, Oasis: Don’t Look Back In Anger terá sessões especiais nos dias 10 e 12 de setembro, antes de sua estreia no Disney+.
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