Dirigido por Guto Parente, Morte e Vida Madalena pode se perder no final, mas entrega uma ode ao cinema independente e ao senso de comunidade
Acima de qualquer medida, Morte e Vida Madalena me trouxe um certo grau de identificação. Para quem faz cinema independente no Brasil, ou ao menos conhece o mercado e os perrengues enfrentados por equipes que trabalham em produções de “guerrilha”, o filme de Guto Parente funciona quase como um grito coletivo: “Eu entendo, eu sei que é difícil, mas, se estamos juntos nessa, pelo menos vamos rir um pouco durante o processo”.
Apesar de partir de uma premissa semelhante à de Saneamento Básico: O Filme (2007, Jorge Furtado), Morte e Vida Madalena mergulha de maneira ainda mais direta nas diferentes etapas e dificuldades de se produzir um longa-metragem. Há o diretor que simplesmente desaparece, o ator cheio de ego que assume o comando e quer mudar o filme inteiro, a assistente de direção que se transforma na ponta firme da produção, o diretor de som que ameaça entrar em greve e a produtora grávida de sete meses que só deseja terminar o projeto para honrar a memória do pai.
Esta última é Madalena. Uma mulher confiante, forte e muito, muito grávida. Guto Parente coloca sua protagonista diante de uma sucessão de problemas, obrigando-a a atravessar o inferno da produção para, no processo, confrontar o próprio passado e descobrir o filme que realmente deseja realizar.
O primeiro e o segundo atos são definidos por uma sequência praticamente ininterrupta de caos. Um problema surge atrás do outro, sem tempo para descanso: polícia chegando, diretor fugindo, chuva, conflitos internos, decisões improvisadas e as inevitáveis ações e reações de uma equipe que tenta manter de pé um projeto que parece condenado ao fracasso. O mais curioso é que os personagens tratam cada situação com o máximo grau de seriedade possível, e é justamente daí que nasce boa parte da comédia.

Cena de “Morte e Vida Madalena”- Divulgação Embaúba Filmes
Quando Madalena chega para Natasha, a assistente de direção, e afirma, de maneira absolutamente séria, que ela é a única pessoa capaz de dirigir o filme, apenas para fazer praticamente a mesma proposta à diretora de fotografia que aparece logo depois, existe uma diferença deliciosa entre a percepção dos personagens e a do espectador. Para eles, o problema é gigantesco: o filme está sem diretor. Para quem observa tudo do conforto da sala de cinema, a situação é tão absurda que só resta rir.
Morte e Vida Madalena está recheado desses momentos. A comédia não nasce necessariamente de uma piada, mas do contraste entre o absurdo da situação e a seriedade com que ela é encarada. A arma do policial utilizada como elemento de cenografia, Madalena assistindo ao vídeo dos terrores provocados por Oswaldo durante a gravação da noite anterior e as inúmeras soluções improvisadas encontradas pela equipe seguem exatamente essa lógica. É um grupo de pessoas diante de situações completamente insanas, mas ninguém parece ter tempo para perceber o quanto aquilo é absurdo.
E talvez seja justamente aí que o filme encontre sua melhor forma.
O problema aparece quando o terceiro ato abandona boa parte desse caos para entrar em um terreno mais contemplativo, dramático e voltado à redenção e ao olhar para o passado. As questões construídas ao longo dos dois primeiros atos são solucionadas de maneira rápida demais, sem a catarse que Morte e Vida Madalena parecia preparar.

Noá Bonoba em cena de “Morte e Vida Madalena”- Divulgação Embaúba Filmes
O dinheiro da produção? O banco depositou. A greve? Rapidamente interrompida. O retorno do diretor fujão? Não provoca grandes alterações nos acontecimentos previamente estabelecidos. De repente, problemas que pareciam capazes de destruir completamente o filme deixam de ter o mesmo peso.
Essas soluções diminuem a potência da obra justamente quando ela deveria atingir seu ápice. O ritmo desacelera e Morte e Vida Madalena passa a explorar o legado de ser um artista no Brasil, a relação com a memória e a própria redenção da protagonista. São temas interessantes e coerentes com aquilo que vinha sendo construindo, mas a transição é brusca demais.
É uma pena, porque o caos era justamente a melhor parte.
Ao chegar ao final, fica a sensação de que algumas situações simplesmente precisavam ser encerradas porque o Morte e Vida Madalena precisava se encerrar, e não necessariamente porque aquela era a resolução mais orgânica para os conflitos apresentados. O terceiro ato não é exatamente ruim, mas parece pertencer a um filme diferente daquele que havia encontrado sua identidade nos momentos anteriores.
Tecnicamente, a produção assume sem vergonha sua condição de cinema independente, e não poderia ser diferente. Existe um cuidado evidente com direção de arte, som e fotografia, que trabalham com uma certa frieza visual bastante interessante. É como se o filme alternasse entre o retrato quase documental de um bando de loucos tentando sobreviver a uma produção impossível e um espaço mais contemplativo, no qual seus personagens podem finalmente respirar.
Mas, acima de tudo, o que mais grita é o sentimento de comunidade e resistência transmitido pela união daquela equipe.

Cena de “Morte e Vida Madalena”- Divulgação Embaúba Filmes
Ninguém faz arte somente por amor. Isso é um mito. Existe dinheiro, existem prazos, existem egos, burocracias, frustrações e uma quantidade quase infinita de problemas envolvidos. Mas, sem algum tipo de amor, provavelmente nem começamos o projeto.
E talvez esse seja o grande suspiro de Morte e Vida Madalena.
Em meio à precariedade, ao improviso e à completa falta de controle, ainda existe alguma coisa capaz de manter aquelas pessoas juntas. O filme encontra nesse sentimento um pequeno farol de esperança para um mercado cinematográfico brasileiro que, muitas vezes, parece funcionar justamente na base do improviso.
Claro, na vida real, os problemas não serão resolvidos por mágica. O banco não necessariamente depositará o dinheiro, a greve não acabará convenientemente e o diretor que desapareceu provavelmente continuará sendo um problema. Mas a bagunça exagerada de Morte e Vida Madalena é suficientemente reconhecível para despertar empatia.
E, embora seja uma produção bastante voltada ao público de festivais e aos espectadores mais familiarizados com os bastidores do cinema independente, existe algo universal em sua proposta: quem nunca passou por um pouco de caos no trabalho, achou que tudo estava perdido e, de alguma maneira, conseguiu chegar ao outro lado?
Distribuído pela Embaúba Filmes, Morte e Vida Madalena chega aos cinemas em 17 de setembro.
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