Dirigido por Alejandro González Iñárritu, Digger é ousado e grandioso em uma escala pouco vista no cinema contemporâneo, porém, esta mesma ousadia cobra seu preço
Depois de alguns de seus trabalhos mais recentes, Alejandro González Iñárritu parece cada vez mais interessado em construir filmes que não apenas contem uma história, mas façam questão de demonstrar a dimensão de sua própria construção. Há algo de grandioso, autoconsciente e, por vezes, egocêntrico em sua maneira de fazer cinema, seja na escala estética ou na ambição temática. Em Digger, essa característica não apenas permanece como é levada ao limite.
Existe, inclusive, um cuidado evidente em esconder o que realmente está por trás da produção. Durante a cabine de imprensa, fomos orientados a não revelar determinados acontecimentos para preservar a experiência do público. É uma estratégia compreensível, especialmente porque Digger depende bastante do fator surpresa para construir sua identidade. O problema é que, depois que o mistério começa a ser revelado, percebemos que o filme é muito menos interessado em esconder suas intenções do que em transformar cada descoberta em mais uma camada de sua própria megalomania.
Muito além de uma sátira sobre o estado atual do mundo, Digger constrói uma caricatura bastante evidente de determinadas figuras do poder contemporâneo. Embora Donald Trump não seja mencionado diretamente, a associação é difícil de ignorar, principalmente quando o roteiro incorpora referências a acontecimentos políticos recentes, como o posicionamento dos Estados Unidos em relação à COP30.
De um lado, temos uma sátira política contemporânea que busca dialogar com absurdos semelhantes ao de Dr. Fantástico (1964, Stanley Kubrick). Do outro, surge uma reflexão metalinguística sobre a própria arte e sobre a maneira como ela pode ser utilizada, e distorcida, para reconstruir, justificar ou até mesmo suavizar alguns dos momentos mais sombrios da história.

Tom Cruise em cena de “Digger”- Divulgação Warner Bros Pictures
E Iñárritu leva tudo ao limite.
A comédia funciona em determinados momentos, mas também passa longe de provocar o riso em outros. Isso se torna ainda mais evidente a partir da metade do segundo ato, quando a produção gradualmente abandona parte de seu potencial satírico para se concentrar no drama e na jornada individual de Digger. Seus conflitos internos passam a ocupar o centro da narrativa, potencializados por uma atuação magistral de Tom Cruise, que encontra aqui um personagem completamente diferente daqueles que normalmente o transformaram em astro.
Cruise entende perfeitamente o jogo proposto por Iñárritu. Existe uma caricatura física, vocal e comportamental na composição, mas também uma consciência permanente de que estamos assistindo a uma performance. O ator parece interpretar alguém que, por sua vez, está constantemente interpretando um personagem para o mundo. E essa camada adicional é justamente uma das ideias mais interessantes do filme.
Assistir a Digger em IMAX também evidencia a dimensão da produção. Os cenários são gigantescos, os planos abertos estão constantemente preenchidos por personagens e acontecimentos, e Iñárritu utiliza a amplitude da imagem para transformar o próprio espaço em espetáculo. Sandra Hüller, John Goodman e Riz Ahmed completam um elenco que entende a proposta exagerada do diretor e mergulha nela sem medo de parecer artificial.
Digger coloca um holofote não exatamente sobre o rosto do espectador, mas sobre aqueles que concentram poder, dinheiro e influência, enquanto transformam lucro e controle em prioridades superiores à sustentabilidade e ao próprio futuro. O petróleo é o centro dessa engrenagem. E, quando ele se torna perigoso demais para ser defendido abertamente, Digger Rockwell surge como o homem disposto não necessariamente a salvar o planeta, mas a controlar a narrativa de modo que pareça estar fazendo exatamente isso.

Tom Cruise em cena de “Digger”- Divulgação Warner Bros Pictures
É aí que a sátira encontra sua melhor forma.
A sequência em que o empresário entra em uma espécie de tribunal da Inquisição e consegue convencer todos de que, sim, ele é um completo canalha, mas ainda assim está certo, é um dos grandes momentos do filme. A cena é filmada como uma peça de teatro, com um cenário deliberadamente falso, quase como uma reconstrução teatral de acontecimentos que poderiam ter ocorrido em algum universo paralelo.
A artificialidade, portanto, deixa de ser um defeito e passa a fazer parte da linguagem.
Iñárritu parece perguntar constantemente até onde podemos acreditar naquilo que estamos vendo. E essa pergunta se estende à própria atuação, à política, à mídia e à maneira como construímos narrativas para tornar o absurdo aceitável. A sensação recorrente é justamente esta: “O que está acontecendo aqui?”
O exagero, o trabalho de maquiagem meticuloso de Cruise, uma gata moribunda com mais de 35 anos, personagens que muitas vezes funcionam mais como arquétipos do que como indivíduos realmente profundos e uma série de elementos aparentemente fundamentais que acabam tendo uma importância muito menor do que o marketing sugere, são apenas algumas das escolhas que tornam o longa simultaneamente fascinante e confuso.
Existem, essencialmente, duas maneiras de assistir a Digger: embarcar completamente em sua proposta de retrato absurdo da sociedade contemporânea, aceitando as situações que não fazem sentido, as inúmeras reviravoltas e a grandiosidade propositalmente excessiva de Iñárritu; ou simplesmente desistir quando perceber que o filme não pretende oferecer uma narrativa convencional.

Tom Cruise em cena de “Digger”- Divulgação Warner Bros Pictures
Quando chegamos ao terceiro ato, o senso de absurdo já tomou conta da produção. Existe uma sensação de que o filme tem receio de explorar todas as possibilidades daquele universo satírico e, em determinado momento, tenta recuperar o espectador por meio de um drama mais convencional, e uma discussão sobre o papel da arte, quando aquele não é o melhor espaço para.
O resultado é justamente o contrário.
Em vez de aproximar, essa mudança de direção distancia ainda mais o público e torna a experiência particularmente confusa. É como se Iñárritu tivesse construído uma enorme máquina cinematográfica e, quando finalmente chegasse o momento de observar seu funcionamento, decidisse acrescentar mais algumas engrenagens simplesmente porque ainda havia espaço.
Ainda assim, Digger é um épico contemporâneo sobre o estado em que nos encontramos como sociedade. E é justamente sua artificialidade que permite que ele funcione como sátira. Cenários, figurinos, direção de arte, maquiagem, atuações exageradas e até mesmo a própria construção dos personagens parecem pertencer a um espetáculo teatral gigantesco. Tudo é grande demais, falso demais e elaborado demais, e essa é precisamente a linguagem escolhida pelo diretor.
O filme transforma o próprio excesso de Iñarritu em discurso.
Não é uma produção para todo mundo. Longe disso. Digger é confuso, exagerado e, em alguns momentos, parece mais interessado em provar o tamanho de sua própria ambição do que em desenvolver adequadamente aquilo que apresenta. Mas também é o tipo de obra que continua ecoando depois dos créditos, justamente porque suas ideias são maiores do que sua narrativa consegue comportar.
E, considerando que nunca fui particularmente fã dos filmes mais autocentrados de Iñárritu, há algo curioso em admitir que Digger conseguiu me entreter muito mais do que Birdman (2014), O Regresso (2015) e, definitivamente, Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades (2022).
Talvez porque, pela primeira vez, o ego de Iñárritu não esteja apenas no caminho do filme.
Ele seja o próprio filme.
Distribuído pela Warner Bros. Pictures, Digger chega aos cinemas em 1º de outubro de 2026.
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