No último sábado, 3, o longa Contos Paralelos foi exibido no cinema da Reserva Cultural de Niterói, pelo Festival do Rio, com uma fala inicial do premiado diretor e roteirista Asghar Farhadi. Ele explica que aparentemente a narrativa parece diferente de sua filmografia, mas que ao final, o público poderá perceber algumas semelhanças. Os presentes acham graça da colocação, curiosos para finalmente assistir o filme.
Com um elenco renomado com nomes como Vicent Cassel – que o público brasileiro e principalmente carioca tem um carinho especial – a trama conta a história de uma escritora que do seu apartamento em Paris observa a vida das pessoas de um prédio em frente ao seu e utiliza o que vê com a ajuda de um binóculo e com uma pitada (ou uma colherada inteira) de imaginação como inspiração para suas ficções. Só essa premissa já é interessantíssima, trazendo esse voyeurismo que desperta atenção. Sentimos uma apreensão inicial tentando entender se a autora será descoberta, o que da sua história é real e o que é imaginado e sentimos uma atração pelos personagens que ela observa, com ela.
Tem um certo charme mergulhar na história através de uma protagonista que mergulha em outras histórias na própria trama e o magnetismo dessas figuras vai além de uma simples romantização de suas vidas.
Ao longo da narrativa, esse caráter de metalinguagem vai abrindo espaço para o crescimento dos outros personagens, e alguns moradores do prédio a frente descobrem que estão sendo vistos e mais: tem acesso ao que tá sendo escrito sobre eles. Nossa protagonista, a escritora, vai se tornando mais humanizada e menos narradora da vida alheia, o que reforça uma carga dramática que ajuda a colorir a trama.
E, por fim, o desenrolar é realmente impecável. Personagens riquíssimos individualmente com conflitos interessantes vão se esbarrando em uma jogo de gato e rato reagindo às ações um dos outros nesses Contos Paralelos. O conflito dos observados que lêem a história sobre eles, é um ponto muito forte causando neles distanciamento, repulsa e identificação ao mesmo tempo. Alguns tentam demonstrar um desinteresse sem sucesso, outros buscam ativamente não falar mais sobre o assunto, para todos, em algum momento, o desconforto é nítido e tragicômico.
É uma comédia de erros, dessas que remontam à Shakespeare. Tudo dá errado pra todo mundo, todas as histórias se costuram, e o público não sabe se torce pra resolução (mesmo sabendo ser em vão) ou se aceita o caos e sente aquele nervoso gostoso dos personagens batendo cabeça. Mas não é só isso, ele tem um drama no fundo também, a ironia é usada para dar luz ao cinismo de cada um, em sua humanidade, fazendo piada do destino, mas a densidade dos personagens faz a gente criar empatia com suas ações. E nas reações, o que aparece é o espaço privado saindo do controle assim como a vida de cada um.
Os que vêem e imaginam as histórias de longe invadem de tal forma que o desconcerto é certo. A estranheza está presente sem abandonar a familiaridade das emoções mais humanas quanto possível. Nesse sentido, o roteiro é brilhante. Farhadi assina junto com Saeed Farhadi e Krzysztof Kieslowski com uma estética interessantíssima dando um ritmo cíclico desde o início quando a tensão é marcada por um acidente na protagonista, até o final que parece dar uma piscadela ao expectador atento.
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