Dirigido por Andreï Zviaguintsev, Minotauro entrelaça repressão, masculinidade e política em uma narrativa que perde força ao insistir demais em suas próprias metáforas
Existem dois grandes universos narrativos em Minotauro. O primeiro acompanha Gleb, sua esposa, Galina, e seu filho, Serioja. Empresário com uma vida aparentemente estável, Gleb representa uma masculinidade fundamentada na autoridade e no controle. Logo no início, ensina o filho a se defender de um valentão da escola, mas essa fachada começa a ruir quando ele se vê diante do caso extraconjugal da esposa. Incapaz de lidar com a própria impotência, o protagonista passa a revelar as contradições por trás da imagem de homem que construiu para si.
No macrocosmo, a história se desenvolve durante o início da invasão russa à Ucrânia. Gleb é responsável por selecionar e enviar jovens para o front, mesmo sabendo que muitos deles talvez jamais retornem. Enquanto sua vida pessoal desmorona, os funcionários de sua empresa começam a se demitir por receio de serem enviados para a guerra, ampliando a sensação de colapso.
A deterioração desses dois universos estabelece um paralelo entre a crise individual do protagonista e a violência de um sistema que transforma pessoas em peças descartáveis. O problema é que essa espiral de desintegração se estende por 140 minutos, quando poderia produzir um efeito semelhante com uma narrativa muito mais concisa.

Iris Lebedeva em cena de “Minotauro”- DIvulgação Mostra SP
Mesmo com Gleb no centro da trama, Zviaguintsev ocasionalmente desloca o foco para personagens secundários que aparecem em uma única sequência, contribuindo para a construção daquele universo, mas nem sempre justificando o tempo dedicado a eles.
A própria composição do filme reforça sua preocupação com o masculino e suas manifestações de poder, tanto nas ações quanto nas imagens. Nesse contexto, Galina é a única personagem feminina que recebe algum desenvolvimento mais significativo. Ao final, depois de todo o caos provocado pelas decisões de Gleb, ela permanece ao lado do marido, mas em silêncio. A escolha sugere a permanência de uma estrutura de dominação da qual a personagem não consegue escapar, embora Minotauro pudesse explorar melhor as implicações desse desfecho.
O título permite diferentes interpretações. Assim como os jovens enviados a Creta no mito grego, aqueles que Gleb encaminha para a guerra são entregues a uma máquina de poder que os consome em nome de interesses maiores. O labirinto, por sua vez, representa a impossibilidade de escapar de um sistema que perpetua a violência, a corrupção estatal e a repressão.

Iris Lebedeva em cena de “Minotauro”- DIvulgação Mostra SP
Enquanto isso, Gleb também pode ser lido como uma representação do autoritarismo de Vladimir Putin: um homem que sustenta uma imagem de autoridade enquanto reproduz a violência que mantém sua posição. No âmbito familiar, essa mesma necessidade de controle se manifesta na incapacidade de lidar com a própria fragilidade.
A cinematografia fria e sombria de Zviaguintsev reforça essa leitura. Os personagens parecem presos em espaços dos quais não conseguem escapar, como se a própria imagem materializasse o labirinto que os aprisiona. Quando Galina ensaia uma saída dessa escuridão, acaba retornando à posição anterior. É possível aproximar seu percurso do simbolismo de Ariadne, mas a multiplicação de referências mitológicas não necessariamente aprofunda o que já está expresso na narrativa. Em determinado momento, a interpretação deixa de ampliar a experiência e passa a disputar espaço com ela.
É justamente nessa insistência que Minotauro encontra seu maior problema. O filme articula uma crítica ao poder, aproxima o universo familiar do cenário político e constrói uma sensação persistente de impotência coletiva. Entretanto, em vez de confiar na força dessas relações, Zviaguintsev parece temer que o espectador não compreenda sua mensagem. O silêncio, a duração dos planos e a frieza das imagens, recursos que poderiam criar desconforto e abrir espaço para a reflexão, acabam frequentemente sublinhando uma importância que a própria narrativa já estabeleceu.
O plano final das nuvens sintetiza essa contradição. Em vez de funcionar apenas como uma imagem aberta à contemplação, Minotauro encerra com um plano parece exigir que o espectador interrompa a experiência para decifrar o que acabou de assistir.

Dmitri Mazourov e Iris Lebedeva em cena de “Minotauro”- DIvulgação Mostra SP
Não há problema em propor uma reflexão prolongada, mas a insistência em conduzi-la torna a experiência excessivamente autoconsciente, como se o filme precisasse anunciar a relevância de cada escolha estética. O que poderia ser um convite à interpretação se aproxima, assim, de uma imposição.
A discussão sobre homens poderosos que instrumentalizam outras pessoas para administrar as próprias frustrações é pertinente e politicamente contundente. O problema não está na mensagem, mas na dificuldade de transformá-la em uma experiência que evolua para além de sua premissa. A indignação de Zviaguintsev é compreensível, mas a repetição enfraquece justamente aquilo que o filme pretende intensificar. O que começa como um retrato sufocante da opressão termina em um marasmo de sequências longas e metafóricas, algumas das quais prolongam ideias que já encontraram expressão suficiente.
Minotauro funciona, em seus melhores momentos, como um expurgo de raiva brilhantemente executado. Contudo, não consegue sustentar a mesma força catártica durante mais de duas horas. Ao insistir tanto na própria indignação, Zviaguintsev transforma uma crítica potente ao autoritarismo e à fragilidade daqueles que exercem o poder em uma experiência que parece menos interessada em desenvolver suas ideias do que em reafirmá-las. A mensagem permanece relevante, mas sua execução acaba soterrada pelo excesso.
Escolhido pela França para representar o país na próxima edição do Oscar e distribuído pela Imovision, em parceria com a MUBI BRASIL, Minotauro integra a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece entre 15 e 29 de outubro de 2026.
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