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Cena de "The History of Concrete"- Divulgação Mostra SP
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Crítica: ‘The History of Concrete’ mostra o absurdo da realidade em espirituoso docuficção

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 7 de outubro de 2026
7 Min Leitura
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Cena de "The History of Concrete"- Divulgação Mostra SP
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Dirigido por John Wilson, The History of Concrete mescla documentário e ficção em uma jornada cômica que parece surreal, mas, tristemente, revela a realidade em que vivemos

The History of Concrete é, sem dúvida, uma das docuficções mais engraçadas que assisti nos últimos tempos. Boa parte de seu humor nasce justamente da combinação entre a narração de John Wilson, os cortes secos, a ironia dramática e a maneira como o filme transforma um assunto aparentemente banal em matéria-prima para uma observação bastante peculiar do mundo. Afinal, o que poderia ser mais desinteressante do que um documentário sobre concreto? A resposta de Wilson é simples: praticamente tudo pode se tornar interessante quando observado pelo ângulo certo, ou neste caso, pelo mais absurdo possível.

A grande sacada está no modo como The History of Concrete utiliza essa premissa para construir, simultaneamente, uma crítica à própria indústria audiovisual e à sociedade contemporânea. Em determinado momento, é perfeitamente normal acompanharmos uma corrida que dura mais de 50 dias e acontece dentro de um único quarteirão ou uma competição de empilhamento de tijolos. Existe um cinismo enorme na maneira como Wilson registra essas situações, mas também uma espécie de perplexidade genuína: “Meu Deus, esta é a realidade em que vivemos. Como isso é possível?”. E a resposta mais assustadora é justamente perceber que é completamente possível.

Em uma mistura de Idiocracia (2006, Mike Judge), com os documentários de situações em que nunca sabemos exatamente o que é real e o que foi orquestrado por Wilson, The History of Concrete transforma a própria estrutura documental em piada. O filme começa com uma rápida análise sobre a estrutura, o tema e a produção de um longa da Hallmark e, a partir desse modelo, passa a construir a própria obra que estamos assistindo. Assim, acompanhamos praticamente em tempo real o processo de Wilson tentando vender o documentário que, ironicamente, já estamos vendo. Essa estrutura metalinguística, ácida e veloz é um dos grandes responsáveis pelo charme da produção.

Cena de "The History of Concrete"- Divulgação Mostra SP

Cena de “The History of Concrete”- Divulgação Mostra SP

O problema é que, depois de determinado ponto, até mesmo o concreto encontra seus limites. Assim como acontece com qualquer documentário que se aprofunda em um objeto tão específico, existe um momento em que o assunto deixa de sustentar sozinho a narrativa. É justamente aí que Wilson amplia seu olhar e passa a utilizar o concreto como uma espécie de porta de entrada para os absurdos da sociedade estadunidense.

Ele faz amizade com músicos, entrevista policiais, conversa com um homem cujo trabalho consiste em remover marcas de chiclete do concreto, encontra pessoas completamente comuns e cruza com figuras mais conhecidas. Cada encontro acrescenta uma nova camada ao filme, que aos poucos deixa de ser exatamente sobre concreto para se transformar em uma observação sobre as pessoas e os sistemas que construímos ao redor delas.

E existe uma ironia particularmente interessante nessa escolha. Assim como as produções da Hallmark conseguem atrair milhões de espectadores apesar de frequentemente oferecerem pouco em termos de conteúdo, o concreto está presente em praticamente todos os lugares de nossas vidas, embora raramente paremos para pensar sobre ele. É banal, funcional e onipresente. Justamente por isso, quase invisível. Wilson encontra nesse objeto frio e aparentemente sem vida uma maneira bastante eficiente de discutir um mundo cada vez mais estranho.

Cena de "The History of Concrete"- Divulgação Mostra SP

Cena de “The History of Concrete”- Divulgação Mostra SP

O que prende a atenção em The History of Concrete é justamente a combinação de elementos: o excelente timing cômico, a edição veloz, os cortes secos e inesperados, a crítica aos absurdos sociais, a autoconsciência e, principalmente, o olhar cínico de Wilson para o mundo. Existe uma leveza considerável em boa parte dos seus 100 minutos, mas o filme não consegue sustentar o mesmo nível de comicidade durante toda a duração. Em alguns momentos, estamos gargalhando diante de uma situação completamente absurda; no seguinte, simplesmente observamos concreto enquanto uma piada que parecia promissora desmorona diante de nós.

Essa irregularidade, porém, também aproxima o filme de uma tradição muito específica de comédia documental. A sensação constante de “o que está acontecendo aqui?” remete diretamente ao trabalho de Nathan Fielder, outro criador interessado em borrar as fronteiras entre documentário e ficção e em explorar situações tão estranhas que parecem impossíveis de terem acontecido espontaneamente. A diferença é que Wilson parece menos interessado em controlar completamente o caos e mais disposto a simplesmente observar até onde ele pode chegar.

No fim, a estrutura de The History of Concrete acaba sendo mais interessante do que o próprio conteúdo. Não importa necessariamente o que é dito sobre concreto, Hallmark ou qualquer uma das situações bizarras registradas ao longo da jornada. O que realmente permanece são os olhares, os encontros e as reflexões que surgem dessas discussões. Wilson transforma o banal em absurdo e o absurdo em um retrato bastante reconhecível do mundo contemporâneo.

Talvez essa seja a grande ironia do filme: The History of Concrete começa falando sobre algo que parece não ter absolutamente nada a dizer e termina encontrando, justamente nessa falta de importância, uma maneira curiosamente eficiente de falar sobre quase tudo.

Participando da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, The History of Concrete terá sessões durante o evento, que acontece entre 15 e 29 de outubro de 2026.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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