Dirigido por Eliza Capai, A Fabulosa Máquina do Tempo é um mergulho nos sonhos, desejos e ilusões das meninas do vilarejo mais pobre do Brasil
Quando um documentário consegue unir imaginação e realidade, o resultado pode ser surpreendente. É exatamente isso que acontece em A Fabulosa Máquina do Tempo. Ao acompanhar crianças, mais especificamente meninas, o filme desperta simultaneamente um sentimento de nostalgia pela infância e de inquietação diante do futuro que as aguarda.
A metáfora da máquina do tempo atravessa toda a narrativa. Ela se manifesta desde a abertura, quando a leitura do trecho inicial do livro de Gênesis é seguida por uma encenação de Adão e Eva realizada pelas próprias meninas. A partir desse momento, o documentário lança sua primeira grande reflexão: e se Eva não tivesse sido criada a partir do homem? O que mudaria?
Embora Ana, Ana Vitória, Joice, Laiane, Larissa, Laura e as demais tenham pouco menos de dez anos, todas demonstram uma maturidade surpreendente para a idade. Ao observarem a trajetória de suas mães e avós, a ideia da “fabulosa máquina do tempo” ganha um novo significado. Somos imersos na realidade de Guaribas, pequeno município do Piauí, onde passado, presente e futuro parecem coexistir em uma mesma experiência marcada por perdas, privações, desejos e esperança.

Cena de “A Fabulosa Máquina do Tempo”- Divulgação Descoloniza Filmes
Eliza Capai entrevista as crianças sobre temas como pecado, medo e religião. No entanto, é quando as próprias meninas entrevistam suas mães que o documentário encontra sua maior potência emocional. Como verdadeiras viajantes no tempo, elas buscam compreender o passado para enxergar o futuro que talvez as espere.
A Fabulosa Máquina do Tempo constrói um delicado sentimento agridoce. As reflexões dessas meninas, que continuam sendo crianças, mas já carregam responsabilidades e expectativas normalmente atribuídas à vida adulta, emocionam e inquietam. A ausência de homens em posições de destaque não parece acidental. Pelo contrário, reforça a sensação de que este é um filme feito por elas e para elas, registrando seus sonhos, medos e desejos como uma tentativa de preservá-los no tempo.
Um dos acontecimentos mais simbólicos acontece durante a passagem da Carreta Furacão. O espetáculo de luzes e cores transforma o medo inicial diante daquelas figuras estranhas em acolhimento, diversão e encantamento. Assim como o próprio amadurecimento, aquilo que inicialmente assusta acaba dando lugar à descoberta.
Narrado pelas próprias meninas, A Fabulosa Máquina do Tempo acompanha justamente essa transição entre infância e adolescência. Não por acaso, uma das conversas finais aborda a menstruação, marcando simbolicamente essa passagem. Se suas mães não conseguiram realizar muitos de seus sonhos, talvez elas consigam. Ainda assim, permanece uma inquietação inevitável: embora a realidade seja diferente daquela vivida pelas gerações anteriores, algo reforçado pelo letreiro final sobre os impactos do Bolsa Família na comunidade, será que essa esperança será suficiente para romper um ciclo tão profundo?

Cena de “A Fabulosa Máquina do Tempo”- Divulgação Descoloniza Filmes
Entre os momentos mais marcantes está aquele em que cada menina revela o que deseja ser quando crescer: médica, advogada criminalista, atriz. Em meio a tantas profissões, uma resposta ecoa com força: empregada. Quando ela encena esse futuro, empunhando uma vassoura aos dez anos de idade, o contraste entre sonho e realidade torna-se devastador. É impossível não enxergar, naquele gesto aparentemente simples, um espelho das limitações impostas por sua condição social.
Visualmente, A Fabulosa Máquina do Tempo valoriza os aspectos mais lúdicos da infância por meio de uma fotografia sensível e de uma narrativa que flerta constantemente com o imaginário por conta de desabafos e uma leveza entregue por estas crianças.
Ao mesmo tempo, o documentário nunca perde de vista os desafios que cercam essas meninas. Ao concentrar boa parte de sua atenção nos sonhos e projeções para o futuro, o documentário dedica menos espaço à observação mais concreta do cotidiano presente, privilegiando a dimensão simbólica em detrimento de um olhar mais direto sobre as estruturas que moldam suas vidas.
Talvez essa seja uma escolha consciente de Eliza Capai. Ao abraçar a fabulação e a esperança, a diretora evita transformar o filme em um documentário de denúncia tradicional. Essa decisão torna a obra mais poética, mas também exige do espectador um certo exercício de fé para acreditar que aquelas meninas conseguirão, de fato, romper o destino que tantas gerações antes delas pareciam já ter escrito.
Distribuído pela Descoloniza Filmes, A Fabulosa Máquina do Tempo chega aos cinemas no dia 30 de julho.
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