Dirigido por Lee Cronin, A Maldição da Múmia pega emprestado tudo o que funcionou em outros filmes de terror e constrói algo desconfortável e, em alguma medida, memorável.
Comumente se diz, em mesas de bar, que é difícil fazer um bom filme de terror. Assim como o humor, o medo é profundamente subjetivo, variando de pessoa para pessoa. Nesse cenário, muitos cineastas acabam confundindo medo com desconforto ou pura escatologia, gerando experiências que passam longe do impacto desejado e, em vez disso, desgastam a audiência. De vez em quando, porém, surge um filme como A Maldição da Múmia: uma obra que não reinventa a roda, mas entende com precisão os elementos que estruturam um bom terror.
Em Matinee (1993, Joe Dante), Lawrence Woolsey explica de forma bastante direta que, em um filme de monstro, não ganhamos nada cobrindo os olhos. A experiência está justamente em sentir os arrepios, o desconforto e o medo, para quando as luzes se acenderem, percebermos que seguimos vivos. Há algo de catártico nisso. Ao construir uma espécie de versão geracional de O Exorcista (1973, William Friedkin), Lee Cronin não apenas abraça essa ideia, como a leva ao limite.
A história é simples em sua estrutura, mas se complica ao tentar expandir seu universo. A trama acompanha uma família que, após o sequestro de sua filha de oito anos, Katie, no Cairo, vive mergulhada em luto e angústia no Novo México. Quando recebem a notícia de que a menina foi encontrada, reacende-se a esperança de reconexão, mas logo fica claro que algo está profundamente errado. Katie retorna diferente, possuída por uma força sinistra.

Cena de “A Maldição da Múmia”- Divulgação Warner Bros
A base emocional de A Maldição da Múmia está na ideia de que o amor pode superar tudo, atravessada por temas como culpa, luto e a dificuldade de lidar com o passado. Paralelamente, o filme introduz uma mitologia envolvendo demonologia egípcia e conduz uma investigação que se intercala com os momentos de tensão familiar. À medida que Katie manifesta comportamentos e habilidades cada vez mais perturbadores, a conexão com o clássico de Friedkin se torna evidente.
Em contraste, os personagens secundários caem em decisões típicas, e por vezes questionáveis, do gênero de terror. É fácil julgar essas escolhas do conforto da poltrona, mas o filme pede um certo exercício de empatia. Dentro daquele contexto, marcado por desespero, amor e culpa, as atitudes ganham outra dimensão, especialmente quando observamos a força emocional da mãe e o peso carregado pelo pai.
Os clichês estão todos presentes: o acadêmico que auxilia na investigação, a possessão que se espalha, o comportamento ambíguo da entidade. Nada disso é novo, e o filme não tenta disfarçar. Em vários momentos, é inevitável lembrar de obras como Hereditário (2018, Ari Aster), seja pela atmosfera sufocante, seja pelo foco no colapso familiar diante do horror.
O grande trunfo de A Maldição da Múmia está justamente na sua atmosfera. A fotografia aposta em planos fechados, muitas vezes colocando a entidade em primeiro plano e a família em segundo, ou aproximando-se ao máximo dos rostos para intensificar a sensação de agonia. Esse recurso funciona especialmente bem graças ao trabalho de maquiagem e à atuação de Natalia Grace, que entrega uma performance sem barreiras, verdadeiramente inquietante. Enquanto a trilha sonora complementa esse efeito com precisão, alternando entre composições constantes e momentos de ruptura abrupta, do ruído intenso ao silêncio quase ensurdecedor.

Billie Roy em “A Maldição da Múmia”- Divulgação Warner Bros
Por outro lado, A Maldição da Múmia pouco se aprofunda em sua própria mitologia. Os elementos sobrenaturais surgem conforme a necessidade do roteiro, sempre de forma funcional, mas raramente explorados com maior profundidade. Ainda assim, quando chegamos ao terceiro ato, já estamos completamente imersos. O conflito final se afasta tanto do tom aventuresco da versão com Brendan Fraser quanto do espetáculo caótico da releitura com Tom Cruise. Aqui, o clima é de desespero: as apostas são altas, e a sensação de que o mal pode prevalecer é constante.
A resolução ecoa diretamente o desfecho de O Exorcista, conduzindo a um epílogo que soa desnecessário e um tanto anticlimático. Ainda assim, a produção se sustenta por suas sequências marcantes e por uma atmosfera que permanece mesmo após o fim da sessão. Há problemas de ritmo e uma investigação que poderia ser mais bem desenvolvida, mas o saldo final é positivo.
A Maldição da Múmia não reinventa o gênero, mas entende como operá-lo. E, ao fazer isso, entrega uma experiência desconfortável na medida certa, daquelas que permanecem com o espectador mesmo depois que as luzes do cinema se acendem, e o peso de toda a situação persiste ainda mais.
Distribuído pela Warner Bros. Pictures, A Maldição da Múmia estreia nos cinemas no dia 16 de abril.
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