Dirigido por Tainá Muller e Isis Broken, Apolo é um retrato de amor, coragem e renovação nas famílias LGBT+
Segundo o dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), divulgado em 27 de janeiro de 2025, o Brasil segue entre os países mais letais para pessoas trans. Em 2024, foram registradas 122 mortes, em sua maioria mulheres jovens, negras e nordestinas, exatamente o perfil de Isis Broken, diretora, mulher trans, mãe e uma das protagonistas de Apolo. Ao lado do marido, Lorenzo, um homem trans que também se encaixa nessa mesma vulnerabilidade estatística, Isis transforma sua vivência em cinema, oferecendo não apenas um registro familiar, mas também um gesto político de existência.
Premiado como Melhor Longa-Metragem Documentário e Melhor Trilha Sonora Original no 27º Festival de Cinema do Rio, Apolo aposta numa estética de câmera na mão que remete ao vídeo caseiro. O gesto não é casual: a simplicidade visual atua como ponte de intimidade, enfatizando que, mais do que a forma, é a mensagem que importa. Ao filmarem o processo de gravidez vivido pelos dois, com cada um enfrentando suas próprias jornadas corporais, Isis e Lorenzo produzem um documento para o filho Apolo.

Isis Broken e Lourenzo Duvale em cena de ‘Apolo’- Divulgação
O filme alterna entre reflexões filosóficas, cenas cotidianas e momentos de confronto, criando uma narrativa que transita entre ternura e tensão. Consultas médicas, relatos de transfobia e episódios dolorosos, como o atrito ocorrido em um hospital de Aracaju, são apresentados de maneira direta e impactantes. Ao mesmo tempo, surgem cenas que exaltam a beleza do casal, com enquadramentos que evocam ensaios fotográficos: imagens cuidadosas, grandiosas, que legitimam e celebram aqueles corpos.
A premiada trilha sonora reforça a imersão emocional, acompanhando tanto o peso das violências estruturais quanto a leveza dos instantes de afeto. Um beijo, um mergulho no lago, o riso entre familiares, a pausa para descanso, cada detalhe compõe um mosaico de resistência.
Com 77 minutos de duração, o documentário constrói um retrato poético e potente das turbulências e belezas de um relacionamento. Medos, inseguranças, expectativas e sonhos aparecem sem filtro, evidenciando que a chegada do bebê não é apenas um marco familiar, mas também um gesto de cura. Como afirma Isis, “as pautas sobre famílias transcentradas, sobre maternidade e paternidade trans, precisam ser visibilizadas. É difícil, mas é também uma forma de resistência e de construção de um futuro mais justo”.
A fala da correalizadora Tainá Muller reforça essa perspectiva ao abordar o debate atual sobre a ideia de família: “A entidade ‘família’ é um conceito capturado no mundo inteiro hoje pela política, pois entenderam que em um mundo fragmentado é onde as pessoas se fortalecem. Mas há uma distorção que tenta limitar esse conceito a uma caixinha de ‘normatividade’, e acho que Apolo vem mostrar que outros modelos familiares não só são possíveis, como merecem igual respeito”.

Isis Broken em cena de ‘Apolo’- Divulgação
Embora algumas situações se repitam, o filme conquista pela força de sua proposta: não responder à violência com violência, mas com afeto. A obra carrega a sensação de que a felicidade é possível, mesmo diante das dificuldades que atravessam a experiência trans no Brasil, tornando Apolo um abraço estendido ao futuro, uma afirmação de que existir, amar e criar novas formas de família é, em si, um ato revolucionário.
Distribuído pela Biônica Filmes, Apolo concorre atualmente ao Coelho de Ouro, principal prêmio do Festival Mix Brasil, e tem estreia comercial marcada para 27 de novembro.
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