Dirigido por Aly Muritiba, Barba Ensopada de Sangue apresenta uma transposição cinematográfica que flerta diretamente com o literário, tanto em ritmo quanto em sua composição estética e visual.
Se existe algo capaz de atravessar gerações e realmente mover alguém, é uma boa história. Narrativas carregam uma força quase inevitável, permanecendo conosco por muito tempo. Quando uma obra como Barba Ensopada de Sangue discute, de maneira lírica, os perigosos impactos destas histórias que ultrapassam gerações, evocando o horror em um ritmo lento e de queima gradual que nunca explode, é impossível não lembrar das clássicas “histórias de pescador”.
Barba Ensopada de Sangue se inicia com uma lenda. Após ouvir uma misteriosa história sobre o desaparecimento de seu avô, Gabriel viaja até uma pequena cidade litorânea em busca de respostas sobre a morte de seu avô. No entanto, conforme percebe que os habitantes locais preferem enterrar o passado, ele se vê obrigado a confrontar não apenas o mistério, mas também o silêncio coletivo que o sustenta.

Thainá Duarte em cena de “Barba Ensopada de Sangue”- Divulgação O2 Play
A obra evita mergulhar de fato no realismo fantástico, algo que poderia enriquecer sua proposta, e em vez disso, aposta em um cenário reconhecível do litoral sul brasileiro, inserindo ruídos e elementos levemente irreais para construir um sentimento constante de estranheza. O horror, aqui, não se impõe: ele se infiltra lentamente, sugerido por pequenos indícios de que algo está profundamente errado.
Em sua discussão sobre herança e legado, Barba Ensopada de Sangue não esconde seu caráter de adaptação do livro de Daniel Galera. O lirismo literário permanece evidente, mas também traz consigo diálogos verborrágicos e redundantes que não acrescentam em nada no todo. Este tempo poderia ter sido aproveitado para desenvolver melhor seus personagens, que começam e terminam a narrativa envoltos em mistério, incluindo Gabriel e Jasmine.
Com um ritmo quase estático, a direção aposta em planos abertos e contemplativos, como a marcante cena da baleia, além de movimentos sutis e longos planos-sequência. A ausência de rupturas mais bruscas contribui para uma experiência fluida, porém monótona. Quando o terror finalmente se manifesta de forma mais concreta, o espectador já foi preparado, mas o percurso até esse momento exige paciência.
A mistura de sotaques impede uma localização precisa, conferindo à história um caráter quase atemporal. Somam-se a isso discussões sobre masculinidade, recorrentes na obra de Muritiba, estruturas clássicas do horror e reflexões sobre legado, culpa e como os pecados das gerações passadas reverberam nas seguintes.

Gabriel Leone em cena de “Barba Ensopada de Sangue”- Divulgação O2 Play
Ainda assim, o maior mistério reside no próprio protagonista. Pouco sabemos sobre o passado de Gabriel, e os poucos elementos apresentados se diluem à medida que ele se transforma em uma espécie de reflexo de seu avô. Com isso, torna-se difícil estabelecer uma conexão mais profunda com aquele que deveria ser o centro emocional da narrativa, restando, muitas vezes, apenas uma presença vazia.
Eficiente ao retratar uma cidade assombrada pelo passado, como nas melhores histórias de horror, e um protagonista em busca de respostas, como nos clássicos de investigação, Barba Ensopada de Sangue poderia ter se beneficiado de uma estrutura mais tradicional. Ao reduzir o excesso de lirismo e verborragia, o filme talvez conseguisse explorar com mais força o clima de terror que sugere, mas raramente concretiza, assim, ficando bem mais marcante do que este produto final.
Distribuído pela O2 Play, o longa estreia nos cinemas no dia 2 de abril.
Siga-nos e confira outras notícias @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!


