Dirigido por Fatih Akin, Uma Infância Alemã retrata os momentos finais da Segunda Guerra Mundial através do olhar de um jovem que percebe o quão grande e complexo é o mundo em que vive.
Da mesma forma que o Brasil frequentemente revisita a ditadura militar em sua cinematografia, a Alemanha retorna constantemente a um dos períodos mais obscuros de sua história: a Segunda Guerra Mundial. Ao longo dos anos, o cinema já explorou esse contexto sob diferentes perspectivas: a do opressor, a do oprimido e, principalmente, a infantil.
Dentro desta última abordagem, encontramos desde fábulas satíricas como Jojo Rabbit (2019, Taika Waititi), passando por dramas como O Menino do Pijama Listrado (2008, Mark Herman), até jornadas mais simples, mas igualmente emocionantes, como a de Uma Infância Alemã.
A premissa é bastante simples. O jovem Nanning vive com a mãe, a tia e os irmãos na pequena e isolada ilha de Amrum. Membro da Juventude Hitlerista, ele leva uma vida tranquila dentro de um universo em que acredita na vitória e na superioridade alemã, afinal, essa foi a mentalidade transmitida por sua família e pelas instituições que o cercam.
Com o fim da guerra, porém, sua realidade começa a ruir. Em sua busca por encontrar pão com manteiga e mel para sua mãe, que sofre de depressão, Nanning inicia uma jornada pela ilha que acaba se transformando em um processo de descoberta.

Cena de “Uma Infância Alemã”- Divulgação Imovision
Como todo bom coming of age, Uma Infância Alemã é uma história sobre amadurecimento e sobre a capacidade de questionar crenças antes consideradas absolutas. No filme de Akin, essa transformação não acontece através de um romance, como ocorre em tantas obras do gênero, mas por meio da observação, da convivência e da empatia pelo próximo.
Convencido de que conseguirá ajudar a mãe, Nanning parte em busca dos ingredientes necessários. Porém, em uma ilha onde os suprimentos são escassos, o processo de escambo se revela muito mais complicado do que imaginava. Para conseguir pão, precisa de farinha; para conseguir farinha, precisa convencer o médico; para que o padeiro faça o pão, precisa encontrar ovos. Assim, uma tarefa aparentemente simples se transforma em uma longa cadeia de trocas e favores.
Nesse percurso, o garoto entra em contato com pessoas que antes faziam parte apenas da paisagem de sua vida. Descobre o motivo do afastamento de seu tio, entende por que alguns moradores escondem rádios em segredo e testemunha as fragilidades do ideal supremacista alemão, especialmente após a morte de Adolf Hitler.
Um dos momentos mais interessantes ocorre quando Nanning visita o tio na cidade. Para receber açúcar, ele precisa recitar o hino da Juventude Hitlerista. Inicialmente hesitante, acaba fazendo isso com convicção por acreditar que não possui outra escolha. Mais tarde, ao retornar para buscar a manteiga, encontra o tio morto com um tiro suicida. Embora tente fechar a porta e fugir daquela imagem, como mágica, ela novamente abre e o lembra dos constante dos horrores que o cercam.

Cena de “Uma Infância Alemã”- Divulgação Imovision
Tanto essa sequência quanto a relação com dois refugiados poloneses são fundamentais para a transformação do protagonista. Pela primeira vez, Nanning é obrigado a enxergar pessoas que foram colocadas à margem de sua visão de mundo. Ao compreendê-las, desenvolve a empatia necessária para não repetir os erros cometidos pela geração de seus pais.
Tecnicamente, Uma Infância Alemã aposta em uma paleta composta majoritariamente por tons pastéis e sépia, reforçando o peso daquele momento histórico. Ao mesmo tempo, os amplos planos abertos destacam a beleza natural e a solidão de Amrum. É uma ilha onde muitos sonham em partir para Nova York, mas permanecem presos por comodidade, circunstância ou simples impossibilidade.
Em relação ao ritmo, Uma Infância Alemã apresenta algumas barrigas, mas compensa com um eficiente sistema de promessa e recompensa. A faca de Nanning, a fotografia misteriosa que cai do álbum e até mesmo os refugiados poloneses apresentados logo na abertura retornam em momentos decisivos da narrativa. A evolução do protagonista se torna cada vez mais evidente à medida que seu mundo deixa de se resumir aos limites da ilha.
Ainda assim, existe uma escolha narrativa que enfraquece o impacto da conclusão. A sequência final em que Nanning aparece já idoso é completamente desnecessária. Há um certo fascínio recorrente em produções ambientadas na Segunda Guerra Mundial por mostrar seus protagonistas retornando ao passado décadas depois. Neste caso, porém, a cena apenas reduz a força emocional de um encerramento que já funcionava perfeitamente por conta própria.
No fim, Uma Infância Alemã utiliza um contexto extremamente pesado para construir uma jornada surpreendentemente leve e humana. É um filme sobre crescimento, empatia e sobre a importância de escolher a bondade mesmo quando se está cercado por ideologias que apontam para o caminho oposto.
Distribuído pela Imovision, Uma Infância Alemã estreia nos cinemas brasileiros em 25 de junho.
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