Dirigido por Daniel Lieff, Quinze Dias traz leveza, humor e drama para uma produção que surpreende por sua profundidade e delicadeza.
Existem histórias tão simples, poéticas e profundas que parecem encontrar seu melhor terreno quando protagonizadas por um casal LGBT. Ao retirar a heteronormatividade da comédia romântica tradicional, a franqueza e a honestidade tornam-se elementos centrais da narrativa. Em Quinze Dias, isso se manifesta em uma jornada de descoberta e, principalmente, de aceitação de si mesmo.
Adaptado do livro homônimo de Vitor Martins, Quinze Dias acompanha Felipe, um adolescente gordo e inseguro que sonha em aproveitar as férias em sua própria companhia. Seus planos mudam quando sua mãe informa que eles irão hospedar Caio, o vizinho por quem Felipe nutre sentimentos, durante quinze dias. Inicialmente resistente à ideia, ele embarca ao lado do colega em uma jornada de autodescoberta que transforma a vida de ambos.
A premissa é bastante simples: um jovem, tratado e retratado propositalmente como alguém infantilizado, começa a se abrir para o mundo ao se apaixonar por um vizinho. A dinâmica remete ao clássico enemies to lovers, mas o conflito não está na sexualidade dos envolvidos. Em vez disso, a narrativa concentra suas atenções no desenrolar do romance, afastando-se do realismo presente em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014, Daniel Ribeiro), e abraçando uma atmosfera mais onírica, que funciona muito bem dentro desse cenário de amor adolescente.

Miguel Lallo em cena de “Quinze Dias”- Divulgacão Manequim Filmes
Existem muitos pontos positivos em Quinze Dias, mas quase todos giram em torno de uma mesma qualidade: a delicadeza com que sua história é contada. O roteiro apresenta momentos de humor que abraçam o universo da fantasia e a imaginação de Felipe, seja em um flash mob embalado por “Good Morning Baltimore”, de Hairspray, em uma divertida homenagem ao cinema noir ou simplesmente através do olhar fantasioso do protagonista, que preenche a tela com cores e vitalidade.
Ao mesmo tempo, por meio de uma narração em off, acompanhamos Felipe e seus traumas mais íntimos, sem que isso pareça excessivo. Quando a história exige uma abordagem mais dramática, o impacto surge, por vezes, em uma única frase, direcionada a Caio ou a Rita, a mãe de Felipe, que também atravessa sua própria jornada de autoconhecimento. São momentos simples, mas que reverberam profundamente na audiência.
Referências pop, energia contagiante, absurdos, e uma relação forte tanto entre Felipe e Caio quanto entre Felipe e sua mãe ajudam a sustentar a narrativa. Ainda assim, nem todos os personagens recebem o mesmo cuidado. É o caso de Beca e Melissa. O casal lésbico surge como parte do grupo de novos amigos de Felipe e cumpre um papel importante em sua integração social, mas, com exceção de uma breve interação entre Melissa e o protagonista, suas participações acabam sendo superficiais e pouco desenvolvidas.

Miguel Lallo e Débora Falabella nos bastidores de “Quinze Dias”- Divulgacão Manequim Filmes
Ao final, a jornada segue caminhos relativamente tradicionais, mas o entretenimento é garantido graças à criatividade estética, a leveza temática e a excelente execução de seus elementos mais familiares. A maneira como os dias são retratados é constantemente inventiva, enquanto a montagem, ao abraçar o fantástico e o lúdico, remete a um estilo semelhante àquele utilizado por Daniel Rezende nos filmes da Turma da Mônica.
Em pleno Mês do Orgulho LGBT, um filme tão sensível e divertido quanto Quinze Dias serve como lembrete de um dos muitos caminhos que o cinema brasileiro pode seguir em busca de sucesso. Quando uma história é contada com carinho, sinceridade e personalidade, o público responde da mesma forma: com emoção e um sorriso no rosto.
Distribuído pela Manequim Filmes, Quinze Dias estreia nos cinemas no dia 18 de junho.
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