Dirigido por Dave Green, Coyote vs. Acme entrega uma experiência madura com esses personagens de uma forma que talvez nunca mais seja vistos da mesma maneira
Quem me conhece sabe o quanto Coyote vs. Acme era, para mim, um dos filmes mais aguardados do ano. Não apenas por sua inusitada premissa, que desde o anúncio, brincava com a ideia de ser um suposto “filme comunista dos Looney Tunes”, mas também por uma história de bastidores digna de Davi contra Golias e que, ironicamente, não poderia ter acontecido com outro personagem além do próprio Coyote.
No fim, todo esse caos acabou sendo uma das melhores coisas que poderiam ter acontecido com o filme. A situação gerou um marketing espontâneo e transformou o público em parte ativa de uma jornada que acompanhamos por trás das câmeras, torcendo, protestando e esperando pelo momento em que finalmente poderíamos assistir à produção. Por isso, torna-se praticamente impossível analisar Coyote vs. Acme sem considerar o fantasma que perseguiu o projeto durante anos. E, ironicamente, o chamado Efeito Streisand acabou ampliando o interesse por uma obra que, caso lançado como planejado, talvez passasse bem mais despercebido.
Diferentemente de Space Jam: O Jogo do Século (1996, Joe Pytka) e Looney Tunes: De Volta à Ação (2003, Joe Dante), Coyote vs. Acme é um filme consideravelmente mais modesto. Não existem grandes espetáculos visuais ou viagens ao redor do mundo. Em vez disso, a produção aposta em uma veia dramática que remete aos grandes thrillers jurídicos, aproximando-se de obras como Todos os Homens do Presidente (1976, Alan J. Pakula), enquanto coloca no centro da narrativa um dos personagens mais inusitados dos Looney Tunes.

Cena de “Coyote vs. Acme”- Divulgação Paris Filmes
Lembro de um professor de animação, ainda na época da faculdade, discutir uma questão curiosa: por que ninguém parece realmente torcer pelo Papa-Léguas? Como espectadores, durante décadas, acompanhamos o Coyote tentando capturar o pássaro azul e, apesar de sabermos que ele inevitavelmente fracassaria, havia sempre uma pequena torcida para que, finalmente, conseguisse. O sentimento era constantemente frustrado, mas justamente por isso nossa identificação com o personagem se tornou muito maior do que com qualquer outro Looney Tune.
Afinal, quem nunca foi Coyote na vida?
Querer muito alguma coisa, fracassar repetidamente e, ainda assim, continuar tentando. É justamente nessa ideia que o filme encontra sua maior força. O Coyote representa todos nós. Quase como se o título pudesse ser O Povo vs. Acme: estamos ao lado dele, acompanhando sua luta e, principalmente, buscando justiça junto com ele.
É nesse ponto que a proposta de Coyote vs. Acme ganha maturidade.
Dentro dessa atmosfera de thriller jurídico, algo pensado desde o início pela roteirista Samy Burch, existe menos espaço para a comédia tradicional dos Looney Tunes, especialmente nas sequências finais. Pernalonga, Patolino, Gaguinho, Vovó e tantos outros personagens não aparecem apenas como participações gratuitas ou simples fan service. Cada um possui uma função dentro da narrativa e se torna uma peça importante no tabuleiro que conduzirá o Coyote até seu objetivo.
Ao lado do personagem, temos o advogado Kevin Avery, interpretado por Will Forte. Utilizando como alegoria o mito de Sísifo, Kevin é aquele que desistiu de empurrar a pedra montanha acima, enquanto o Coyote jamais abandona sua busca. A relação entre os dois é, essencialmente, a alma do filme.

Lana Condor e Will Forte em cena de “Coyote vs. Acme”- Divulgação Paris Filmes
Forte entrega um de seus trabalhos mais maduros, construindo uma dinâmica extremamente eficiente junto com um personagem que não fala em nenhum momento. E justamente por não possuir diálogos, o Coyote se transforma em um veículo de criatividade, expressão física e ideias inusitadas. Cada reação precisa comunicar algo, e a animação consegue explorar isso com inteligência.
Como já apontado em diversas críticas internacionais, a integração entre animação e live-action é uma das melhores desde Uma Cilada para Roger Rabbit (1988, Robert Zemeckis). Em alguns momentos, é verdade, a composição aparenta certa artificialidade e pode até parecer “truncada”. Porém, considerando o orçamento de aproximadamente US$ 70 milhões, as soluções criativas encontradas para integrar animação 2D, 3D e atores reais são impressionantes.
Além disso, os diversos easter eggs espalhados pela produção ajudam a criar a sensação de que existe muito mais acontecendo naquele universo do que aquilo que está diretamente apresentado na tela, incluindo diversos simbolismos e jornadas que inicialmente podem ser consideradas rasas, como a de Kevin e Paige e o espelho com o próprio Coyote, mas dentro deste universo de filmes família, é bem clara com suas intenções.
À medida que acompanhamos a investigação para chegar ao fundo do mistério envolvendo a corporação Acme, a quantidade de gags diminui, e não é pouco. Em determinados momentos, o filme parece um drama muito mais sério do que aquilo que tradicionalmente esperaríamos de uma produção dos Looney Tunes.
E é justamente essa coragem que torna Coyote vs. Acme tão único.
Não é apenas um veículo de marketing como Space Jam, tampouco uma loucura anárquica como Looney Tunes: De Volta à Ação. O filme realmente tenta ser algo além de uma adaptação nostálgica de personagens conhecidos. Ele quer falar sobre persistência, injustiça e a necessidade de continuar lutando mesmo quando todas as circunstâncias parecem conspirar contra você.
E consegue.
O principal problema está no ritmo. Por volta da metade do segundo ato, a narrativa perde um pouco de força, com longos trechos sustentados quase exclusivamente por diálogos. A sensação de estagnação é perceptível, especialmente porque o filme estabelece uma expectativa crescente para seus momentos de ação.

Cena de Coyote Vs. Acme- Divulgação Paris Filmes
Quando essas sequências finalmente chegam, porém, entregam tudo o que prometem e, em certos momentos até mais.
Grande parte dessa eficiência vem da trilha sonora de Steven Price, que se torna fundamental para estabelecer o tom da produção. A música conduz a narrativa e ajuda a conferir a maturidade necessária para que esses personagens cartunescos sejam tratados como figuras reais, com dores, desejos e frustrações igualmente reais.
Ao final, o apelo popular deu frutos, e Coyote vs. Acme chega aos cinemas. É um filme perfeito? Não.
Ainda prefiro a anarquia e a criatividade de Joe Dante em De Volta à Ação. Mas existe algo especialmente prazeroso em finalmente poder escrever sobre Coyote vs. Acme e reconhecer que estamos diante de uma produção com qualidades realmente impressionantes.
Seu cancelamento continua sendo difícil de compreender quando observamos a qualidade do resultado final e o comparamos com tantas produções que efetivamente chegam ao público sem apresentar sequer uma fração da personalidade, da criatividade e da dedicação presentes aqui.
E, quando chegamos ao final e estamos chorando junto com o Coyote, surge um sentimento inevitável: a vontade de assistir novamente.
Talvez para encontrar pequenas pistas e easter eggs que passaram despercebidos. Talvez para revisitar algumas das melhores relações do filme. Ou simplesmente para abraçar uma produção que fizeram de tudo para impedir que chegasse ao público e que, de alguma forma, continuou de pé.
Não é fácil continuar acreditando e mantendo o otimismo dentro de um sistema que tantas vezes não nos acolhe. Mas, se Coyote vs. Acme, e toda a sua jornada, tanto dentro quanto fora das telas, prova alguma coisa, é que ainda é possível.
É cansativo. Exige inúmeras quedas e recomeços. Mas determinação nunca deveria ser algo descartável.
Essa é a principal mensagem de Coyote vs. Acme e, talvez, uma que algumas grandes indústrias precisem considerar quando se encontrarem novamente diante de um processo semelhante, para que esta decisão não acabe voltando contra elas ao final.
E, nesse caso da Warner, merecidamente.
Distribuído pela Paris Filmes, Coyote vs. Acme chega aos cinemas em 27 de agosto.
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