Dirigido por Grace Passô, Nosso Segredo constrói um mistério simbólico dentro de uma casa onde nada é exatamente aquilo que aparenta ser.
Desde os primeiros minutos, Nosso Segredo estabelece um jogo de perguntas sem respostas. Após uma abertura marcada por uma tela completamente branca, acompanhamos Gilson, Robert Frank, um motorista de aplicativo questionado por um passageiro sobre o segredo que deixou na estrada. A frase parece deslocada naquele momento, mas funciona como a primeira peça de um quebra-cabeça que Passô constrói cuidadosamente, lançando pistas ao espectador enquanto mantém as respostas fora de alcance.
A partir daí, Nosso Segredo nos coloca dentro de uma realidade fria e pouco acolhedora. Não existe muito espaço para conforto fora daquele pequeno núcleo familiar, que aparenta estar diante da possibilidade de se separar para sempre. Os lixeiros parecem gritar alguma coisa que Gilson não consegue compreender, a vizinha branca é excluída e não se permite que ela entre dentro do espaço familiar e, quando ele finalmente chega em casa, a sensação de que existe algo errado apenas aumenta.
À primeira vista, aquela parece uma residência comum. Há um banheiro comunitário, uma aparente sensação de união e, simultaneamente, um distanciamento entre aqueles que habitam o espaço. Aos poucos, porém, pequenas situações quebram essa normalidade: uma televisão que funciona fora da tomada, uma melancia que o pequeno Tutu, Efraim Santos, deseja inteira para si e outros acontecimentos que parecem banais, mas contribuem para uma crescente sensação de desconforto.

Efraim Santos e Flip em cena de “Nosso Segredo”- Divulgação Vitrine Filmes
Dentro desse núcleo de cinco personagens, o foco passa de um para outro, mas acaba sempre retornando a Tutu. É em torno dele que o mistério se concentra, especialmente pela pergunta que permanece durante boa parte da narrativa: afinal, qual é o segredo que ele guarda?
Após anos de experiência no cinema e no teatro, Grace Passô demonstra domínio sobre a direção de atores. A câmera se aproxima dessas figuras sem necessariamente oferecer acolhimento. Pelo contrário, existe uma distância emocional que nos faz observar seus comportamentos e tentar compreender o que está acontecendo. A fotografia reforça essa sensação ao evitar qualquer calor visual. Durante a noite, a escuridão toma conta dos ambientes e os personagens passam a depender de lanternas para enxergar, transformando a própria casa em um espaço cada vez mais ameaçador.
Essa escolha também cria uma relação curiosa com os personagens. Temos a impressão de reconhecer seus tipos e compreender suas relações, mas nunca sabemos exatamente até onde cada um deles pode chegar. O cotidiano permanece reconhecível, enquanto pequenas rupturas fazem com que aquela realidade pareça progressivamente menos confiável.
A trilha sonora de Amaro Freitas contribui diretamente para essa tensão. Quando o espectador já está habituado às regras estabelecidas pela narrativa, Nosso Segredo assume definitivamente o realismo fantástico. A partir desse momento, as estruturas construídas anteriormente são reorganizadas e a própria casa começa a se deteriorar, como se materializasse os conflitos e os segredos daquela família.

Ju Colombo em cena de “Nosso Segredo”- Divulgação Vitrine Filmes
A comparação com a casa dos Buendía, de Cem Anos de Solidão, não surge apenas pela deterioração do espaço, mas pela maneira como o ambiente doméstico passa a carregar o peso da memória familiar. Quanto mais o segredo se aproxima da superfície, mais a casa perde sua aparência de normalidade. O espaço deixa de ser apenas cenário e passa a representar uma família consumida por aquilo que não consegue enfrentar.
Quando a grande revelação finalmente acontece, o fim se torna inevitável. Resta à família escolher entre encarar o próprio passado ou continuar presa a um processo de deterioração. É nesse ponto que o filme encontra sua principal discussão: a necessidade de lidar com o luto em vez de tentar fugir dele.
Nesse aspecto, Nosso Segredo apresenta alguns pontos de contato com O Babadook (2014, Jennifer Kent), especialmente na maneira como o fantástico pode funcionar como representação de uma dor que não foi elaborada. A abordagem de Passô, entretanto, parte de outro lugar. O filme abraça a brasilidade, a ancestralidade e questões raciais que deslocam o debate para uma experiência cultural muito particular. É justamente aí que sua proposta se mostra mais interessante, embora também mais hermética.
O simbolismo racial, em determinados momentos, parece excessivamente fechado em si mesmo, dificultando a compreensão de algumas das intenções da narrativa. Da mesma maneira, a discussão sobre o luto nem sempre alcança a mesma força dramática que a atmosfera criada pelo filme sugere. Passô constrói imagens e situações capazes de provocar inquietação, mas nem sempre consegue transformar essa potência visual em uma experiência emocional igualmente contundente.
Isso também aparece na maneira como cada integrante da família lida com o luto. Alguns personagens enfrentam a dor de maneira interna, enquanto outros a exteriorizam, e essa diversidade de reações produz momentos de naturalidade. Ainda assim, muitas dessas possibilidades permanecem no limiar de algo realmente potente, sem que o roteiro consiga explorá-las completamente.

Efraim Santos em cena de “Nosso Segredo”- Divulgação Vitrine Filmes
Por outro lado, a direção de fotografia encontra soluções visuais bastante inventivas, conduzindo o espectador por espaços que parecem se transformar diante de seus olhos. Alguns planos são particularmente instigantes, como a conversa de Tutu com uma criatura misteriosa, em que o filme abandona qualquer tentativa de realismo convencional e assume plenamente sua dimensão simbólica.
Ao final, Nosso Segredo está longe de ser um filme fácil de digerir. Sua narrativa exige atenção e disposição para interpretar detalhes, imagens e situações que propositalmente não encontram respostas imediatas. Alguns momentos são excessivamente herméticos e determinados diálogos poderiam ser reduzidos sem prejuízo à experiência. Ainda assim, existe algo admirável na maneira como Passô se recusa a tornar seu filme confortável ou previsível.
Talvez a maior força de Nosso Segredo esteja justamente nessa contradição: sua atmosfera e seus símbolos são mais potentes do que algumas de suas resoluções dramáticas. Mesmo quando não consegue desenvolver completamente aquilo que propõe, o filme nunca se torna apático. A cada momento, provoca raiva, intriga, dúvida ou reflexão, e transforma uma história familiar em um espaço de memória, luto e ancestralidade.
Distribuído pela Vitrine Filmes, Nosso Segredo chega aos cinemas em 27 de agosto.
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