Dirigido por Djin Sganzerla, Eclipse se perde em meio à verborragia e a reflexões superficiais, justamente onde deveria apostar no silêncio, no subtexto e na ousadia.
Uma mensagem potente e relevante não é suficiente para tornar um filme marcante. Essa responsabilidade recai sobre a direção e, principalmente, sobre um roteiro preciso. Apesar de suas boas intenções, Eclipse tenta, em pouco menos de duas horas, abarcar uma quantidade excessiva de temas: o patriarcado, a comunidade red pill, a desconfiança dentro do casamento, a sororidade feminina, entre outros. Todos são pertinentes e, em teoria, interligados, mas, na prática, parecem disputar espaço dentro de uma narrativa fragmentada, como se fossem diferentes filmes condensados em um só.
O problema central está na incapacidade de articular essas ideias de maneira orgânica. As temáticas não se desenvolvem nem se entrelaçam com coerência, resultando em uma sensação constante de artificialidade, agravada por diálogos rígidos e pouco naturais. A proposta da diretora de mergulhar no universo feminino é clara desde o início, mas a execução compromete sua própria força. Ao invés de potencializar o discurso, o filme frequentemente o enfraquece.
A trama acompanha Cleo, uma astrônoma de 43 anos, grávida e emocionalmente fragilizada, cuja rotina é interrompida pela chegada de Nalu, sua meia-irmã de origem indígena. A partir desse encontro, as duas desenvolvem uma relação de apoio e cumplicidade enquanto investigam o passado e desenterram segredos que reverberam no presente. Há, aqui, uma base narrativa promissora, especialmente na dinâmica entre as personagens, mas que não alcança sua plenitude dramática.

Djin Sganzerla em cena de “Eclipse”- Divulgação Pandora Filmes
Eclipse aborda questões urgentes e extremamente atuais. Em um contexto onde notícias sobre feminicídio e comportamentos misóginos são recorrentes, o filme opta por uma abordagem direta, sem ambiguidades. No entanto, essa escolha sacrifica a complexidade.
Não há espaço para nuances: as mulheres são retratadas quase sempre como vítimas ou figuras moralmente íntegras, enquanto os homens são, em sua maioria, associados à violência ou à opressão, mesmo quando demonstram afeto. Essa simplificação enfraquece o impacto do discurso, tornando-o previsível e, por vezes, didático demais.
A linguagem audiovisual reforça essa limitação. A cinematografia aposta em ambientes claustrofóbicos e uma iluminação escura e opressiva dentro da casa de Cleo, criando uma atmosfera constante de tensão. A trilha sonora, marcada pelo uso insistente de piano, sublinha excessivamente as emoções, retirando do espectador a possibilidade de interpretação. Em vez de sugerir, o filme explica; em vez de provocar, conduz.
No campo dramático, o arco de Cleo é compreensível, mas desenvolvido de maneira apressada e pouco convincente. Já Nalu, que apresenta um conflito potencialmente mais interessante, recebe menos atenção e tem sua trajetória resolvida de forma abrupta. Essa desigualdade compromete o equilíbrio narrativo e evidencia fragilidades no roteiro.

Djin Sganzerla e Sergio Guizé em cena de “Eclipse”- Divulgação Pandora Filmes
Ao acumular as funções de diretora, roteirista, produtora e protagonista, Djin Sganzerla demonstra ambição e controle autoral, mas também evidencia os limites dessa centralização. O filme se propõe a discutir, de forma simbólica e sofisticada, temas como abuso e opressão patriarcal, mas acaba se apoiando em uma exposição literal que esvazia sua própria potência.
O simbolismo do eclipse, a alternância entre luz e escuridão, surge como uma metáfora interessante para a experiência feminina, sugerindo ciclos de transformação e resistência. No entanto, a execução dessa ideia carece de refinamento. O que poderia ser uma construção poética e sensorial se torna algo excessivamente explícito e, em certos momentos, até simplista.
No fim, Eclipse não falha por falta de relevância temática, mas por uma execução que não faz jus ao seu potencial. O desconforto que provoca não nasce da dureza de seu conteúdo, mas da forma como ele é apresentado. Com mais rigor narrativo, maior confiança no subtexto e um olhar mais atento à construção dramática, o filme poderia ter se tornado uma obra realmente impactante.
Distribuído pela Mercúrio Produções, em coprodução com a Pandora Filmes, Eclipse estreia nos cinemas no dia 7 de maio.
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