Dirigido por Agnieszka Holland, Franz transforma a vida de Kafka em uma jornada surrealista que privilegia o símbolo acima de qualquer outra coisa
É difícil pensar em um escritor mais estudado do que Franz Kafka. Hoje, provavelmente existem mais palavras dedicadas à interpretação de sua obra do que aquelas que ele próprio escreveu. Diante disso, transformar sua vida em cinema exige mais do que uma simples reconstrução biográfica: é necessário encontrar uma linguagem capaz de traduzir a inquietação, a estranheza e a angústia que permeiam seus textos.
Franz compreende esse desafio e evita o caminho mais convencional. A narrativa se divide entre três temporalidades: o presente, em que acompanhamos um Kafka adulto vagando por uma existência marcada pela insatisfação; o passado, que revisita sua infância e juventude; e um futuro no qual visitantes percorrem o Museu Kafka, em Praga. A proposta é interessante, especialmente ao sugerir que o escritor está constantemente sendo observado e interpretado pelas gerações que o sucederam. No entanto, a ideia funciona mais como conceito do que como elemento dramático.
Ao rejeitar uma estrutura tradicional, o filme mergulha em um território de experimentação e surrealismo que dialoga diretamente com o imaginário kafkiano. O problema é que essa aproximação parece superficial. Em vez de utilizar o absurdo como ferramenta para aprofundar a compreensão do personagem, a obra frequentemente o transforma em um fim em si mesmo. A sensação é de assistir a uma sucessão de símbolos e referências que raramente encontram uma função dramática capaz de justificar sua presença.

Idan Weiss em cena de “Franz”- Divulgação A2 Filmes
A relação conflituosa entre Kafka e seu pai surge como o eixo mais promissor da narrativa, servindo como possível chave para compreender muitas das inseguranças e angústias do autor. Entretanto, o filme demonstra pouco interesse em desenvolver essa ou qualquer outra dimensão emocional de seu protagonista. O resultado é um retrato distante, que enfatiza o mito em detrimento do homem.
Entre os recursos mais interessantes está a decisão de colocar familiares e amigos quebrando a quarta parede para comentar diretamente sobre Kafka. Esses depoimentos funcionam como pequenos fragmentos de um quebra-cabeça psicológico, oferecendo perspectivas distintas sobre alguém que parece incapaz de se encaixar no próprio mundo. São momentos que acrescentam textura ao personagem, mas que se diluem em uma narrativa excessivamente discursiva e irregular.
Essa irregularidade se torna ainda mais evidente em uma duração que ultrapassa duas horas. Não é uma questão de tempo, mas de ritmo. O filme frequentemente se perde em sequências que parecem existir apenas para reafirmar sua natureza simbólica, prolongando ideias já estabelecidas sem acrescentar novas camadas de significado. Curiosamente, uma obra sobre um autor tão preciso na escolha das palavras acaba se tornando vítima do excesso.
As inúmeras referências aos escritos de Kafka certamente agradarão admiradores familiarizados com sua bibliografia, mas raramente vão além da simples citação. O contexto histórico, as influências intelectuais e os processos criativos que moldaram sua produção permanecem em segundo plano. Em vez de explorar como a realidade alimentou a ficção do escritor, Franz parece mais interessado em reproduzir visualmente a imagem que o imaginário popular construiu dele.

Cena de “Franz”- Divulgação A2 Filmes
Algumas sequências sintetizam bem esse problema. A recriação de cenários inspirados em suas narrativas, repletos de tortura e simbolismos, impressiona visualmente, mas carece de impacto emocional. Da mesma forma, a cena do hospital, povoada por figuras nuas em uma atmosfera onírica, ilustra a busca constante da obra pelo abstrato. São momentos que demonstram ambição estética, mas que raramente encontram sustentação narrativa.
Ao tentar construir uma experiência grandiosa sobre um dos maiores escritores do século XX, Franz acaba se tornando refém da própria reverência. Fascinado pela ideia de representar Kafka, o filme esquece de investigar quem ele era. Entre homenagens, alegorias e referências, resta um retrato que reconhece a importância do autor, mas que pouco revela sobre o homem por trás da obra.
Distribuído pela A2 Filmes, Franz estreia nos cinemas brasileiros em 2 de julho.
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