Dirigido por Jean-Pierre e Luc Dardenne, Jovens Mães traz retrato realista da maternidade precoce, porém, ao tentar abarcar muitas trajetórias, dilui seu foco narrativo e emocional.
À medida que o ano se aproxima do fim, certos filmes parecem dialogar naturalmente com a ideia de encerramento e recomeço, transmitindo um senso de transição entre ciclos. É nesse espírito que Jovens Mães, candidato belga ao Oscar de Melhor Filme Internacional de 2026, se apresenta.
Marcado pela delicadeza característica dos irmãos Dardenne, e uma estrutura narrativa com foco na repetição e no espelhamento, o longa fala sobre o fim de capítulos e início de outros na vida de suas protagonistas, seja por meio da reconstrução de laços familiares, ou pela aceitação forçada do amadurecimento, em um movimento próximo ao gênero coming of age.

Elsa Houben e Jef Jacobs em cena de “Jovens Mães”- Divulgação Vitrine Filmes
Jovens Mães acompanha a vida de cinco jovens mulheres, Jessica, Perla, Julie, Ariane e Naïma, que vivem juntas em um abrigo para mães adolescentes na região de Liège, na Bélgica. De forma quase episódica, o filme revela como cada uma enfrenta, à sua maneira, as consequências de uma maternidade precoce. Na medida que tentam cuidar de seus filhos, elas lidam com ausências profundas, traumas familiares e feridas emocionais ainda abertas.
Em Jovens Mães, a narrativa de maternidade se destoa de outras versões mais herméticas como Morra, Amor (2025, Lynne Ramsay), aqui, ela não é idealizada e nem demonizada, mas apresentada de forma crua e cotidiana, muito próxima, talvez até um pouco demais, da realidade social que os Dardenne costumam explorar em suas outras produções, algo que ganha até mais destaque por conta da escolha de atrizes iniciantes para os principais papéis.
Ao longo de uma hora e quarenta e cinco minutos, acompanhamos conflitos íntimos marcantes: Perla lida com o abandono do namorado e a sensação de não ter mais uma família; Ariane enfrenta uma relação profundamente conflituosa com a própria mãe; Jessica tenta encerrar um trauma que a acompanha desde a infância, etc. Histórias que são construídas com sensibilidade, porém, que não se destacam por si só, estando todas incluídas debaixo do mesmo guarda chuva sobre a realidade da jovem mãe Belga.
Visualmente, Jovens Mães se apoia em planos-sequência e planos longos, permitindo que as atrizes ocupem o centro da cena e transmitam suas emoções sem artifícios, porém, ao distribuir sua atenção entre cinco protagonistas, Jovens Mães perde força narrativa. Algumas trajetórias, como a de Naïma, tornam-se quase invisíveis dentro dessa estrutura fragmentada, composta por episódios que não parecem ter um arco claro de começo, meio e fim, funcionando mais como registros isolados de uma mesma fase da vida.

Janaïna Halloy Fokan, Samia Hilmi, Lucie Laruelle, Elsa Houben e Babette Verbeek em cena de “Jovens Mães”- Divulgação Vitrine Filmes
Abordando temas complexos como aborto, paternidade ausente, traumas geracionais e dificuldades econômicas, sempre de maneira naturalista, a produção estrutura momentos de forte impacto emocional, como a overdose de Julie ou a cena em que Jessica chora ao pedir um abraço à mãe distante. Ainda assim, ao adotar uma estrutura de multitrama com conflitos majoritariamente externos, característica do cinema social contemporâneo, o filme evita riscos maiores e se mantém em terrenos já conhecidos, resultando em histórias que emocionam no momento, mas carecem de maior potência e memorabilidade.
Apesar da intenção de construir um realismo social consistente, em Jovens Mães falta maior ousadia estética e narrativa, assim se firmando como um filme poético e honesto sobre dor e a complexidade da maternidade jovem. É uma obra sensível, bem-intencionada e bem filmada, mas que se torna menos marcante não por falta de qualidade, e sim pela ausência de maior inovação e originalidade na construção de algo verdadeiramente novo.
Distribuído pela Vitrine Filmes, Jovens Mães estreia nos cinemas brasileiros em 1º de janeiro de 2026.
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