Dirigido por Paolo Gep Cucco e Davide Livermore, Ópera! – Canção Para Um Eclipse é glorioso espetáculo teatral que encontra no cinema uma maneira de ampliar a grandiosidade da ópera
Enquanto a ópera ainda é frequentemente vista como uma arte elitista, associada à chamada “alta cultura”, o cinema nasceu e se consolidou como entretenimento para as massas. A união dessas duas linguagens em Ópera! – Canção Para Um Eclipse naturalmente resulta em uma produção de nicho, ainda mais ao apostar em diálogos em francês e inglês e em algumas das mais reconhecíveis composições do repertório operístico, como Nessun Dorma, O mio babbino caro, Carmen e La donna è mobile.
Recontando a história de Orfeu e Eurídice por meio de figurinos exuberantes da Dolce & Gabbana e de uma estética fantástica, o longa constrói cenários e composições que nos transportam para dentro de um espetáculo teatral. Ao mesmo tempo, utiliza aquilo que o cinema pode proporcionar de diferente: jogos de câmera, closes e enquadramentos capazes de criar uma proximidade com os intérpretes que dificilmente seria possível em uma grande casa de ópera. É justamente nessa união que seu universo onírico ganha forma.

Cena de “Ópera: Canção para um Eclipse”- Divulgação Oficial
Muito mais do que uma adaptação mitológica tradicional, a produção não se sustenta na fidelidade à história de Orfeu e Eurídice, mas nos diferentes espetáculos construídos ao redor dela, transformando Ópera! – Canção Para Um Eclipse em uma espécie de musical jukebox operístico. Somente a nata do repertório está presente, e as sequências funcionam quase como esquetes independentes enquanto Orfeu e Eurídice se desencontram pelo submundo. Dentro da lógica da ópera, porém, essa estrutura faz sentido.
É difícil avaliar uma produção como Ópera! – Canção Para Um Eclipse utilizando somente parâmetros cinematográficos. Para seu público e, principalmente, dentro de sua proposta de transformar uma forma de arte historicamente associada às elites em um espetáculo capaz de alcançar uma audiência maior, o filme cumpre seu objetivo com convicção, respeito e grandiosidade. Funciona, inclusive, como uma interessante introdução ao universo da ópera para quem pouco conhece essa linguagem.
O problema surge quando o estilo e as repetições começam a se tornar incessantes. É sempre um prazer escutar Bizet, Puccini e Verdi, mas as situações que não envolvem música dificilmente sustentam o mesmo glamour. São barrigas narrativas dentro de uma produção que não precisava de quase duas horas para transmitir sua mensagem, reforçando a sensação de estarmos diante de um espetáculo artístico antes de qualquer outra coisa. Para compreender plenamente os nomes, referências e simbolismos de seus personagens, inclusive, uma pequena lição de casa pode ser necessária.

Cena de “Ópera: Canção para um Eclipse”- Divulgação Oficial
É fácil cair na conclusão de que Ópera! – Canção Para Um Eclipse é somente forma e pouca narrativa, mas talvez essa seja justamente sua premissa. Não adianta esperar grandes sequências de ação, movimentações espetaculares ou momentos catárticos nos moldes tradicionais do cinema caso o espectador não esteja envolvido pela história e, principalmente, não compre a ideia de que o amor é mais forte do que a morte, como Vincent Cassel anuncia logo no início do filme.
Em contrapartida, movimentos de câmera inspirados, um design de produção transcendental e músicas grandiosas constroem a sensação de que estamos contemplando uma obra feita para ser apreciada quase como uma forma de arte distante, intocável e surreal. Poucas vezes esse tipo de espetáculo chega às telas de cinema com tamanha estilização e sem qualquer receio de parecer excessivo, hermético ou até mesmo enfadonho.
Afinal, Ópera! – Canção Para Um Eclipse é, antes de tudo, uma ópera. Por consequência, segue as regras e os excessos dessa linguagem, e não necessariamente os de uma narrativa cinematográfica convencional. Paradoxalmente, é justamente aí que reside sua maior força.
Distribuído pela Imovision, Ópera! – Canção Para Um Eclipse chegou aos cinemas brasileiros em 13 de agosto.
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