Dirigido por Tomás Portella, Overman: O Filme adapta o anti-herói de Laerte de forma rápida, direta e política, mas se perde em uma narrativa tumultuada demais
Uma produção nacional de super-heróis dificilmente terá os mesmos recursos de um filme da Marvel ou da DC, mas isso não impede Overman: O Filme de tentar e, em muitos aspectos, conseguir entregar uma diversão despretensiosa. Embora seu arco dramático perca força ao longo da narrativa, o longa prova o potencial do audiovisual brasileiro de transformar boas ideias em experiências criativas mesmo com um orçamento diminuto. Afinal, nem sempre é preciso reproduzir a grandiosidade hollywoodiana para construir um universo capaz de conquistar o público.
Quatro elementos se destacam na produção de Tomás Portella: a atuação de Caco Ciocler, o roteiro de sátira política, a direção de fotografia e a potente trilha sonora. Juntos, eles ajudam a estabelecer a identidade de uma obra que encontra no exagero, na cafonice e no absurdo não apenas sua principal fonte de humor, mas também uma maneira de contornar suas limitações técnicas.
Caco Ciocler é uma força a ser considerada. Na pele do canastrão Overman, o ator transita entre o exagero, o ridículo e uma dramaticidade quase caricatural, compreendendo perfeitamente a natureza contraditória do personagem. Ele não é um Superman, muito menos um Batman: é um homem quebrado, desesperado por amor e reconhecimento, que deseja ser enxergado como alguém capaz de fazer a diferença. Quando o governador lhe oferece o posto de super-herói oficial do estado, surge uma oportunidade difícil de recusar. Entretanto, à medida que seu ego cresce e passa a dominar suas decisões, o herói do Ipiranga precisa enfrentar os próprios conflitos antes de conseguir combater os vilões que atormentam a cidade.

Caco Ciocler em cena de “Overman”- Divulgação Festival do Rio
A premissa é promissora, e Ciocler se entrega de corpo e alma a um roteiro que abraça tanto os absurdos desse universo quanto as questões políticas que expõem a complexidade burocrática do governo estadual. O problema é que o acúmulo de ideias nem sempre se traduz em dinamismo narrativo.
Entre sessões de terapia, a relação com a Mulher-Cachorro, os embates com Ésquilo e a dinâmica com Poline, o filme retorna constantemente aos mesmos conflitos, como se não conseguisse encontrar novas maneiras de explorar seu protagonista. Tudo acaba orbitando o ego de Overman, e a repetição se torna cansativa à medida que a história avança. O que inicialmente funciona como uma caracterização cômica passa a limitar o próprio desenvolvimento da trama.
Na direção de fotografia, por outro lado, a produção demonstra inteligência ao transformar restrições orçamentárias em soluções estéticas. Em vez de apostar em grandes sequências de ação, o filme recorre a enquadramentos calculados e cortes que privilegiam as consequências dos golpes, sem necessariamente mostrar sua execução. Quando Overman arremessa Ésquilo contra uma parede, por exemplo, a câmera enfatiza o impacto final, evitando exibir diretamente toda a ação. É um recurso recorrente que, em outra produção, poderia evidenciar a precariedade dos efeitos, mas que aqui encontra justificativa na própria cafonice do protagonista. A limitação técnica passa a integrar a linguagem do filme, reforçando o caráter farsesco desse universo.

Caco Ciocler em cena de “Overman”- Divulgação Festival do Rio
As referências diretas aos quadrinhos, com capas que remetem às histórias de Overman, e os créditos no melhor estilo Marvel também contribuem para essa identidade paródica. A trilha sonora de Berna Ceppas, por sua vez, confere ao personagem uma grandiosidade que ele está longe de possuir. É justamente nesse contraste entre a pompa musical e a mediocridade heróica do protagonista que o humor encontra uma de suas manifestações mais eficientes: o universo acredita na importância de Overman muito mais do que o próprio mundo parece acreditar.
Uma Mulher-Cachorro, um capitalista imundo e Pane, uma comunista com poderes elétricos: nada disso deve ser levado a sério, e essa é justamente parte da graça. O problema surge quando o caos colorido e a sucessão de personagens excêntricos dão a impressão de que estamos diante de uma introdução a algo muito maior, enquanto o filme se encerra após apenas 82 minutos. Existe tanta coisa a ser explorada nesse universo que sua conclusão deixa uma sensação de potencial desperdiçado, como se a produção apresentasse uma coleção de ideias interessantes sem conseguir desenvolvê-las plenamente.
Colorido, absurdo, caótico, sujo e pervertido, o universo de Overman tem personalidade e alma suficientes para sustentar algo além da sátira. Talvez o personagem merecesse uma abordagem que, sem abandonar o humor ou a irreverência, levasse mais a sério a existência de seus próprios heróis e vilões, como se eles realmente habitassem um mundo tão grandioso quanto aqueles construídos pela Marvel e pela DC.
Em vez de se limitar a debochar dos códigos do gênero, o longa poderia explorá-los para construir uma mitologia própria, aprofundando personagens e conflitos que mal começam a revelar seu potencial. Overman: O Filme diverte, demonstra criatividade e encontra soluções inteligentes para suas limitações, mas deixa a impressão de que sua propriedade intelectual ainda tem muito mais a oferecer.
Distribuído pela Migdal Filmes em parceria com a Elo Studios, Overman: O Filme estreia nos cinemas brasileiros em 22 de outubro de 2026.
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