Dirigido por Igor Voloshin, Pinóquio entrega um novo, e musical, olhar sobre uma história amplamente conhecida. Ainda assim, a inevitável comparação com outras versões levanta uma questão incômoda: quão ousada essa produção realmente é?
Poucos contos foram tão revisitados quanto Pinóquio. Do clássico da Disney ao recente e celebrado filme de Guillermo del Toro, passando até por releituras mais excêntricas, cada versão busca acrescentar algo à obra original, ou acaba se perdendo em meio a comparações inevitáveis. O filme de Igor Voloshin se encaixa justamente nesse segundo grupo: uma releitura com ideias, mas sem força suficiente para se destacar.
Vale destacar que a produção não adapta diretamente o conto de Carlo Collodi, mas sim o conto: A Chave de Ouro, ou As Aventuras de Buratino (1936), de Alexei Tolstói. Nessa versão, o protagonista é mais aventureiro, e o contexto soviético traz simbolismos mais evidentes sobre estruturas de poder, deixando a fábula em segundo plano.

Anastasia Talyzina, Mark Eydelshteyn, Vanya Dmitrienko, Ruzil Minekaev e Fyodor Bondarchuk em cena de “Pinóquio”- Divulgação Paris Filmes
As mudanças são claras: a fada azul se torna uma tartaruga mágica; Mangiafuoco dá lugar a Karabas, um diretor de teatro com conflitos paternos; a raposa e o gato viram ladrões humanos; o grilo falante é substituído por três baratas pouco relevantes; e Gepetto se transforma no melancólico Papa Carlo. São escolhas criativas que buscam um tom mais realista, mas acabam drenando parte do encanto da narrativa.
Essa falta de vida também se reflete na estética. Em diversos momentos, os cenários parecem artificiais, não apenas nas sequências teatrais, onde isso é intencional, mas também em espaços como a cidade, a oficina de Carlo ou as cenas de fuga. Há lampejos de brilho, como quando Buratino ganha vida e a oficina se ilumina, mas são instantes breves em um conjunto que raramente convence.
O ritmo também não ajuda. O filme se arrasta entre números musicais que, em sua maioria, não deixam marca. Há momentos pontuais de criatividade, como a canção da raposa e do gato ou o espetáculo da trupe teatral denunciando Karabas, mas eles não sustentam o todo. Falta impacto, falta memória.
Curiosamente, os personagens secundários acabam sendo mais interessantes que o próprio protagonista. Karabas, em especial, concentra alguns dos melhores momentos do filme, enquanto Buratino permanece apagado, quase perdido dentro da própria história.

Wiktorija Issakowa e Alexander Andrejewitsch Petrow em cena de “Pinóquio”- Divulgação Paris Filmes
Existe, sim, uma tentativa de homenagem à Commedia dell’Arte, e há um cuidado estético pontual que demonstra intenção. Mas, quando colocado ao lado de outras adaptações recentes, o filme evidencia sua maior fragilidade: a falta de identidade. Nem abraça plenamente o tom sombrio, nem se entrega à fábula. Fica preso entre os dois, e assim, nesse meio-termo, perde força.
A ideia de um Pinóquio que não mente e vive outras desventuras é interessante, mas isolada não sustenta a narrativa. Falta um eixo mais sólido, talvez um mentor mais marcante, algo que substituísse com mais peso as frágeis baratas, ou simplesmente um roteiro mais coeso.
No fim, Pinóquio tem o coração no lugar certo ao abordar famílias encontradas, mas trabalha essa mensagem de forma apressada e pouco envolvente. O resultado é um filme com boas intenções, alguns lampejos criativos e muito potencial desperdiçado.
Distribuído pela Paris Filmes, Pinóquio estreia no dia 16 de abril.
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