Dirigido por Ridley Scott, Ponto Sem Retorno é uma sessão da tarde que poderia ser muito mais
Na contemporaneidade, quando Ridley Scott anuncia um novo filme, parece que os deuses jogam uma moeda para decidir o resultado. De um lado, surgem belas surpresas como Perdido em Marte (2015) e O Último Duelo (2021); do outro, produções muito aquém dos maiores clássicos do diretor, como Prometheus (2012) e Gladiador 2 (2024). Ao analisarmos Ponto Sem Retorno, encontramos uma obra que se estabelece justamente no meio desses dois extremos: possui qualidades evidentes, mas também desperdiça boa parte do potencial que apresenta.
Ao retratar uma distopia ambientada em um Estados Unidos dominado por matas, árvores e selvagens, Scott constrói um universo visualmente rico. Os planos grandiosos ressaltam a beleza de uma América desolada, enquanto o silêncio, a trilha sonora e a contemplação funcionam quase como personagens dentro de um mundo que parece ter perdido qualquer esperança de reconstrução. É justamente nessa atmosfera que Ponto Sem Retorno encontra uma de suas maiores forças.
Temos, inicialmente, dois protagonistas que representam lados diferentes de uma mesma moeda. Hig, interpretado por Jacob Elordi, é um homem solitário, habilidoso e marcado por tendências suicidas após a morte da esposa. Bangley, por sua vez, parece ter encontrado certa paz no apocalipse, como se tivesse passado a vida inteira se preparando para aquele momento. Enquanto Hig representa a busca por alguma forma de esperança, Bangley simboliza a conformidade diante do inevitável. A dinâmica entre os dois é interessante justamente porque estabelece um conflito muito mais humano do que físico.

Jacob Elordi em cena de “Ponto Sem Retorno”- Divulgação Walt Disney Studios
O problema é que a ação demora demais para chegar, e quando finalmente surge, o filme já perdeu parte do seu impulso. Ponto Sem Retorno parece interessado em discutir o que restou da humanidade, refletir sobre a sobrevivência e contemplar suas belas paisagens, mas não encontra um equilíbrio satisfatório entre essas propostas e o desenvolvimento de seus personagens.
Cima, vivida por Margaret Qualley, é um exemplo evidente dessa limitação. A personagem acaba reduzida a poucas características: é bonita, estudou medicina e vive com o pai após a morte da mãe. Dentro de um roteiro tão pouco complexo, aparentemente isso basta, mas é uma pena que uma atriz como Qualley receba tão pouco material para trabalhar.
Os grandes antagonistas prometidos pela produção, apresentados como um grupo de carniceiros que abandonou qualquer resquício de humanidade, também decepcionam. Eles nunca representam uma ameaça verdadeiramente convincente e parecem muito mais uma ferramenta narrativa do que um elemento capaz de ampliar a discussão proposta pelo filme. Seria interessante conhecer esse grupo por outra perspectiva, entendendo como eles chegaram àquele estado e o que enxergam na própria sobrevivência. Essa ausência torna o conflito consideravelmente mais superficial do que poderia ser.
A situação piora no terceiro ato, quando Allison Janney surge como líder de uma espécie de pequeno Éden que rapidamente revela ter muito mais de inferno. A ideia é interessante, mas sua execução é apressada e deslocada em relação ao restante da narrativa. A sequência parece existir principalmente para conduzir o filme a um grande encerramento explosivo, e justamente por isso acaba enfraquecendo parte da construção anterior. O que poderia representar a culminação dos temas apresentados durante a jornada transforma-se em uma resolução convencional.

Jacob Elordi em cena de “Ponto Sem Retorno”- Divulgação Walt Disney Studios
A busca de Hig por um lugar onde ainda exista esperança o coloca em conflito com sobreviventes que estão longe de serem moralmente corretos. O conceito funciona, mas o filme constantemente parece indeciso sobre aquilo que deseja ser. Quer ser uma reflexão filosófica sobre o fim da humanidade? Um romance em meio ao apocalipse? Um thriller de sobrevivência? Ou uma aventura de ação em grande escala? Ao tentar transitar por todos esses caminhos sem se aprofundar verdadeiramente em nenhum deles, Ponto Sem Retorno acaba escorregando justamente no ritmo e na identidade.
O final tenta recuperar o tema da esperança que permeia toda a produção, mostrando que, mesmo diante de um mundo prestes a desaparecer, família, amizade e companheirismo ainda podem representar alguma forma de futuro. A ideia possui força e existe uma beleza genuína nessa mensagem. O problema é que ela chega tarde demais e sem a força necessária para transformar tudo o que veio antes. Faltou a Ponto Sem Retorno um senso de urgência capaz de fazer com que essa esperança realmente custasse alguma coisa.
Ponto Sem Retorno é bonito, possui uma atmosfera interessante e apresenta personagens carismáticos, mas termina sendo muito menos ambicioso do que aparenta. Como uma espécie de sessão da tarde pós-apocalíptica, funciona razoavelmente bem; como uma nova incursão de Ridley Scott pela ficção científica e pela distopia, porém, deixa a sensação de que poderia, e deveria, ter ido muito além.
Ao final, resta um filme que não chega a ser ruim, mas também não encontra nada suficientemente original, marcante ou memorável dentro de um subgênero já tão explorado.
Distribuído pela Walt Disney Studios, Ponto Sem Retorno chega aos cinemas no dia 27 de agosto.
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