Dirigido por Corin Hardy, O Som da Morte entrega iteração inteligente do terror contemporâneo, reunindo mortes inusitadas, pesadelos e reflexões sobre o que significa viver.
Herege (2024, Scott Beck e Bryan Woods) é um filme que constantemente volta à minha memória por ter me introduzido de forma marcante ao conceito de iterações: um material apresentado em sua forma mais bruta que, ao ser replicado em cópias da cópia da cópia, preserva somente fragmentos do que tornava o original impactante. Em um universo audiovisual atravessado por uma crise criativa baseada na repetição e na reimaginação de grandes produções do passado, O Som da Morte funciona quase como um manual de como, quando bem feito, uma iteração ainda pode deixar sua marca e acima de tudo, entreter.
Superado o primeiro obstáculo: sim, O Som da Morte se apoia em conceitos e regras já explorados pela franquia Premonição. No entanto, o filme não se limita a isso. Em seu “Atlas Mnemosyne”, surgem imagens que remetem a Fale Comigo (2023, Michael Philippou e Danny Philippou) e a outros títulos do chamado “terror adolescente”. Estão ali arquétipos bem definidos, o nerd apaixonado pela líder de torcida, o quarterback, a protagonista introvertida, mas, em diversos momentos, esses personagens revelam camadas mais interessantes do que o esperado.
O maior exemplo dessa subversão é Grace. Introduzida como a clássica “loira burra”, a personagem se revela uma das figuras mais interessantes do grupo, muito por conta da atuação de Alissa Skovbye. Conforme a narrativa avança, fica claro como Corin Hardy se apoia na familiaridade do público com esse tipo de história e opta por construir algo singular não exatamente na narrativa, mas em sua estética e em seu horror.

Cena de “O Som da Morte”- Divulgação Paris Filmes
Mesmo seguindo regras semelhantes às de Premonição, o filme se individualiza pelo fato de realmente mostrar a morte personificada de forma única para cada personagem, transformando o modo como cada um morrerá em uma experiência singular. Essa sensação de originalidade é amplificada pela fotografia e pela edição frenética em sequências específicas, como a perseguição no labirinto. Ainda assim, é no design sonoro que o filme encontra sua maior força, criando uma atmosfera constante que oscila entre o silêncio, os ruídos e músicas nostálgicas, usadas como respiro e como lembrete da mensagem central da obra.
O clima de Halloween surge como um elemento adicional que fortalece a atmosfera, mas o lançamento às vésperas do Carnaval reforça ainda mais sua leitura temática. O filme entende que não existe morte sem antes existir a vida, e que por conta disso, é preciso vivê-la em toda a sua potência. Poucos feriados discutem de forma tão simbólica o renascer e o memento mori quanto o Carnaval, que, após sua explosão de folia e celebração, é seguido pela Quarta-feira de Cinzas e pelo lembrete de que tudo acaba, mas não se anula.
Buscando esta mensagem, a narrativa apresenta diferentes tipos de prenúncios, todos bem recompensados ao longo da narrativa, construindo uma estrutura sólida nesse aspecto. As mortes, muitas vezes inéditas na tela grande, se beneficiam da maior liberdade criativa do filme, permitindo uma aproximação mais direta com o onírico e, principalmente, com o pesadelo.

Stephen Kalyn em cena de “O Som da Morte”- Divulgação Paris Filmes
A tensão é constante, o sangue é visceral e os momentos de pausa são bem dosados. Quando Hardy abraça de vez o universo dos pesadelos e dos demônios, surgem as cenas mais interessantes do filme. Trata-se de uma obra que que apresenta alma, coragem e coração suficientes para cativar o público ao longo de seus rápidos 97 minutos.
Ao final, O Som da Morte compreende seu papel não como uma tentativa de revitalizar o gênero, mas de fortalecê-lo dentro de seus próprios limites, entregando uma coletânea dos melhores momentos de filmes já amados e aprimorando elementos de outros nem tão queridos, como Sorria 2 (2024, Parker Finn). Com isso, sustenta uma história sólida o bastante para, quem sabe, se tornar referência futura sobre como lidar com produções desse estilo: coragem e humildade para entender o seu papel no grande esquema do cinema audiovisual de horror.
Distribuído pela Paris Filmes, O Som da Morte estreia nos cinemas em 5 de fevereiro.
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