Dirigido por Zar Amir Ebrahimi e Guy Nattiv, Tatame ganha pontos na ausência de maniqueísmo
Há produções que, mesmo tratando de temas urgentes, acabam se enfraquecendo pelo excesso de explicação. A necessidade de reafirmar constantemente sua tese transforma o que deveria ser impacto em desgaste. Nesse sentido, a comparação de Tatame com Barbie (2023, Greta Gerwig) pode soar improvável à primeira vista, mas faz sentido: ambos os filmes articulam uma agenda de empoderamento legítima, porém, ao subestimar a capacidade de interpretação do público, recorrem à repetição até a exaustão.
Isso não apaga as qualidades de Tatame, e elas são muitas. A escolha pelo preto e branco não é apenas estética: ela intensifica a sensação de perigo, destaca os contrastes do ambiente e reforça o caráter opressivo da narrativa. Os planos-sequência ampliam a tensão e mantêm o espectador imerso em um espaço que parece cada vez mais claustrofóbico. Soma-se a isso a atuação marcante de Arienne Mandi, que sustenta emocionalmente o filme com firmeza, e um roteiro que sabe construir um senso de urgência.

Arienne Mandi em cena de “Tatame”- Divulgação Kajá Filmes
A narrativa transita entre dois registros. De um lado, há o filme esportivo, que remete a obras como Menina de Ouro (2005, Clint Eastwood), especialmente na relação entre Leila e sua treinadora, Maryam, inicialmente marcada por cumplicidade, depois atravessada por conflito. De outro, emerge um thriller político, no qual a competição esportiva se torna pano de fundo para uma trama de vigilância, coerção e ameaça constante. Esse deslocamento de gênero funciona bem, pois amplia o peso das decisões das personagens: vencer uma luta deixa de ser o objetivo principal diante das consequências impostas pelo Estado.
Um dos aspectos mais interessantes do filme está justamente na ausência de maniqueísmo. Não há heróis ou vilões simplificados. As personagens operam dentro de um sistema que as pressiona, e suas escolhas refletem essa complexidade. A trajetória de Leila é construída com cuidado: sua confiança inicial dá lugar a um estado crescente de tensão, em que o medo passa a coexistir com a determinação e a vontade de vencer a todo custo. A vitória no tatame torna-se quase irrelevante frente à dimensão política que a cerca.
É nesse ponto, porém, que o filme começa a perder força. A mensagem, crítica à opressão patriarcal, à instrumentalização política do esporte e às contradições entre Irã e Israel, já está estabelecida com clareza. Ainda assim, o roteiro opta por reiterá-la de forma insistente, reduzindo o espaço para interpretação. Em vez de confiar na potência das imagens e das situações dramáticas, o filme frequentemente opta por sublinhar aquilo que já foi compreendido.
Essa abordagem lembra um movimento observado em Tropa de Elite 2 (2010, José Padilha), que intensifica sua mensagem após leituras equivocadas do primeiro filme. A diferença é que, em Tatame, essa insistência não responde a uma má interpretação anterior, mas sim um grito constante de “me escute, estamos sofrendo aqui” e, ao fazer isso, limita a ambiguidade que poderia enriquecer a obra.

Arienne Mandi em cena de “Tatame”- Divulgação Kajá Filmes
Ainda assim, é difícil ignorar a relevância do que está sendo dito. O contexto político que envolve o filme não apenas permanece atual como se intensificou desde seu lançamento. A opressão de mulheres em ambientes institucionais, especialmente no esporte, segue sendo uma realidade. Nesse cenário, a repetição da mensagem, por mais cansativa que possa ser em termos narrativos, carrega um peso simbólico: há temas que continuam precisando ser reiterados porque ainda não foram plenamente ouvidos.
Tatame não termina de forma sutil. Ele encerra como começou: em tensão. Mas, em vez de um suspiro, deixa um grito, um que ecoa para além da tela e reforça a urgência de sua discussão, deixando o espectador tenso, mesmo quando sua forma insiste mais do que deveria.
Distribuído pela Kajá Filmes, Tatame estreia nos cinemas brasileiros no dia 02 de Abril.
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