Dirigido por Kenichiro Akimoto, Você Só Precisa Matar traz olhar oriental para uma premissa conhecida, mas a comparação inevitável compromete seu impacto
Não é raro que o cinema hollywoodiano adapte obras internacionais e as ressignifique a partir de seus próprios códigos. De produções de terror como O Chamado (2003, Gore Verbinski), a dramas como CODA (2021, Sian Heder), esses novos olhares podem superar ou empobrecer o material original. Ainda assim, algo quase sempre se perde quando se desloca o olhar cultural que deu origem à obra, seja no ritmo, no foco narrativo ou na sensibilidade temática. É exatamente esse o impasse enfrentado por Você Só Precisa Matar.
Baseado no mangá japonês Tudo o Que Você Precisa é Matar (2004, Hiroshi Sakurazaka), o filme acompanha Rita Vrataski, uma soldada presa em um looping temporal após entrar em contato com o sangue de uma criatura alienígena. A cada morte, Rita revive o mesmo dia, aprimorando suas habilidades em uma tentativa constante de derrotar Cadol, a ameaça extraterrestre que assola a humanidade. Sua única chance de escapar surge ao encontrar Keiji Kiriya, um engenheiro igualmente preso ao mesmo ciclo, com quem forma uma aliança para, enfim, sobreviver ao amanhã.

Cena de “Você só Precisa Matar”- Divulgação Paris Filmes
A sensação de familiaridade não é acidental. A história já ganhou uma adaptação estadounidense estrelada por Tom Cruise e Emily Blunt: No Limite do Amanhã (2014, Doug Liman). O longa hollywoodiano não apenas simplifica certos conceitos do mangá, como também constrói uma narrativa própria, mais acessível e eficiente em suas regras internas. Na versão de Akimoto, parte dessa clareza se perde, com a direção optando por privilegiar a ação e a agilidade típicas do anime em detrimento de um desenvolvimento narrativo mais consistente.
Visualmente, Você Só Precisa Matar é um espetáculo de animação 2D. O uso expressivo das cores do arco íris em Cadol e o ruivo chamativo de Rita destacam a protagonista e reforçam sua presença em cena. Ainda assim, os problemas de ritmo persistem. A escolha por deslocar o protagonismo do mangá, originalmente centrado em Keiji, aproxima o filme tanto da adaptação hollywoodiana quanto de suas temáticas, criando um híbrido interessante, mas que raramente alcança algo verdadeiramente singular.
A comparação constante não se limita a No Limite do Amanhã. Desde O Feitiço do Tempo (1993), de Harold Ramis, o cinema explora exaustivamente a ideia de loops temporais, exigindo sempre um novo elemento para manter a premissa relevante. Mesmo sendo uma obra originalmente de 2004, o mangá acaba hoje ofuscado pelo alcance cultural e midiático da versão estrelada por Tom Cruise, que se tornou a principal referência do imaginário coletivo.

Cena de “Você só Precisa Matar”- Divulgação Paris Filmes
Elementos como as anotações nas palmas das mãos, as variações de estilo de animação e a relação entre Rita e Keiji, ambos lidando com traumas para aprender a agir em conjunto, conferem certa identidade ao filme. No entanto, isso não basta. As resoluções são fáceis demais, o peso dramático se dilui rapidamente e, mesmo no desfecho, quando Cadol assume o controle de Keiji, a tensão dá lugar à sensação de déjà-vu, reforçando a ideia de que já vimos conflitos semelhantes tratados de forma mais inventiva, entretendo, mas não escapando da sombra de suas comparações
Distribuído pela Paris Filmes, Você Só Precisa Matar estreia nos cinemas brasileiros em 12 de fevereiro.
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