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Inocência Roubada | Abuso infantil e arte em diálogo

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Crítica Inocência Roubada

Inocência Roubada é um que drama imerge na história de Odette, uma mulher que foi molestada, ainda criança, por um amigo íntimo de sua família (Gilbert). Assim, ela encontra na dança sua válvula de escape para lidar com esse trauma, atrelada à terapia, espaço o qual ela encontra coragem para confrontar seus medos e, enfim, ter voz diante de anos de silenciamento sobre anos de assédio sofrido. A película é uma autobiografia da diretora e atriz francesa Andréa Bescond. É uma adaptação da premiada peça Les Chatouilles (nome original do filme) que significa “ as cócegas” em francês. O título original refere-se ao modo como o abusador (Gilbert) apelidava suas investidas abusivas na pequena Odette.

Artimanhas da diretora

Inocência Roubada é protagonizado e dirigido por Andréa, que expõe seu trauma de forma mais degustável e menos angustiante – se é que é possível. A diretora utiliza o humor, a arte e as transições de cenas que trouxe do teatro (com enquadramentos e passagens de cenas típicas de uma peça teatral), tornando a narrativa movimentada e sem um grande apelo dramático, ainda que o assunto o exija. Por outro lado, fica a reflexão se tratar um trauma com doses de humor não seria também um bom caminho para trazer diversos públicos para o diálogo sobre a temática.

Além disso, a diretora também é cuidadosa em mostrar as cenas de abuso sem uma interação direta do abusador com a vítima. Dessa forma, em cenas nas quais acontecem os atos de abuso, a câmera foca na sensação dos dois separadamente. Ora vemos o prazer estampado no rosto do abusador, ora vemos a angústia da criança em ser abusada, mas nunca aglutinados. No entanto, não extingue o sentimento de repulsa e revolta que sentimos de Gilbert. É difícil de ver.

Um relato de abuso infantil conectado à dança

Odette, quando criança, se silencia diante das investidas do abusador e cresce lidando sozinha com seu trauma. Já crescida e tendo se tornado dançarina, é no palco e na dança que vemos sua fúria, sua forma de expurgar tudo o que sempre guardou dentro de si. O longa faz várias transições entre o passado e o presente de sua vida. Além disso, acompanhamos também como esse choque emocional reverberou em sua vida, em sua busca pelas drogas, em sua dificuldade de se envolver amorosamente e em sua solidão. Somado a tudo, é na terapia que a vítima ganha impulsionamento para falar sobre o ocorrido e encarar seus demônios. Desta vez, não mais em silêncio.

A importância do não silenciamento

O filme-denúncia Inocência Roubada faz um alerta para situações de abuso sexual infantil. Aliás, demonstra a falta de diálogo entre pais e filhos, que torna o ato abusivo muito mais difícil de detectar e que resulta na solidão vivida pela vítima por não conseguir se abrir sobre a situação. Afinal, a postura autoritária e agressiva da mãe de Odette diante do fato reflete o modo como muitas pessoas próximas à vítima tratam o abuso: com negação. O longa traz uma trajetória de superação e coragem perante o trauma e deixa um recado final de encorajamento e alerta ao público sobre a pedofilia e a dor da vítima.

Ademais, veja mais:

O Homem Invisível | Entenda a alegoria de um relacionamento abusivo
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6 Comentários

6 Comments

  1. Luana Trindade

    13 de julho de 2020 at 13:23

    Ótimo texto! Deu até vontade de assistir o filme.

  2. Amanda

    13 de julho de 2020 at 19:05

    Muito bom! Já quero assistir também.

  3. Aline

    13 de julho de 2020 at 19:10

    O filme parece ser interessante e adorei a forma como falou dele..me deixou curiosa. Já entrou para a minha lista de filmes para assistir!

  4. Ananza

    22 de julho de 2020 at 20:40

    Que olhar sensível e descritivo!
    Está no caminho certo, esperando a próxima critica.

  5. Gustavo

    22 de julho de 2020 at 20:47

    Ótimo texto, aguçou minha curiosidade.

  6. Pingback: Valéria | Série espanhola da Netflix aposta em dramas da geração millennial

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Nenhum saber para trás: os perigos das epistemologias únicas, com Cida Bento e Daniel Munduruku | Assista aqui

Veja o filme que aborda ações afirmativas e o racismo na ciência num diálogo contundente

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Nenhum saber para trás: os perigos das epistemologias únicas | com Cida Bento e Daniel Munduruku

Na última quinta-feira (23), fomos convidados para o evento de lançamento do curta-metragem Nenhum saber para trás: os perigos das epistemologias únicas | com Cida Bento e Daniel Munduruku. Aconteceu no Museu da República, no Rio de Janeiro.

Após a exibição um relevante debate ocorreu. Com mediação de Thales Vieira, estiveram presentes Raika Moisés, gestora de divulgação científica do Instituto Serrapilheira; Luiz Augusto Campos, professor de Sociologia da UERJ e Carol Canegal, coordenadora de pesquisas no Observatório da Branquitude. Ynaê Lopes dos Santos e outros que estavam na plateia também acrescentaram reflexões sobre epistemicídio.

Futura série?

O filme é belo e necessário e mereceria virar uma série. A direção de Fábio Gregório é sensível, cria uma aura de terror, utilizando o cenário, e ao mesmo tempo de força, pelos personagens que se encontram e são iluminados como verdadeiros baluartes de um saber ancestral. Além disso, a direção de fotografia de Yago Nauan favorece a imponência daqueles sábios.

O roteiro de Aline Vieira, com argumento de Thales Vieira, é o fio condutor para os protagonistas brilharem. Cida Bento e Daniel Munduruku, uma mulher negra e um homem indígena, dialogam sobre o não-pertencimento naquele lugar, o prédio da São Francisco, Faculdade de Direito da USP. Um lugar opressor para negros, pobres e indígenas.

Jacinta

As falas de ambos são cheias de sabedoria e realidade, e é tudo verdade. Jacinta Maria de Santana, mulher negra que teve seu corpo embalsamado, exposto como curiosidade científica e usado em trotes estudantis no Largo São Francisco, é um dos exemplos citados. Obra de Amâncio de Carvalho, responsável por colocar o corpo ali e que é nome de rua e de uma sala na USP.

Aliás, esse filme vem de uma nova geração de conteúdo audiovisual voltado para um combate antirracista. É o tipo de trabalho para ser mostrado em escolas, como, por exemplo, o filme Rio, Negro.

Por fim, a parceria entre Alma Preta e o Observatório da Branquitude resultaram em uma obra pontual para o entendimento e a mudança da cultura brasileira.

Em seguida, assista Nenhum saber para trás:

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Fé e Fúria | Documentário inédito estreia no Canal Brasil no novo Dia Nacional do Candomblé

Andança – Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho | Crítica (viventeandante.com)

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