Às 5h da manhã, ainda debaixo de chuva pesada, já tinha gente na fila do Rock in Rio esperando por um show que só aconteceria à meia-noite.
Era o dia do Stray Kids.
Tínhamos amigos ali. Alguns chegaram à grade. E, para a equipe da Genius Lab, aquele também seria o dia mais intenso de cobertura do festival.
Acompanhamos a movimentação desde cedo e fizemos praticamente um plantão nas redes. Nosso primeiro vídeo do soundcheck foi publicado antes da entrada do público e já tinha passado de 100 mil visualizações antes das 14h.
Mas a movimentação na Cidade do Rock dizia tanto quanto os números.
Quem chegou cedo não estava simplesmente esperando os portões abrirem.
A fila tinha sua própria dinâmica. Tinha photocard, freebie, SKZOO, banner, conversa, troca de informação e gente encontrando amigos que, muitas vezes, conhecia primeiro pelas redes.
Quando os portões abriram, a corrida pela grade começou.
Alguns dos nossos amigos correram para conseguir chegar ao espaço em frente ao palco. A disputa por cada centímetro era real. A Folha de S.Paulo chegou a descrever aquela movimentação como um “festival dentro do festival”.
E fazia sentido.
Aquele público do k-pop já chegava com seus próprios códigos e formas de viver o evento. O Rock in Rio oferecia a estrutura; a comunidade trazia a dinâmica.
Talvez uma das cenas mais interessantes estivesse justamente longe da grade.
Havia muitos adolescentes e jovens, mas também famílias inteiras.
Pais acompanhando os filhos, crianças e mães preocupadas em garantir que tudo corresse bem. Vimos pais mais ligados ao rock carregando as filhas nas costas para que elas conseguissem enxergar o palco.
Era curioso observar mães que não sabiam os nomes dos integrantes do Stray Kids, mas sabiam exatamente onde estavam os filhos e não desgrudavam deles.
Ao lado delas, fãs mais velhos disputavam centímetros na grade com a mesma determinação de quem esperou anos por aquele momento.
O dia reunia públicos diferentes dentro de uma mesma experiência. E isso também muda a forma como um festival precisa pensar sua operação.
Toda aquela energia também trouxe situações mais delicadas.
Chamou atenção a quantidade de pessoas procurando atendimento médico ou sentadas no chão entre um show e outro. Em alguns pontos, pessoas ocupavam áreas de passagem e a circulação ficava cada vez mais difícil.
Para quem estava ali, esse foi um dos momentos mais preocupantes do dia.
Houve um aviso no telão pedindo que o público recuasse. Durante o show, Bang Chan também pediu que as pessoas dessem um passo para trás e cuidassem umas das outras.
Os pedidos ajudaram, mas não resolveram completamente a situação.
É um detalhe importante porque mostra uma questão que vai além do comportamento de fãs. Quando um público chega com uma intensidade de participação diferente, a estrutura precisa acompanhar essa intensidade também.
Para a Genius Lab, aquele foi o dia de maior consumo de dados na produção de conteúdo durante o festival.
O primeiro vídeo do soundcheck, publicado antes da entrada do público, passou de 100 mil visualizações antes das 14h. A cobertura seguiu durante todo o dia, com vídeos, informações e atualizações em tempo real.
Do lado da infraestrutura, a TIM registrou 2,3 TB de dados consumidos durante o show do Stray Kids, cerca de 20% acima do recorde anterior da operadora no festival.
Na prática, a experiência não terminava no palco.
Ela continuava no celular, nas redes, nas mensagens, nos vídeos e nas comunidades que acompanhavam tudo em tempo real.
Quando o Stray Kids entrou no palco, essa participação ficou ainda mais evidente.
Os lightsticks transformaram a plateia em uma extensão visual do show. Os fãs sabiam os momentos das músicas, os fanchants e as respostas esperadas.
Era uma plateia que conhecia os códigos daquela experiência e sabia como participar dela.
E a chuva?
A chuva acompanhou boa parte da edição, mas justamente no dia do K-pop deu uma trégua.
A partir da entrada do público, por volta das 14h, o tempo segurou até o fim do show do Stray Kids.
Quando o grupo deixou o palco, o vento voltou. E a chuva veio logo depois.
Foi quando ressurgiu a velha piada carioca sobre o Cacique Cobra Coral, conhecida figura folclórica das histórias sobre controle do tempo.
Naquele dia, a brincadeira ganhou uma versão específica: JYP, CEO da JYP Entertainment, teria sido quem “pagou” o Cacique para garantir o céu aberto até o fim do show — afinal, ele estava diretamente ligado à presença das atrações coreanas e japonesas no festival.
Era, obviamente, só uma piada. Mas a coincidência do horário ajudou.
O que fica do dia do K-pop no Rock in Rio
O Rock in Rio não estava apenas recebendo artistas de K-pop. Estava recebendo uma comunidade com formas próprias de organização, comunicação e participação.
Isso apareceu na fila, nos freebies, nos lightsticks, nos encontros, na produção de conteúdo, na disputa pela grade e também na preocupação com quem estava ao redor.
Para quem estava ali, ficou claro que essa comunidade não começa a existir quando os portões abrem. Ela chega ao festival já organizada, conectada e com expectativas próprias sobre como quer viver aquele momento.
E talvez esse seja um dos principais aprendizados do dia 11.
O K-pop já sabe como participar de um festival. Resta saber quanto tempo os grandes eventos vão levar para entender que essa comunidade não está apenas ocupando a plateia, mas ajudando a redefinir o que significa viver um festival.
Este artigo é uma collab da Genius Lab, núcleo de inteligência em cultura pop, fandoms e economia criativa, e o Korea in Rio, projeto dedicado à divulgação da cultura coreana e à análise das transformações da indústria do entretenimento e do consumo cultural.
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