María (e os outros) | Ensimesmar

Este Filme espanhol de 2016 teve como direção Nely Reguera (em seu primeiro longa) e no papel principal Bárbara Lennie (“O vazio do domingo” e “A Garota de Fogo”). “María (e os outros)” marcou presença inédita no Brasil no Festival “Volta ao Mundo: Espanha” pelo Belas Artes À La Carte. A saber, a película fora indicada ao prêmio Goya nas categorias de Melhor Direção e Melhor Atriz.

María

35 anos, iludida em expectativas, desgostosa de si e do mundo. María se mantem contida e covarde demais para mudar a própria realidade. Nos outros, tudo aquilo que não conseguiu realizar. Aparentemente não ser capaz de tomar as rédeas de seu destino, como um barco a deriva.

Neste filme, em particular, tive dificuldades em analisar sua temática; pois criei relutância. E penso que muitas pessoas, como eu, tenham dificuldade em olhar, se  compadecer e amparar traços de personalidade e atitudes que já foram seus, que nos prejudicava ou envergonhava profundamente e que, hoje, já se encontram superados, amadurecidos, suprimidos ou mais adequados à uma existência eficaz e produtiva.

Escolhi, portanto, escrever sobre “Maria (e os outros)” sabendo que revisitaria lugares do passado e que, pela escrita, me disporia a olhar para ele com atenção.

Veja o trailer:

(e os outros)

O que vemos em Maria são de fato os outros, e de uma forma não adequada, pois são internalizados e imaginados ao seu gosto, e por consequência, sucedem-se desapontamentos, frustrações e faltas de entendimento. Motivo? Os outros são os outros, o que cabe a eles não nos cabe, o que são não nos deveria afetar, não deveríamos absorver aquilo que vemos e muito menos ter por garantido que sabemos tudo sobre o outro. E mesmo assim o fazemos, acreditamos ter este super poder.

No fundo, ninguém saberia sobre sua vida e seu íntimo, a menos que você desesperadamente e descaradamente mostre, ao ponto de querer que decidam por você os rumos de sua vida, vivendo uma não vida dentro de seu próprio corpo. A vida regida pela opinião dos outros.

Um ponto triste é que acabamos vendo de outras perspectivas as realidades que não buscamos viver, que tínhamos o poder de decidir e nada fizemos.

Há o possível e o irremediável

Na vida, ha fatos e realidades com as quais não podemos lutar, ha desejos não realizáveis, vontades suprimidas e toda sorte de injustiças. Alguns parecem crer, pois nunca terei certeza nisso, de que não podem fazer nada por eles mesmos em nenhuma circunstância; não sei se por se acharem fracos, inábeis, ou não dignos. Levam a vida que se apresenta e por fim cometem um erro que eu mesma ja cometi, reclamam sobre como tudo aconteceu diverso do que esperavam ou das consequências que não puderam evitar.

Maria não aparenta sua idade, induz reação a todas as conversas com seriedade e rigidez de postura excessiva, sendo dura demais com os outros, enquanto espera deles gentileza, compreensão e flexibilidade (sem comunicar-se adequadamente).

Dona de uma personalidade parada no estágio da adolescência, talvez pela morte precoce de sua mãe, se esquecera de cuidar de si mesma. O fato é que um adulto não é mais resultado puro e sem questionamento do que fizeram com ele (pessoas e história). O adulto é caracterizado pelo momento da vida em que lidamos com nossos problemas, resolvemos nossos dilemas, melhoramos como pessoas e tomamos as rédeas do que faremos com aqueles raros momentos onde podemos decidir sobre qualquer coisa, sem ferir ninguém ou terceirizar a responsabilidades pelo resultado desejado.

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Do contrário, estaríamos abrindo mão novamente da dádiva do tempo, que nós entrega a idade e possibilita maturidade, que de fato só nos alcança se formos atrás dela. Corremos tanto que de repente, nos esbarra e contamina, uma maturidade inegável mesmo diante do espelho. Aquele rosto que ja viu outros mil, em mil outros lugares e tempos, este que te encara e revela o caminho que percorreu sem vergonhas ou mágoas ou arrependimentos. Afinal, só você sabe como chegou até aqui. E percebe que os outros não podem estar contidos em (), é preciso libertá-los e à nós da mesma forma para serem o que precisam ser.

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