A história de um jovem de 17 anos assassinado durante a ditadura militar brasileira volta ao palco do Rio de Janeiro em outubro. O espetáculo Edson, escrito, dirigido e interpretado por Matheus Macena, faz uma curta temporada no Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa, entre 9 de outubro e 1º de novembro.
A nova temporada chega em um momento especialmente importante para a montagem. Edson recebeu cinco indicações ao 37º Prêmio Shell de Teatro, incluindo duas para Matheus Macena na categoria Melhor Ator, pelas temporadas realizadas no Rio e em São Paulo.
O espetáculo também concorre nas categorias Melhor Dramaturgia, para Macena, Melhor Música, para Pedro Nego, e Melhor Cenário, para Bidi Bujnowski.
Para quem acompanha a trajetória do ator, as indicações reforçam um reconhecimento que já havia acontecido em 2024, quando Matheus recebeu o Prêmio Shell de Melhor Ator por Musical Pré-Fabricado, de Michel Melamed.
Em Edson, porém, o desafio é ainda maior. Pela primeira vez, Matheus assume sozinho a cena e acumula as funções de dramaturgo e diretor, construindo uma narrativa que parte de um episódio real para discutir memória, violência e apagamento histórico.
O espetáculo parte da trajetória de Edson Luís de Lima Souto, estudante secundarista assassinado por agentes da ditadura militar em março de 1968, no restaurante Calabouço, no Centro do Rio.
Sua morte provocou forte mobilização popular e ajudou a transformar o estudante em um dos símbolos da resistência ao regime. Pouco depois, milhares de pessoas participaram da Passeata dos Cem Mil.
Mas Matheus escolheu olhar para Edson por um caminho menos conhecido.
Em vez de concentrar a narrativa apenas no militante ou no contexto político, a montagem procura recuperar o jovem migrante, filho de trabalhadores e marcado por uma realidade social que também contribuiu para seu apagamento.
Edson morou na rua, trabalhou como faxineiro e enfrentou o próprio analfabetismo. A reivindicação que estava na origem da manifestação em que foi morto também dizia respeito a algo bastante concreto: a alimentação dos estudantes.
É a partir dessa perspectiva que o espetáculo tenta ampliar uma discussão que continua atual: quem aparece nos registros oficiais da história e quem acaba ficando à margem deles?
A dramaturgia acompanha a família Lima Souto desde a saída de Belém do Pará até a morte de Edson no Rio de Janeiro. Pai, mãe, irmã e Edson aparecem em uma construção que mistura documentação histórica e ficção.
A escolha pela fabulação é importante para a montagem. Depois de meses pesquisando jornais, arquivos, reportagens e documentos na Biblioteca Nacional, Matheus percebeu que apenas reproduzir os fatos não seria suficiente para construir a experiência teatral que buscava.
A proposta passou, então, a unir a precisão histórica à imaginação.
“Para um espetáculo teatral é através da poesia que se descobre dignidade”, afirma o artista.
Um espelho entre 1968 e o Brasil atual
A ideia de criar Edson surgiu depois do assassinato de Marielle Franco, em março de 2018.
Para Matheus, havia uma coincidência temporal difícil de ignorar: exatamente 50 anos separavam os dois assassinatos.
Essa distância de cinco décadas acabou servindo como ponto de partida para uma reflexão sobre a permanência de determinados discursos políticos e sociais no Brasil.
A montagem, portanto, não pretende apenas reconstruir o passado. Ao recuperar a história de Edson Luís, procura também provocar o público a pensar sobre o presente.
Essa escolha ganha ainda mais força nesta nova temporada carioca, que acontece durante o período eleitoral. Para Matheus, levar uma peça sobre movimento estudantil e memória política ao palco nesse momento também é uma forma de assumir uma posição como artista.
Depois das temporadas no Rio e em São Paulo, Edson ainda passou por Buenos Aires antes de retornar à capital fluminense.
Em São Paulo, segundo o ator, a peça encontrou um público disposto a discutir as relações entre a história retratada no palco e acontecimentos que ainda fazem parte da memória brasileira.
A representatividade também passa pela humanidade
Um dos pontos mais interessantes da proposta está na maneira como Matheus pensa a representatividade.
Para o ator, não basta aumentar a presença de personagens negros e indígenas no cinema, na televisão ou no teatro. É necessário permitir que esses personagens tenham complexidade, contradições, desejos e humanidade.
Em Edson, essa preocupação aparece justamente na tentativa de reconstruir uma figura histórica que acabou sendo reduzida, muitas vezes, ao símbolo político de sua morte.
A peça procura devolver ao jovem uma dimensão familiar e cotidiana.
Antes de ser um personagem histórico, Edson era filho, irmão, trabalhador, estudante e migrante. Era alguém com uma vida que poderia ter seguido muitos outros caminhos.
É nesse espaço entre aquilo que realmente aconteceu e aquilo que poderia ter acontecido que a montagem encontra sua força poética.
Uma temporada curta no coração de Ipanema
Depois de circular por diferentes cidades, Edson retorna ao Rio para uma temporada de apenas quatro semanas.
A montagem será apresentada às sextas e aos sábados, às 20h, e aos domingos, às 19h, no Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa.
Com 75 minutos de duração e classificação indicativa de 16 anos, o espetáculo reúne atuação, música ao vivo, iluminação e cenografia em uma montagem que aposta na presença do ator e na força da narrativa.
A temporada carioca também acontece em um momento especial para Matheus Macena, que chega novamente ao palco indicado ao Prêmio Shell e com controle criativo sobre uma obra que nasceu de uma pesquisa pessoal e artística.
Mais do que recontar um episódio conhecido da ditadura, Edson tenta recuperar aquilo que a história oficial muitas vezes deixa de fora.
E talvez seja justamente aí que esteja sua principal provocação: lembrar não significa apenas repetir os fatos conhecidos. Também significa procurar aqueles que foram esquecidos, imaginar suas vidas e devolver humanidade a quem acabou transformado apenas em nome, número ou símbolo.
Serviço
Edson
Temporada: 9 de outubro a 1º de novembro de 2026
Horários: sexta e sábado, às 20h; domingo, às 19h
Ingressos: R$ 35 (meia-entrada) e R$ 70 (inteira)
Duração: 75 minutos
Classificação: 16 anos
Local: Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa
Endereço: Rua Prudente de Moraes, 824, Ipanema, Rio de Janeiro
Telefone: (21) 2523-9794
Instagram: @edson.espetaculo
Ingressos: Sympla
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