O que um telefone antigo, um orelhão, uma gambiarra, o Orkut e a cultura do WhatsApp têm em comum? Todos fazem parte da história da maneira como os brasileiros se comunicam e agora podem ser explorados em uma nova instalação interativa no Rio.
O Musehum — Museu das Comunicações e Humanidades inaugura nesta quarta-feira (7) Tudo é Comunicação, no Petrobras Futuros – Arte e Tecnologia, no Flamengo. A instalação transforma parte do acervo do museu em um mapa visual no qual o visitante pode escolher diferentes caminhos para descobrir histórias sobre tecnologias, objetos, comportamentos e experiências relacionadas à comunicação no país.
A atração reúne 80 verbetes distribuídos por cinco módulos temáticos e ocupa cinco monitores interativos da exposição de longa duração do Musehum. Em vez de apresentar uma linha do tempo convencional, a proposta cria uma rede de conexões entre diferentes momentos da história da comunicação brasileira.
Assim, uma pesquisa pode começar pelo telefone e terminar em uma discussão sobre redes sociais. Um objeto antigo pode levar a uma história sobre cultura popular. Uma tecnologia pode revelar uma transformação no cotidiano.
A visita não segue, portanto, uma ordem obrigatória. O público decide quais caminhos percorrer de acordo com sua curiosidade.
De D. Pedro II ao WhatsApp
A instalação foi organizada em cinco módulos: “Comunicação Além da Tecnologia”, “A Era do Telefone”, “O Brasil se Comunica”, “Comunicação é Cultura” e “As Redes Conectam Pessoas”.
Cada módulo apresenta conteúdos que podem levar a outros verbetes espalhados pela instalação. Entre os exemplos estão “Gambiarra”, “Telefone D. Pedro II”, “Orelhão” e “Cultura do WhatsApp”.
A escolha desses temas aproxima a história da comunicação de situações reconhecíveis no cotidiano brasileiro. O objetivo é mostrar que comunicação não se resume aos equipamentos e tecnologias que permitem a transmissão de mensagens.
Também envolve os usos que as pessoas fazem dessas ferramentas, as adaptações criadas diante das necessidades locais e os hábitos que surgem a partir das transformações tecnológicas.
“Cada verbete deste mapa nasceu inspirado numa peça, num documento ou numa memória do nosso acervo como elementos de reconhecimento sobre o modo do brasileiro se comunicar”, explica Bruna Cruz, museóloga e coordenadora do Musehum.
Segundo ela, a instalação permite que o visitante estabeleça suas próprias relações entre os conteúdos, em vez de seguir uma narrativa única.
A experiência percorre mais de um século de transformações. Telefones históricos aparecem ao lado de referências aos primeiros celulares, enquanto histórias sobre telefonistas, orelhões, telégrafo e internet mostram diferentes etapas da relação entre tecnologia e sociedade.
O resultado é uma abordagem que mistura história, cultura material e memória. Ao reconhecer objetos que fizeram parte de diferentes gerações, o visitante também pode encontrar lembranças pessoais dentro do acervo.
Histórias curiosas do acervo
A instalação também recupera episódios menos conhecidos da história da comunicação no Brasil.
Um deles envolve o Orkut, rede social que fez enorme sucesso no país antes de ser encerrada em 2014. A plataforma ganhou tamanha relevância entre os brasileiros que sua trajetória está relacionada à transferência de parte da operação do Google para o Brasil.
Outro exemplo está na Maré, no Rio de Janeiro. Em 1979, crianças conhecidas como “telecotecos” administravam um dos principais modelos de telefonia utilizados na favela.
A exposição também apresenta histórias ligadas a invenções que fazem parte da paisagem urbana brasileira.
O orelhão, por exemplo, foi projetado pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira. Já o identificador de chamadas é atribuído ao técnico mineiro Nélio José Nicolai.
Essas histórias ajudam a deslocar a comunicação de uma narrativa centrada apenas nas grandes empresas e tecnologias internacionais. A instalação procura mostrar também soluções brasileiras, adaptações locais e personagens que participaram dessa transformação.
Para Mariana Varzea, diretora da Inspirações Ilimitadas, a pesquisa permite estabelecer novas relações entre objetos e documentos preservados pelo museu.
“O que apresentamos é uma pesquisa qualificada em um acervo que tem muito a dizer sobre o Brasil”, afirma. Segundo ela, a criação de novas relações entre os elementos preservados abre espaço para outras perguntas e interpretações.
Museu transforma acervo em experiência
Tudo é Comunicação resulta de uma pesquisa e curadoria realizadas pelas equipes do Musehum e da Inspirações Ilimitadas. O projeto também contou com a escuta de profissionais ligados à cultura, semiótica, jornalismo, artes e tecnologias da informação e comunicação.
A instalação foi desenvolvida a partir do Plano Museológico do Musehum, lançado em 2024, e dialoga com a pesquisa publicada no primeiro volume da coleção Musehum Acervos Vivos.
A coleção investiga relações entre técnica, trabalho, cultura material e memória. A instalação amplia essa abordagem ao permitir que o visitante participe da construção de sua própria experiência dentro do acervo.
Essa característica também ajuda a aproximar diferentes gerações. Para quem viveu a época dos telefones fixos, por exemplo, determinados objetos podem despertar uma memória que não existe para quem cresceu usando smartphones.
Da mesma forma, elementos aparentemente recentes, como redes sociais e aplicativos de mensagens, passam a ser vistos dentro de uma história mais ampla.
A exposição mostra que cada transformação tecnológica também altera comportamentos. A maneira de conversar, trabalhar, encontrar pessoas, compartilhar informações e preservar memórias muda conforme novas ferramentas entram na rotina.
No centro dessa trajetória está justamente a ideia que dá nome à instalação: tudo pode se tornar comunicação quando passa a integrar as relações entre pessoas, objetos, tecnologias e sociedade.
Nova atração fica no Flamengo
A instalação passa a integrar a exposição de longa duração do Musehum, dentro do Petrobras Futuros – Arte e Tecnologia, centro cultural localizado no Flamengo.
O espaço reúne iniciativas ligadas às artes visuais, digitais, performáticas, cênicas e sonoras, além de exposições, instalações, performances, espetáculos, shows, oficinas, encontros e debates.
O Musehum ocupa uma posição particular nesse conjunto por preservar a história das tecnologias de comunicação no Brasil.
Com Tudo é Comunicação, parte desse acervo deixa de ser apresentada apenas como objeto histórico e passa a funcionar como ponto de partida para uma experiência de navegação.
A proposta é especialmente adequada a um tema que está em constante transformação. Afinal, enquanto o visitante percorre histórias sobre telégrafo, telefone e orelhão, a própria ideia de comunicação continua mudando fora do museu.
A entrada é gratuita, e a instalação pode ser visitada de quarta a domingo, das 11h às 18h.
Serviço
Tudo é Comunicação
Abertura: 7 de outubro de 2026
Visitação: quarta a domingo, das 11h às 18h
Local: Musehum – Museu das Comunicações e Humanidades, no Petrobras Futuros – Arte e Tecnologia
Endereço: Rua Dois de Dezembro, 63, 6º andar, Flamengo, Rio de Janeiro
Entrada: gratuita
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