Thursday, October 6, 2022

Crítica | ‘Pureza’ é antiescravagismo na veia e cinema nacional de qualidade

Às vésperas do aniversário de 134 anos da Lei Áurea, “Pureza” joga holofotes na constante existência do trabalho escravo no Brasil atual. Nesse filme do diretor Renato Barbieri, vemos a história de Pureza Lopes Loyola, uma mãe do interior do Pará vivida por Dira Paes, que sai em busca do seu filho Abel (Matheus Abreu). O rapaz foi procurar trabalho numa fazenda e caiu no cárcere privado. Nessa busca, ela se infiltra numa fazenda onde a morte e a violência regem com punho de aço.

Prenúncio de problemas

Apesar de se passar nos anos 90, “Pureza” está longe de ser um filme datado. A película já começa a bordoada emocional ao mostrar a vida dura de Pureza e Abel como oleiros fazendo tijolos de barro. O trabalho pesado debaixo do sol é mal remunerado e destruidor para o corpo dos protagonistas, o que leva o filho a procurar trabalho numa cidade maior, o mesmo que o seu tio fez.

Nesse ponto do filme, já se pode entender o que vai acontecer. Assim como o tio, Abel some por meses, o que inquieta cada vez mais Pureza. Com medo do pior ter acontecido, ela vai atrás do rapaz, viajando quilômetros pelo interior Paraense até a cidade onde ele disse que iria.

Atuação

Desde o começo do filme, Dira Paes é a definição de sofrimento. Do momento que o seu filho some até o final do filme, ela consegue representar medo, cansaço, ódio, compaixão e tantos outros sentimentos que a guiam até o seu objetivo. Seja no meio do mato ou em Brasília, a atriz traz uma nuance única ao calvário dessa mãe.

Junto dela, outro ator que rouba a cena é Flavio Bauraqui, que vive o capataz Narciso. Como chefão daquela região, ele conseguiu exprimir um misto de frieza e determinação nervosa que deixa os cabelos em pé. Em vários momentos o ator apresenta uma fúria animalesca que parece um pouco exagerada, mas que ajuda a sedimentar o sentimento negativo pelo personagem de forma efetiva. Assim, Bauraqui e Dira Paes carregam o grosso da atuação em “Pureza”.

Temática e exposição

Como um todo, “Pureza” é uma denúncia que joga luz para uma situação de 1888 que até agora não foi resolvida. A situação do trabalho escravo se agrava a cada fala presidencial que critica o combate à esse crime hediondo. Se não for por filmes como esse e notícias como essas, a população como um todo permaneceria no escuro. Existem inúmeros relatos de trabalho escravo, tanto no campo quanto na cidade. Mesmo assim, esses crimes contra a humanidade continuam.

Talvez um dos pontos mais importantes em “Pureza” seja justamente a caracterização do dono daquela fazenda infernal no meio do nada. Quem manda de verdade não é o capataz, nem o leão de chácara, mas sim o empresário paulista que chega de avião e passa o dia no ar-condicionado. Ter consciência de que o problema é muito mais extenso que meia dúzia de fazendas no interior é essencial. São pessoas “finas” da capital que estão lucrando com o trabalho forçado de coitados que são exauridos e mortos.

Finalmentes

Apesar do final corrido e de algumas atuações menos precisas, “Pureza” entrega uma mensagem clara. Se o povo não se meter, os horrores vão continuar. Foram movimentos populares que derrubaram a ditadura brasileira, e serão movimentos populares que vão trazer segurança para os trabalhadores. Longe de ser um filme moderado como outros lançados ultimamente, “Pureza” não mede esforços para radicalizar um povo humilhado e cansado. Por conta disso, não posso deixar de indicar que você vá ao cinema e assista esse filmaço.

Por fim, o filme estreia nos cinemas brasileiros no dia 28 de abril. Nosso jornalista Alvaro Tallarico falou com a Dona Pureza e Dira Paes sobre o filme há dois anos atrás, veja aqui.

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7.5
Pureza

Fotografia, direção e produção bem feitas, dando espaço para os atores e a história brilharem

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