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Uber lucra bilhões, investe em robotáxis e levanta dúvidas sobre o futuro dos motoristas de aplicativo

Com receita de US$ 52 bilhões em 2025, empresa amplia investimentos em veículos autônomos enquanto trabalhadores enfrentam custos elevados e falta de proteção. No Brasil, dados do IBGE ajudam a dimensionar a realidade de quem depende das plataformas.

Por Alvaro Tallarico
Última Atualização 5 de novembro de 2026
11 Min Leitura
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Tópicos
  • Uber prepara bilhões para a mobilidade autônoma
  • A reestruturação da Uber e o corte de 3.300 empregos
  • Quanto ganha um motorista de aplicativo no Brasil?
  • O motorista assume os custos e os riscos da atividade
  • A liberdade de horário tem limites
  • Robotáxis podem mudar o mercado de trabalho
  • Quem ficará com os ganhos da inovação?
  • Leia mais

A Uber construiu um dos maiores negócios de mobilidade do mundo conectando passageiros a motoristas particulares. Agora, a empresa acelera investimentos em veículos autônomos, tecnologia que pode transformar profundamente o setor. A mudança levanta uma questão: qual será o lugar dos profissionais que sustentaram a expansão das plataformas?

Em 2025, a Uber registrou US$ 52 bilhões em receita e 13,6 bilhões de viagens realizadas globalmente. As reservas brutas, que representam o valor total das transações realizadas na plataforma, chegaram a US$ 193,4 bilhões.

No mesmo ano, a companhia informou lucro líquido de aproximadamente US$ 10,1 bilhões. Esse resultado, entretanto, inclui um benefício fiscal de US$ 5 bilhões relacionado à liberação de créditos tributários nos Países Baixos. Portanto, o número exige atenção antes de ser interpretado como resultado exclusivamente operacional.

Enquanto apresenta resultados bilionários, a empresa direciona recursos para uma nova etapa do negócio: a mobilidade autônoma. A estratégia envolve parcerias com fabricantes e empresas de tecnologia, investimentos em infraestrutura e compromissos de aquisição de veículos.

A transformação pode reduzir a dependência de motoristas humanos em determinadas operações. Também abre um debate sobre trabalho, distribuição dos ganhos tecnológicos e concentração econômica.

Uber prepara bilhões para a mobilidade autônoma

A aposta nos robotáxis ganhou dimensão em 2026. Em apresentações a investidores, a Uber afirmou que pretende comprometer mais de US$ 10 bilhões nos próximos anos com a expansão da mobilidade autônoma.

O valor reúne investimentos em empresas, infraestrutura e compromissos relacionados à aquisição de veículos. Não representa simplesmente um orçamento destinado à compra de carros sem motorista.

Um dos acordos mais expressivos envolve a fabricante Lucid. Em abril de 2026, as empresas ampliaram a parceria para uma operação global de robotáxis, com compromisso de pelo menos 35 mil veículos.

O projeto prevê modelos da linha Lucid Gravity e veículos de uma plataforma intermediária. A produção dos modelos intermediários autônomos está prevista para começar no fim de 2028.

A Uber também mantém uma parceria com a Waymo, empresa especializada em direção autônoma. A expansão desse mercado coloca a companhia diante de uma mudança importante: ela pode deixar de atuar somente como intermediária entre passageiros e motoristas.

A tecnologia, contudo, ainda depende de regulamentação, infraestrutura, segurança operacional e aceitação dos consumidores. A substituição em larga escala dos profissionais não é um resultado automático dos investimentos anunciados.

A reestruturação da Uber e o corte de 3.300 empregos

A estratégia de transformação tecnológica também acompanha uma reorganização interna.

Em 2 de setembro de 2026, a Uber anunciou o corte de aproximadamente 3.300 funcionários, cerca de 10% de sua equipe global. Foi a maior redução de pessoal desde a pandemia de Covid-19.

Segundo informações divulgadas pela Reuters, o presidente-executivo Dara Khosrowshahi afirmou que a empresa pretende reduzir níveis hierárquicos e simplificar sua estrutura.

A companhia também planeja diminuir em 20% o número de funcionários posicionados a sete ou mais níveis hierárquicos abaixo do CEO. Outra medida prevê reduzir pela metade as equipes com apenas um ou dois subordinados diretos.

A reestruturação ocorre em meio à concorrência crescente no mercado de robotáxis. A empresa busca tornar sua estrutura mais ágil e direcionar recursos para áreas consideradas estratégicas.

Embora o corte não tenha sido apresentado oficialmente como uma substituição de funcionários por inteligência artificial, a reorganização acontece no mesmo contexto de investimentos em automação e mobilidade autônoma.

É importante distinguir os dois grupos de trabalhadores envolvidos nessa discussão. Os 3.300 postos anunciados para corte são empregos corporativos da Uber. A situação dos motoristas parceiros envolve outro modelo de trabalho e não foi objeto desse anúncio de demissões.

Quanto ganha um motorista de aplicativo no Brasil?

A discussão sobre o futuro das plataformas também passa pelas condições atuais de trabalho. No Brasil, motoristas precisam considerar despesas que não aparecem no valor bruto recebido pelas corridas.

Combustível, manutenção, pneus, seguro, impostos, financiamento ou aluguel do veículo e depreciação comprometem parte da receita. O tempo de espera entre viagens também influencia o rendimento real.

Dados do IBGE referentes a 2024 ajudam a dimensionar essa realidade. Segundo o instituto, condutores de automóveis que trabalhavam por meio de plataformas digitais recebiam, em média, R$ 2.766 mensais.

A média de trabalho desse grupo era de 45,9 horas semanais. O rendimento médio por hora correspondia a R$ 13,90.

Esses números não representam lucro líquido. O rendimento informado pelo IBGE não deve ser confundido com o dinheiro que sobra depois de todos os custos necessários para manter o veículo em circulação.

A pesquisa também permite uma comparação com motoristas que não trabalhavam por plataformas. Nesse grupo, o rendimento médio mensal era de R$ 2.425, com 40,9 horas semanais de trabalho.

A diferença de rendimento mensal não elimina uma questão importante: os motoristas plataformizados trabalhavam, em média, cinco horas a mais por semana.

O motorista assume os custos e os riscos da atividade

No modelo de trabalho por aplicativo, o profissional geralmente utiliza veículo próprio ou alugado. Isso significa assumir despesas que uma empresa tradicional de transporte costuma administrar diretamente.

O combustível é um dos principais custos. A ele se somam revisões, reparos, pneus, limpeza, documentação, seguro e perda de valor do automóvel.

Quem aluga um carro ainda precisa pagar uma despesa fixa, mesmo quando a demanda diminui. Já quem utiliza veículo próprio precisa considerar o desgaste e a desvalorização provocados pelo uso intensivo.

Também existe a diferença entre tempo conectado e tempo efetivamente remunerado. Um motorista pode permanecer disponível durante várias horas sem receber chamadas ou encontrar corridas financeiramente interessantes.

Por isso, comparar o faturamento diário com um salário formal pode produzir uma visão distorcida. É necessário descontar despesas e considerar o tempo total dedicado à atividade.

A liberdade de horário tem limites

Um dos argumentos associados ao trabalho por aplicativo é a flexibilidade. O motorista pode escolher quando começar e terminar suas atividades, sem cumprir necessariamente uma escala fixa.

Na prática, essa autonomia convive com a necessidade de alcançar uma renda suficiente para pagar as despesas. Quem depende exclusivamente da plataforma pode ampliar a jornada para compensar períodos de baixa demanda.

A remuneração também depende de fatores que o profissional não controla diretamente, como quantidade de passageiros, localização, trânsito, tarifas e critérios de distribuição das chamadas.

Esse modelo alimenta discussões sobre a autonomia dos trabalhadores e o poder das empresas que controlam os aplicativos. O motorista decide quando trabalhar, mas não controla todas as condições econômicas da atividade.

A ausência de garantias tradicionais também pesa nessa equação. Férias remuneradas, décimo terceiro salário e outras proteções trabalhistas não fazem parte automaticamente da relação entre plataformas e motoristas parceiros.

Robotáxis podem mudar o mercado de trabalho

A expansão dos veículos autônomos coloca uma nova variável nessa relação. Se os robotáxis conseguirem operar em escala comercial, parte das viagens poderá acontecer sem a presença de um motorista humano.

Para as empresas, a tecnologia oferece a possibilidade de reduzir determinados custos operacionais e ampliar a oferta de serviços. Para os trabalhadores, representa uma ameaça potencial à demanda por corridas realizadas por pessoas.

Mas o cenário não é simples. A operação exige veículos especializados, manutenção, seguros, centros de controle, infraestrutura de recarga e sistemas capazes de lidar com situações imprevisíveis.

Também existem obstáculos regulatórios. Cada país e cidade precisa estabelecer regras para circulação, responsabilidade em acidentes, segurança dos passageiros e fiscalização.

No Brasil, a adoção dependerá ainda das condições das vias, da infraestrutura urbana e das decisões dos órgãos responsáveis pela regulamentação.

Além disso, a própria Uber pode continuar dependendo de motoristas humanos em regiões onde a tecnologia não seja viável economicamente ou tecnicamente.

Quem ficará com os ganhos da inovação?

O debate ultrapassa a discussão sobre carros autônomos. A questão central envolve quem controla a tecnologia, quem assume os riscos e quem recebe os benefícios econômicos da transformação.

Durante anos, as plataformas cresceram com uma estrutura que transfere parte significativa dos custos da operação aos trabalhadores. O motorista oferece o veículo, paga as despesas e realiza o transporte. A empresa administra a tecnologia, conecta os participantes e recebe uma parcela das transações.

Com a chegada dos robotáxis, essa divisão pode mudar. As empresas terão de construir parcerias com fabricantes, operadores de frotas e fornecedores de tecnologia. A propriedade dos veículos e a responsabilidade pela operação também poderão variar entre os modelos de negócio.

O avanço tecnológico não significa necessariamente o desaparecimento imediato dos motoristas. Entretanto, pode alterar a quantidade de oportunidades disponíveis e a capacidade de negociação dos profissionais.

A questão que permanece é como distribuir os ganhos de produtividade e quais mecanismos de proteção serão oferecidos aos trabalhadores durante essa transição.

A Uber apresenta a mobilidade autônoma como parte de seu futuro. Para os motoristas que hoje mantêm o serviço funcionando, esse futuro ainda é uma incógnita.

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Tags:carros autônomoseconomia de plataformaIBGEinteligência artificialLucidmercado de trabalhomobilidade urbanamotoristas de aplicativoprecarização do trabalhorobotáxistrabalho por aplicativoUberWaymo
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PorAlvaro Tallarico
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Jornalista especializado em Jornalismo Cultural pela UERJ com experiência em Jornalismo Esportivo. Autor dos livros "O que é Arte? Com a palavra, o artista", "A Paulistana de Ganesha", e outros.

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