O terceiro episódio de Lanternas é, até aqui, o momento em que a série da DC Studios deixa claro que não pretende ser apenas uma adaptação de super-heróis.
O capítulo usa John Stewart, Hal Jordan e a própria mitologia dos Lanternas Verdes para construir uma discussão sobre racismo, privilégio, meritocracia, educação, família, autoridade e sociedade.
E o mais interessante é que a série não precisa transformar seus personagens em porta-vozes de um discurso. Ela coloca essas questões dentro da própria narrativa.
Para mim, é justamente isso que faz do episódio 3 o melhor capítulo de Lanternas até agora.
John Stewart não foi criado para ser apenas “o Lanterna Verde negro”
Uma das críticas que apareceram nas redes sociais acusa a série de estar “destruindo o lore” ao abordar o racismo envolvendo John Stewart.
Essa leitura ignora uma parte fundamental da própria origem do personagem.
John Stewart foi criado por Neal Adams e Dennis O’Neil em 1971, em um período em que a representação de personagens negros nos quadrinhos ainda era profundamente marcada por estereótipos.
Adams já explicou que queria um Lanterna Verde negro porque não considerava convincente que o anel procurasse um substituto para Hal Jordan e simplesmente escolhesse outro homem branco.
Mas a preocupação não terminava na cor da pele.
A intenção era construir um personagem negro que fosse formado, profissional, inteligente, forte e dono de seus próprios princípios.

A ideia era justamente fugir de estereótipos que associavam personagens negros à criminalidade ou a determinadas representações folclorizadas da África.
Até o nome inicialmente pensado para o personagem, Lincoln Washington, foi rejeitado por Adams. Para ele, a combinação carregava associações históricas que poderiam produzir exatamente o tipo de representação que queria evitar.
O nome escolhido acabou sendo John Stewart.
Isso é importante porque mostra que a questão racial sempre esteve presente na construção do personagem.
O racismo não foi colocado agora em John Stewart para deixá-lo “mais atual”.
A questão já fazia parte da própria existência do personagem.
E aqui está uma das camadas que parte das críticas parece ter deixado escapar.
O episódio 3 não apresenta a criação de John Stewart como algo necessariamente positivo.
Muito pelo contrário.
A formação extremamente rígida que ele recebeu dentro de casa aparece também como fonte de traumas e conflitos.
John foi preparado para ser disciplinado, resistente e obediente.
Mas existe uma diferença enorme entre preparar alguém para enfrentar adversidades e criar uma pessoa condicionada a obedecer uma autoridade sem questionamentos.
É justamente nessa tensão que o episódio encontra uma de suas melhores ideias.
John não é apenas um homem negro enfrentando o racismo.
Ele é um homem que foi moldado por um sistema de expectativas, inclusive dentro da própria família, para se tornar alguém capaz de suportar qualquer coisa.
E isso muda completamente a interpretação do capítulo.
Hal Jordan e John Stewart representam caminhos diferentes
A relação entre Hal e John também ganha outra dimensão.
Hal recebe o anel porque, dentro da lógica tradicional dos Lanternas Verdes, demonstra as características necessárias para ser escolhido.

John, entretanto, é apresentado a partir de uma experiência muito mais complexa.
Existe uma tentativa de formar antecipadamente o homem que os Guardiões desejam que ele seja.
A ideia é produzir alguém sem medo, preparado para cumprir sua função e obedecer à estrutura superior.
Isso cria uma pergunta muito mais interessante do que simplesmente “quem merece o anel?”.
Quem decidiu quais características fazem alguém merecedor?
E, principalmente, quem criou as regras pelas quais essa meritocracia é medida?
É aí que o episódio deixa de ser apenas uma história sobre Lanternas Verdes.
O roteiro utiliza a própria mitologia dos Guardiões do Universo para discutir a ideia de meritocracia.
A princípio, parece existir um sistema objetivo.
Você demonstra determinadas qualidades, recebe uma oportunidade e conquista seu espaço.
Só que a série começa a desmontar essa aparente neutralidade.
Porque sistemas nunca são tão neutros quanto parecem.
Quem estabelece os critérios?
Quem tem acesso às oportunidades?
Quem começa a corrida em vantagem?
Quem é educado para vencer?
Quem é punido quando não consegue?
E quem possui autoridade para dizer que determinada pessoa simplesmente não foi suficientemente boa?
Lanternas transforma essas perguntas em elementos dramáticos.
Não é uma palestra sobre desigualdade.
É uma história de personagens tentando entender as regras de um jogo que talvez nunca tenha sido tão justo quanto eles imaginavam.
O racismo é apenas uma das camadas
Talvez esse seja o ponto mais importante para entender a reação ao episódio.
Muita gente concentrou a discussão exclusivamente no racismo.
Mas o capítulo está falando de muito mais coisas ao mesmo tempo.

Existe uma discussão sobre raça, mas também sobre classe, privilégio, família, educação, autoridade, masculinidade, trauma e meritocracia.
A questão racial é fundamental porque faz parte da experiência de John Stewart.
Mas reduzi-la a isso também limita o episódio.
A série está interessada em saber como uma pessoa é construída por diferentes sistemas de poder.
E essa é uma discussão muito mais sofisticada.
Vanessa Baden encontra o tom certo
O roteiro assinado por Vanessa Baden Kelly merece destaque justamente porque consegue colocar todas essas ideias dentro de uma história de gênero.
Em vez de interromper a narrativa para explicar ao espectador aquilo que ele deveria pensar, o episódio permite que as situações produzam desconforto.
É uma escolha particularmente eficiente.
O espectador precisa interpretar o que está vendo.
E talvez seja justamente por isso que o episódio tenha provocado tantas reações diferentes.
Algumas pessoas enxergaram uma história sobre racismo.
Outras perceberam uma discussão sobre privilégio.
Há quem tenha interpretado a relação entre John e seus pais como uma crítica à uma formação tóxica.
E há quem tenha visto tudo isso como uma ameaça ao legado dos Lanternas.
Na minha leitura, essas interpretações não precisam necessariamente se excluir.
É justamente porque o episódio possui camadas que ele consegue provocar discussões tão diferentes.
O problema não é Lanternas ser “woke”
A palavra “woke” apareceu inevitavelmente em parte das reações ao episódio.
Mas existe uma ironia nessa crítica.
A abordagem racial de John Stewart não é uma invenção da série.
Ela está ligada à própria história de criação do personagem.
Além disso, a série não transforma John em uma caricatura construída exclusivamente em torno de sua identidade racial.
Ele continua sendo um personagem complexo, com personalidade, formação, conflitos, contradições e uma história própria.
Sua raça é parte fundamental de quem ele é.
Mas não é tudo o que ele é.
E isso, curiosamente, está muito próximo da intenção original de seus criadores.
Outro mérito do episódio está na maneira como ele combina essa discussão com uma atmosfera de noir.
Lanternas continua funcionando como investigação.
Existe uma sensação constante de que os personagens estão descobrindo apenas partes de uma verdade maior.
As respostas não aparecem necessariamente quando seriam mais confortáveis.
E o capítulo termina com aquela sensação amarga típica das melhores histórias noir: entender o sistema não significa necessariamente conseguir escapar dele.
É quase uma versão de “Esqueça, Jake. É Chinatown” aplicada ao universo dos Lanternas.
Você descobre como as engrenagens funcionam.
Descobre quem possui poder.
Descobre que as regras podem ser injustas.
E ainda assim precisa decidir como continuar vivendo dentro daquele sistema.
O episódio 3 respeita o legado dos Lanternas Verdes?
Na minha avaliação, sim.
E talvez respeite justamente porque não trata o passado como uma peça de museu.
Uma boa adaptação não precisa repetir exatamente aquilo que já conhecemos.
Ela precisa entender por que aquilo funcionava e encontrar uma maneira de desenvolver essas ideias em uma nova história.
Lanternas parece compreender isso.
A série pega elementos fundamentais de John Stewart, Hal Jordan, dos Guardiões e da mitologia dos Lanternas e coloca tudo dentro de uma narrativa mais adulta e contemporânea.
Não é necessário concordar com todas as escolhas para reconhecer que existe uma proposta autoral.
Lanternas está se tornando um dos grandes acertos do novo DCU
Depois de apenas três episódios, Lanternas já demonstra uma segurança que chama atenção.
A série não depende exclusivamente de grandes batalhas ou efeitos visuais para funcionar.
Ela aposta em personagens, investigação, diálogos e conflitos humanos.
E essa escolha pode ser justamente o que diferencia a produção de outras adaptações de quadrinhos.
O episódio 3 mostra que existe uma intenção clara de utilizar o universo dos Lanternas para discutir questões maiores.
Quando isso funciona, como neste capítulo, o resultado é muito mais interessante do que simplesmente assistir a um herói usando um anel verde para criar construções de energia.
Para mim, Lanternas está de longe entre as produções mais interessantes do novo DCU e já se coloca como uma das melhores séries do ano.
E o episódio 3 é a prova mais forte disso até agora.
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