Dirigido por Jefferson De, Narciso se divide em 3 histórias
Por mais importante que seja a mensagem de um filme, ela precisa surgir organicamente dentro da narrativa; caso contrário, perde força e impacta a ideia original. E Jefferson De parte de uma das ideias mais interessantes do cinema brasileiro recente: reinterpretar o mito de Narciso por meio de um menino negro em crise de identidade, que encontra a possibilidade de transitar entre diferentes percepções raciais. É uma proposta potente, que por si só abre caminhos para múltiplas discussões e reflexões. No entanto, na prática, o resultado deixa a desejar.
O principal problema da produção está na divisão em três histórias que, à primeira vista, não dialogam entre si. Acompanhamos inicialmente Narciso, um menino negro que, na véspera do aniversário, é devolvido por sua família adotiva. Em crise, ele recebe a oferta de um gênio: três desejos, com a condição de nunca olhar para o próprio reflexo. Seu pedido por uma nova família o leva a um universo fantástico em preto e branco, com forte contraste visual que remete às fotografias de Sebastião Salgado, sem dúvida, o trecho mais interessante do filme.

Cena de “Narciso”- Divulgação Elo Studios
Essa camada, que conta com participações de Marcelo Serrado e Fernanda Nobre, é rapidamente abandonada. A narrativa retorna, então, a um registro mais realista, carregado de personagens e situações que não se desenvolvem plenamente e cujas resoluções surgem de forma abrupta, sem a devida construção. Ainda que a fotografia ganhe força ao longo do filme, a narrativa carece de conexões, aprofundamento do protagonista e clareza nos conflitos. As interações parecem não levar a lugar algum, e até mesmo a presença de Seu Jorge, que poderia adicionar densidade à trama, acaba diluída dentro da proposta.
A mensagem sobre aceitação, racial e pessoal, está evidente desde o início, mas é reiterada de maneira excessivamente didática, seja por meio de diálogos diretos, situações pouco desenvolvidas ou alegorias evidentes demais. Quando uma premissa fantástica é apresentada nos primeiros momentos e rapidamente descartada, como um fragmento isolado, a frustração do público se torna inevitável.
Ao observar a trajetória de Jefferson De, essa escolha narrativa se torna ainda mais curiosa. Seu curta Narciso Rap (2005) já explorava justamente essa premissa: um menino que encontra uma lâmpada e deseja ser visto como branco por pessoas brancas e negro por pessoas negras. No formato de curta-metragem, a ideia funciona com precisão e equilíbrio. Em Narciso, no entanto, essa mesma proposta é expandida, mas perde a força e a honestidade que antes a sustentavam.

Cena de “Narciso”- Divulgação Elo Studios
A inversão do mito original, em que o reflexo deixa de ser perdição para se tornar possibilidade de salvação, é interessante. Ainda assim, as reflexões propostas pelo filme são apenas iniciadas, nunca plenamente desenvolvidas. A responsabilidade recai sobre o espectador para preencher essas lacunas, mas, como muitas dessas ideias são abandonadas ao longo da narrativa, falta estímulo para um engajamento mais profundo.
Em um país como o Brasil, discutir identidade racial é não apenas relevante, mas necessário. Contudo, a execução fria e arrastada compromete o impacto da obra. Com escolhas mais precisas e uma estrutura narrativa mais coesa, Narciso poderia ter se consolidado como um potente épico trágico sobre a busca por identidade. Em vez disso, torna-se um reflexo pálido do que poderia ter sido.
Distribuído pela Elo Studios, Narciso estreia em 19 de março em mais de 20 cidades brasileiras.
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