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Elsa María Gutiérrez e Ana Patricia Rojo em cena de "Veneno para as Fadas"- Divulgação Filmicca
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Veneno para as Fadas’ – a ambiguidade como território do horror e da infância

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 18 de abril de 2026
6 Min Leitura
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Elsa María Gutiérrez e Ana Patricia Rojo em cena de "Veneno para as Fadas"- Divulgação Filmicca
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Dirigido por Carlos Enrique Taboada, Veneno para as Fadas ultrapassa a superfície de uma narrativa sobre amizade infantil para construir um dos retratos mais inquietantes da infância no cinema de horror.

Veneno para as Fadas nos insere completamente no ponto de vista das crianças, especialmente de Flávia, e é justamente essa escolha que define sua força. Ao limitar a presença dos adultos, muitas vezes reduzidos a vozes ou figuras parciais, Carlos Enrique Taboada nos aprisiona em um universo onde a lógica infantil rege tudo. Nesse espaço, não há distinção clara entre o real e o imaginado. Bruxas podem existir. Maldições podem funcionar. E coincidências ganham peso de evidência.

Verônica surge, à primeira vista, como uma figura manipuladora: uma menina que utiliza o imaginário da feitiçaria para exercer controle sobre a amiga. No entanto, uma leitura mais atenta revela algo mais perturbador: ela não apenas inventa essa narrativa, mas parece progressivamente acreditar nela. Sua relação com o misticismo não é totalmente performática; é também uma forma de dar sentido ao mundo que a cerca, marcado por perdas, isolamento e ausência de afeto estruturante.

Dessa forma, a fantasia deixa de ser apenas uma ferramenta de poder e se transforma em um refúgio, que, aos poucos, se torna uma armadilha. Verônica não é exatamente uma vilã consciente, mas uma criança que ultrapassa os limites entre brincar e acreditar. Sua crueldade, portanto, não é fria ou calculada, mas difusa, nascida de uma imaginação sem contenção e de uma necessidade profunda de controle.

Elsa María Gutiérrez e Ana Patricia Rojo em cena de "Veneno para as Fadas"- Divulgação Filmicca

Elsa María Gutiérrez e Ana Patricia Rojo em cena de “Veneno para as Fadas”- Divulgação Filmicca

Flávia, por outro lado, desempenha um papel essencial nesse processo. Sua crença valida e fortalece a narrativa construída por Verônica. O que se estabelece entre as duas não é apenas uma relação de dominação, mas um sistema fechado onde fantasia e realidade se alimentam mutuamente. Sem essa validação, o “poder” de Verônica talvez não se sustentasse. Com ela, ganha força, densidade e consequências.

É nesse ponto que Veneno para as Fadas revela seu aspecto mais cruel: o horror não está na confirmação do sobrenatural, mas na impossibilidade de descartá-lo completamente. Eventos como a morte da professora ou as ameaças veladas nunca são explicados de forma definitiva. Permanecem suspensos, contaminados pela perspectiva infantil. Essa indecisão não fragiliza a narrativa, pelo contrário, é o que a torna profundamente inquietante.

Ao optar por essa ambiguidade, Taboada evita dois caminhos fáceis: o do terror explícito e o da racionalização total. Se o filme confirmasse o sobrenatural, se aproximaria de um horror mais convencional. Se o negasse completamente, perderia sua dimensão psicológica. Ao permanecer entre os dois, cria uma experiência que reproduz a própria lógica da infância, um espaço onde o medo nasce justamente da incerteza.

O segundo ato, frequentemente marcado por repetições na busca pelos ingredientes do “veneno”, pode sugerir uma perda de ritmo. No entanto, essa estrutura também pode ser interpretada como um ritual, um ciclo que aprisiona as personagens em sua própria construção imaginária. A narrativa não avança porque elas próprias não avançam, afinal, estão presas naquele jogo.

Ana Patricia Rojo em cena de "Veneno para as Fadas"- Divulgação Filmicca

Ana Patricia Rojo em cena de “Veneno para as Fadas”- Divulgação Filmicca

Dentro dessa leitura, o desfecho de Veneno para as Fadas ganha ainda mais potência. Quando Flávia finalmente reage, o impacto não vem de uma revelação objetiva, mas da ruptura de um sistema de crença. Não sabemos, com absoluta certeza, se havia de fato algo sobrenatural em jogo, e essa dúvida transforma o final em algo muito mais perturbador. A ação de Flávia pode ser vista tanto como um ato de autopreservação quanto como uma resposta a um medo construído.

Considerar que Verônica eventualmente retornaria à realidade reforça ainda mais o caráter trágico da narrativa. Se sua imersão na fantasia é transitória, uma fase intensificada por contexto e validação, então o que resta é a percepção de que algo grave aconteceu dentro de um espaço que deveria ser seguro. A fantasia pode passar, mas suas consequências permanecem.

Nesse sentido, Veneno para as Fadas se aproxima menos de um filme de horror tradicional e mais de uma memória distorcida da infância: um momento em que imaginação, medo e descoberta se confundem, deixando marcas difíceis de interpretar na vida adulta.

No fim, Veneno para as Fadas não oferece respostas, e é exatamente isso que o torna tão eficaz. Ao se recusar a definir os limites entre realidade e fantasia, inocência e crueldade, jogo e perigo, Taboada constrói um horror silencioso, um horror que não depende do que vemos, mas do que acreditamos ter visto.

Distribuído pela Filmicca, Veneno para as Fadas estreia nos cinemas no dia 26 de Abril.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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