Dirigido por Márcio Trigo, Sexo e Destino é melodrama espírita que oscila entre a exposição doutrinária e a novela moralizante, sem conseguir desenvolver organicamente os conflitos que propõe.
Menos de um mês após a estreia de O Advogado de Deus (2026, Wagner de Assis), o cinema nacional volta a investir em narrativas assumidamente espíritas. Porém, assim como a produção de Assis, Sexo e Destino tropeça na dificuldade de equilibrar discurso religioso e construção dramática. A diferença é que aqui a doutrina deixa de ser pano de fundo e passa a conduzir praticamente toda a estrutura narrativa.
O problema não está na presença do espiritismo em si, mas na forma como o roteiro reduz conflitos complexos a soluções simplificadas. Os personagens raramente possuem profundidade além da função simbólica que exercem dentro da mensagem moral do filme. Os diálogos são expositivos, carecem de subtexto e frequentemente transformam emoções humanas em lições prontas. Em vez de desenvolver personagens contraditórios e críveis, o roteiro prefere operar por dicotomias: culpa e redenção, pureza e pecado, desvio e salvação.

Cena de “Sexo e Destino”- Divulgação Paris Filmes
Cláudio exemplifica isso de maneira extrema. Alcoolista, emocionalmente instável e atormentado por traumas do passado, o personagem protagoniza uma das cenas mais violentas do filme ao tentar abusar sexualmente da própria filha. Trata-se de um momento brutal, que rompe qualquer possibilidade imediata de empatia do público. Ainda assim, a narrativa resolve seu arco de maneira apressada e superficial: o contato com a doutrina espírita funciona como uma conversão instantânea, quase mecânica, incapaz de sustentar dramaticamente a complexidade do personagem. Não há elaboração psicológica, apenas absolvição narrativa.
Essa fragilidade se estende ao restante da produção. A montagem aposta em cortes secos que quebram o peso emocional das cenas, enquanto a fotografia excessivamente plastificada impede que o filme encontre qualquer senso de densidade dramática. A trilha sonora constante, sempre guiando artificialmente as emoções do espectador, reforça o tom melodramático que aproxima Sexo e Destino muito mais de uma novela televisiva do que de um drama cinematográfico consistente.
O aspecto mais problemático, contudo, talvez esteja na maneira como o filme enxerga desejo e sexualidade. Pequenos detalhes de encenação e figurino revelam uma visão profundamente conservadora sobre o comportamento feminino. Marina, personagem envolvida em relações afetivas múltiplas ao longo da narrativa, é constantemente associada visualmente à ideia de devassidão.
Suas roupas destacam o corpo não como expressão de liberdade ou autonomia, mas como um marcador moral de impureza. Quando finalmente encontra estabilidade conjugal e engravida, o figurino muda radicalmente, sugerindo uma “purificação” simbólica da personagem. É uma construção imagética antiquada e inquietante para uma produção de 2026.

Personagens Principais de “Sexo e Destino”- Divulgação Paris Filmes
Essa abordagem compromete inclusive o discurso espiritual que o longa tenta defender. Em diversos momentos, Sexo e Destino deixa de apresentar a fé como acolhimento e passa a associá-la diretamente à repressão de desejos considerados mundanos. O resultado é um filme que parece menos interessado em compreender as contradições humanas do que em enquadrá-las dentro de uma lógica rígida de punição e redenção.
Como veículo de divulgação da doutrina espírita, a produção certamente encontrará seu público, especialmente entre admiradores da obra de Chico Xavier. O encerramento, inclusive, assume explicitamente esse papel ao transformar a experiência cinematográfica em uma reafirmação religiosa. Ainda assim, permanece a sensação de que a narrativa existe apenas como suporte para a mensagem, nunca como drama genuinamente desenvolvido.
Ao final, Sexo e Destino falha justamente onde mais precisava funcionar: na construção humana de seus personagens. Entre discursos expositivos, simbolismos conservadores e conflitos resolvidos de forma simplista, o longa reduz temas complexos a uma sucessão de lições morais pouco sutis. O que poderia ser um drama espiritual sobre culpa, desejo e reconstrução se torna uma obra excessivamente didática, incapaz de transformar suas ideias em cinema de fato.
Distribuído pela Paris Filmes e baseado na obra psicografada por Chico Xavier e Waldo Vieira, Sexo e Destino chega aos cinemas no dia 21 de Maio.
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