Dirigido por Olivia Wilde, O Convite é pequeno em escala, mas surpreendentemente amplo em suas ambições, alcançando equilíbrio entre leveza e profundidade.
Produções sobre casamentos em crise sempre carregam um potencial especial para explorar questões universais. Do amor ao sexo, da convivência à frustração, essas histórias frequentemente transitam entre o filosófico e o emocional. Um exemplo é Um Caminho Para Dois (1967, Stanley Donen) que utilizava a passagem do tempo para investigar como um relacionamento se transforma até se tornar irreconhecível. O que acontece entre a paixão inicial e o desgaste inevitável? Poucas perguntas perseguem tanto a arte quanto essa.
É com essa mesma inquietação que O Convite se inicia, abrindo com uma certeira frase de Oscar Wilde: “Deve-se estar sempre apaixonado. Essa é a razão pela qual nunca se deve casar“. Adaptando o filme espanhol Sentimental (2020, Cesc Gay), a produção se torna um raro caso em que um remake não apenas justifica sua existência, como supera o material de origem. Mais engraçado, mais incisivo e dramaticamente mais complexo, o longa encontra sua força em três pilares fundamentais: o roteiro, a direção de Olivia Wilde e o elenco.
O texto de Rashida Jones e Will McCormack preserva a estrutura central da obra original, mas amplia significativamente suas camadas emocionais. O humor nasce do constrangimento, da insegurança e dos silêncios mal resolvidos. As provocações surgem como comentários aparentemente inofensivos, apenas para retornarem mais tarde com consequências devastadoras. Uma simples correção linguística, por exemplo, se transforma em combustível para uma discussão que explode quase uma hora depois.

Seth Rogen e Olivia Wilde em cena de “O Convite”- Divulgação O2 Play
É justamente aí que reside a inteligência do roteiro. Em mãos menos habilidosas, a premissa poderia facilmente resvalar para o melodrama ou para uma caricatura de relacionamentos modernos. Em vez disso, o filme abraça seus temas eróticos sem qualquer moralismo. O sexo não aparece como provocação barata, mas como uma ferramenta narrativa que expõe inseguranças, hipocrisias e frustrações acumuladas ao longo dos anos. O desejo funciona menos como fantasia e mais como um espelho cruel das falhas emocionais de cada personagem.
Essa maturidade também se reflete na direção de Olivia Wilde. Após o turbulento lançamento de Não Se Preocupe Querida (2022) e toda a controvérsia que cercou sua produção, era fácil duvidar dos próximos passos da diretora. Porém, desde os primeiros minutos, Wilde demonstra um domínio admirável do material. Seu maior mérito está em compreender que a tensão não surge apenas dos conflitos explícitos, mas principalmente das pequenas mudanças de dinâmica entre os personagens.
Auxiliada pela trilha elegante e inquieta de Devonté Hynes, Wilde conduz a narrativa com notável precisão. A direção alterna entre humor, ansiedade, desconforto e melancolia sem jamais parecer instável. Cada nova revelação muda o equilíbrio da conversa, obrigando o espectador a reavaliar constantemente quem possui o controle da situação. O resultado é um filme que permanece em movimento mesmo quando seus personagens estão simplesmente sentados à mesa.
A escolha de filmar em 35mm reforça ainda mais essa proposta. Existe uma textura orgânica na imagem que remete ao cinema independente norte-americano da segunda metade século XX, justificando a homenagem final feita à Diane Keaton. Com apenas uma locação principal, poucos personagens e um roteiro extremamente centrado nos diálogos, O Convite exala a confiança de uma produção que sabe exatamente quais ferramentas possui e como utilizá-las.

Penelope Cruz e Edward Norton em cena de “O Convite”- Divulgação O2 Play
Essa confiança seria inútil sem um elenco à altura do desafio. E é justamente aqui que o filme encontra seu maior trunfo.
Curiosamente, Penélope Cruz acaba sendo a presença menos chamativa do grupo. Não por deficiência em sua atuação, mas porque seus colegas recebem material particularmente rico para explorar. Ainda assim, sua interpretação adiciona uma camada de humanidade essencial à narrativa, funcionando como um contraponto emocional importante para os excessos dos demais personagens.
Edward Norton entrega talvez seu trabalho mais afiado em muitos anos. Seu personagem poderia facilmente ser reduzido ao papel de provocador inconveniente, mas o ator encontra nuances que tornam cada fala mais interessante do que parece à primeira vista. Existe charme, insegurança, arrogância e vulnerabilidade convivendo simultaneamente em sua performance. Quanto mais o filme avança, mais evidente se torna a complexidade escondida sob sua aparente autoconfiança.
Seth Rogen, por sua vez, continua uma fase artística extremamente interessante. Ainda reconhecemos seus maneirismos característicos: a risada inconfundível, o timing cômico preciso e a ironia constante, mas há uma melancolia nova em sua atuação. Joe é um homem preso entre aquilo que acredita desejar e aquilo que realmente sente, e Rogen captura essa contradição com uma naturalidade impressionante. Seu desempenho está entre os melhores de sua carreira justamente porque entende que o personagem funciona melhor quando não busca ser engraçado.
A grande surpresa, contudo, é a própria Olivia Wilde. Em um papel simultaneamente neurótico, defensivo e profundamente carismático, a atriz entrega uma interpretação repleta de energia e vulnerabilidade. Sua personagem frequentemente parece estar prestes a perder o controle, e é exatamente essa instabilidade que torna cada cena tão fascinante.

Penelope Cruz e Olivia Wilde em cena de “O Convite”- Divulgação O2 Play
O mais interessante é que nenhum deles está realmente discutindo sobre sexo, traição ou fantasias. No fundo, todos carregam ressentimentos antigos, mágoas acumuladas e expectativas frustradas. O filme começa como uma simples reunião entre casais, mas aos poucos revela um quadro emocional muito mais complexo. A cada nova conversa, uma camada é removida. A cada nova revelação, surgem rachaduras que transformam completamente nossa percepção.
A decisão de estruturar a narrativa como uma peça de teatro contemporânea se mostra extremamente acertada. O espaço limitado favorece a improvisação, a espontaneidade e a química entre os atores, enquanto a câmera encontra maneiras criativas de evitar qualquer sensação de estagnação visual. Primeiros planos, movimentos sutis e mudanças de foco ajudam a destacar emoções que muitas vezes não são verbalizadas, situações que a cinematografia encontra momentos de intimidade que ampliam o impacto dos diálogos.
Ao final, O Convite se revela uma obra muito menos interessada em responder perguntas do que em provocá-las. O filme entende que relacionamentos duradouros não são construídos apenas por amor, mas também por concessões, ressentimentos, desejos contraditórios e versões idealizadas de quem acreditamos ser. É uma comédia, um drama e um estudo de personagens ao mesmo tempo, transitando entre esses registros com uma naturalidade admirável.
Mais do que um remake bem-sucedido, O Convite é o trabalho mais seguro e maduro de Olivia Wilde. Inteligente, engraçado e surpreendentemente doloroso, é o tipo de filme que transforma uma conversa aparentemente banal em uma reflexão desconfortavelmente honesta sobre intimidade. E justamente por isso, quando as luzes da sala se acendem, o espectador dificilmente conseguirá pensar em outra coisa.
Distribuído pela O2 Play, O Convite chega aos cinemas brasileiros em 9 de julho.
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