Atualmente nos cinemas, Eduardo Nunes e Bárbara Luz contam suas reflexões não somente sobre Cinco da Tarde, mas também sobre a importância de se discutir temas ditos como tabu, e como o cinema auxilia no processo.
Em cartaz nos cinemas, Cinco da Tarde transforma o luto em uma experiência sensorial e delicada, abordando também as marcas deixadas pela pandemia e a dificuldade de reconexão entre as pessoas. Conversamos com exclusividade com o diretor Eduardo Nunes e a atriz Bárbara Luz sobre o processo de criação do longa, as escolhas estéticas e a importância de falar sobre a perda em um momento em que esse tema ainda é tratado como tabu.
André Sanchez: Vamos começar falando sobre um elemento que chama atenção logo no início do filme: a pandemia. Confesso que levei um susto quando vi a Bárbara de máscara no primeiro plano. Meu primeiro contato com o Zoom foi justamente naquele período. Hoje voltamos à rotina, mas tenho a impressão de que continuamos distantes uns dos outros. A troca de afeto e de empatia parece não ter voltado ao normal. Vocês acham que estamos perdendo essa capacidade ou é apenas uma impressão?
Eduardo Nunes: Que pergunta boa, André. Começar assim é difícil. (risos)
Bárbara Luz: Total. (risos)
Eduardo Nunes: Quer começar, Bárbara?
Bárbara Luz: Como você preferir.
Eduardo Nunes: Vou tentar falar um pouquinho menos para dar tempo. Na verdade, o filme não nasceu durante a pandemia. O roteiro original tratava apenas do luto. Ganhamos um edital em 2018, a verba foi liberada em 2019 e filmaríamos em 2020. Então veio a pandemia.
À medida que percebíamos que não seria possível filmar, fui reescrevendo o roteiro. A Bárbara já fazia parte do projeto e, como a história falava sobre o luto, tornou-se inevitável incorporar aquele momento ao filme.
Na época, imaginei que surgiriam muitos filmes sobre a pandemia. Até houve alguns, mas depois parece que o assunto simplesmente desapareceu. Já ouvi pessoas perguntando por que voltar a esse tema, mas eu considero importante falar sobre aquele período, porque as consequências continuam presentes.
O filme não fala apenas sobre o luto, mas também sobre a necessidade de aproximação entre as pessoas. Por isso gosto tanto da cena em que Annabel e Meiko se abraçam. Se você reparar, é a primeira vez que elas realmente têm contato físico. Antes, uma entrega um copo, a outra recebe; uma serve o chá, a outra pega. Existe proximidade, mas nunca toque. De repente, acontece aquele abraço longo, do qual nenhuma das duas parece querer se soltar. É como romper a barreira de afastamento que a pandemia criou.

Bárbara Luz e Sharon Cho em cena de “Cinco da Tarde”- Divulgação 3 Tabela Filmes
Bárbara Luz: Quando gravamos, ainda estávamos muito inseridos naquele contexto. Filmávamos de máscara, fazíamos testes semanalmente e tudo ainda era muito assustador.
Concordo com o Edu quando ele diz que quase não falamos sobre esse período. Foi um acontecimento tão traumático que, muitas vezes, evitamos revisitá-lo. E também concordo com você, André: a pandemia mudou a forma como nos relacionamos.
Percebo isso principalmente entre as pessoas mais jovens, da minha geração ou até mais novas, que passaram a adolescência ou o início da vida adulta em isolamento. Hoje parece haver mais barreiras para criar vínculos e se aproximar das pessoas. Acho que essa mudança realmente aconteceu.
André Sanchez: Pegando esse gancho das barreiras, temos a Annabel, uma brasileira paulista, e a Meiko, descendente de japoneses. Desde o início a ideia era colocar essas duas mulheres, com origens tão diferentes, dividindo essa história? Como foi construir essa relação no roteiro e também durante as atuações?
Eduardo Nunes: Tem uma curiosidade interessante sobre isso. A presença da cultura asiática sempre esteve nos meus projetos. É um universo que me fascina. Sou apaixonado pelo cinema asiático, dos clássicos de Yasujir? Ozu e Mikio Naruse até a produção contemporânea.
André Sanchez: Em alguns momentos me lembrou muito Era Uma Vez em Tóquio.
Eduardo Nunes: O formato 4:3 denuncia essa influência. (risos) Melhor assumir logo.
Mas, acima de tudo, meu interesse sempre foi pautado pelo respeito a essa cultura, e isso também orientou o trabalho com as atrizes.
A Sharon tem ascendência coreana. Nasceu em São Paulo, mas cresceu falando coreano em casa. Já a Miuá tem ascendência japonesa. Inclusive, durante uma entrevista em São Paulo, a Sharon comentou que existe uma espécie de código de ética entre atores asiáticos: uma atriz coreana evita interpretar uma personagem japonesa, uma japonesa evita interpretar uma coreana e assim por diante. É uma forma de reconhecer que são culturas distintas.
Curiosamente, no roteiro original a personagem era um homem japonês chamado Hiroshi. Fizemos testes com um ator excelente, mas, faltando apenas três meses para as filmagens, ele entrou em uma série da Globo e precisou deixar o projeto.
Fiquei completamente desanimado. Então a Ana Isabel, nossa assistente de direção, e a Isabela, produtora, fizeram uma sugestão simples: “E se fosse uma atriz?”.
Aquilo mudou completamente o filme.
Não foi necessário alterar uma única linha do roteiro. Apenas trocamos Hiroshi por Meiko, e a relação entre as duas mulheres ganhou muito mais força. Passou a ser um universo feminino, em que duas personagens compartilham dores semelhantes e encontram acolhimento uma na outra. A semelhança entre elas passou a ser tão importante quanto suas diferenças.
Quando a Sharon fez o teste, ela comentou que gostaria muito de participar, mas lembrou que a personagem era japonesa. Foi aí que respondi: “Ela não é mais.”
A mãe da Meiko permaneceu japonesa, interpretada pela Miuá, enquanto o pai passou a ser coreano. Assim, Meiko tornou-se descendente das duas culturas. A própria Sharon comentou que esse tipo de família é bastante comum. Tivemos muito cuidado com esses detalhes, inclusive nos diálogos, para evitar generalizações e respeitar essas diferenças culturais.

Bárbara Luz em cena de “Cinco da Tarde”- Divulgação 3 Tabela Filmes
André Sanchez: Tanto que, no final, ela brinca: “Agora você está pensando como uma japonesa.”
Eduardo Nunes: Exatamente. É uma brincadeira justamente com esse olhar simplificador que costuma tratar todos os asiáticos como se fossem iguais.
André Sanchez: A escolha do preto e branco sempre fez parte do projeto? Em algum momento, durante as filmagens, vocês olharam para uma cena colorida e pensaram: “Que pena que esse plano não vai aparecer assim”?
Eduardo Nunes: Acho que sim. Tanto que existem alguns momentos coloridos no filme: o chá, a árvore, o telefone e o porta-retratos.
O preto e branco nasce muito da melancolia que a história carrega. Ele cria um certo afastamento da realidade e reforça essa atmosfera de tristeza. É uma fotografia em que as sombras predominam.
Já os momentos em cores aparecem como uma possibilidade de esperança. Naquele período, vivíamos uma realidade muito dura. Não sei como foi para vocês, mas eu tinha a sensação de que aquilo nunca acabaria.
No começo, todo mundo imaginava que seriam dois ou três meses. De repente, já fazia um ano. As notícias eram sempre as mesmas: o número de mortos só aumentava. Parecia não haver fim.
Então, quando a cor aparece, ela funciona quase como um lembrete de que um dia tudo aquilo passaria. As coisas voltariam ao normal. De certa forma, voltaram, mas as marcas permaneceram.
Bárbara Luz: Também vejo o preto e branco como uma forma de evidenciar os contrastes entre as duas personagens. Essa estética ressalta muito as diferenças e, ao mesmo tempo, aproxima as duas.
Eduardo Nunes: É verdade. E o próprio filme acompanha esse movimento. Ele começa muito escuro e, aos poucos, vai clareando, acompanhando a transformação emocional da história.
André Sanchez: O luto continua sendo um assunto difícil de abordar. Mesmo hoje, muitas pessoas evitam falar sobre a perda. Por que vocês acham que esse tema ainda é um tabu? E como o cinema pode contribuir para esse processo de compreensão e acolhimento?
Bárbara Luz: Acho que o luto é um sentimento tão grande que, muitas vezes, não cabe nas palavras. É muito difícil explicar o que ele representa.
É justamente aí que o cinema encontra sua força. Ele consegue expressar sentimentos por meio das imagens, dos sons, das sensações e dos estados de espírito.
No caso de Cinco da Tarde, o tempo do luto parece se dilatar. Existe também essa presença da pessoa que partiu, algo muito difícil de explicar. A pessoa morre, mas uma parte dela continua ali.
Isso aparece na relação da Annabel com a avó. Cada vez que ela entra no apartamento, alguma coisa mudou. Há menos quadros na parede, a avó parece mais envelhecida nas lembranças. Aos poucos, a memória também se transforma.
Chega um momento em que você já não consegue lembrar do cheiro daquela pessoa. Depois, o rosto também começa a escapar da memória. São pequenas perdas que acontecem dentro da própria perda.
Explicar isso apenas com palavras é muito difícil. O cinema consegue fazer porque trabalha com imagens, sons e sensações. Acho que Cinco da Tarde é um filme muito sensorial, e essa talvez seja uma de suas maiores forças.
Falar sobre luto é extremamente doloroso, mas também necessário. Precisamos encontrar formas de acolher quem passa por essa experiência, porque é muito difícil atravessá-la sozinho.

Bárbara Luz e Sharon Cho em cena de “Cinco da Tarde”- Divulgação 3 Tabela Filmes
Eduardo Nunes: Muito bonito Babi. Existem vários pequenos detalhes no filme que reforçam essa presença de quem partiu.
Quando Annabel chega ao apartamento pela primeira vez, os óculos da avó ainda estão sobre um móvel, exatamente onde ela os deixou. Ao abrir a geladeira, encontra um doce preparado por ela. O doce continua existindo, mas a avó não.
São objetos simples que mostram como a ausência convive com aquilo que permaneceu.
E existe outra questão importante: a necessidade de verbalizar a perda. Annabel só consegue dizer que a avó morreu nos vinte minutos finais do filme, quando atende um telefonema por engano e precisa responder: “A minha avó morreu.”
Depois dessa fala, a avó deixa de aparecer. É como se aquele reconhecimento finalmente permitisse que o processo do luto seguisse adiante.
Por isso acho tão importante falar sobre esse tema. Muitas vezes evitamos a conversa porque ela dói, mas o retorno que temos recebido do público mostra justamente o contrário.
As pessoas nos escrevem, gravam vídeos, publicam comentários dizendo que encontraram acolhimento no filme. Alguns afirmam que procuraram Cinco da Tarde porque não conseguiram viver plenamente o próprio luto na época em que perderam alguém.
Eu realmente não esperava essa reação. Parece que existe um assunto sobre o qual quase ninguém fala, mas muita gente queria ouvir alguém falar. E o filme acabou abrindo esse espaço.
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