Dirigido por Cacá Diegues, Xica da Silva permanece como um dos filmes nacionais mais interessantes do século XX e um retrato surpreendentemente atual de um país que, no fundo, não está tão distante daquele do século XVIII.
Misturando reconstituição histórica com uma narrativa popular que bebe fortemente da pornochanchada, Xica da Silva adapta o livro homônimo de João Felício dos Santos e o transforma em uma homenagem não apenas a uma importante personagem histórica, mas também à determinação e à perseverança da mulher brasileira. É uma obra que abraça o humor, o sincretismo religioso e a sensualidade, mas que, com o passar do tempo e a inevitável comparação com a novela homônima, acabou caindo em um injusto esquecimento.
Se hoje tivemos produções como Dona Beija, tanto a novela de 1986 quanto o remake recente, muito disso passa pela força narrativa construída por Diegues em Xica da Silva. Muito antes da polêmica adaptação da TV Manchete, Zezé Motta já entregava uma personagem marcada por elegância, erotismo e presença cênica em cada plano. Acompanhamos sua ascensão de escravizada à figura mais poderosa do Arraial do Tijuco, quase uma rainha de Versalhes em pleno Brasil colonial.
Sem qualquer receio de explorar sua sensualidade, Zezé Motta se torna uma força magnética que só encontraria paralelo décadas depois na jovem Taís Araújo. Com um sorriso marcante e um carisma irresistível, domina cada cena em que aparece, revelando tanto a inteligência de Xica quanto seu poder de sedução. Diegues utiliza o erotismo com notável domínio, transformando as reações masculinas diante da protagonista em alguns dos momentos mais divertidos do filme. Afinal, o que existe de tão proibido em uma mulher que, depois de uma recusa inicial, passa a despertar uma obsessão coletiva?

Zezé Motta em cena de “Xica da Silva”- Divulgação Vitrine Filmes
No entanto, quando o assunto é ritmo, o longa encontra seus maiores obstáculos. Apesar de um ágil começo em que Xica utiliza sua inteligência e capacidade de manipulação para conquistar o contratador João Fernandes, o segundo ato se prolonga excessivamente ao concentrar-se apenas nos luxos, extravagâncias e preconceitos enfrentados pela protagonista. É divertido acompanhar o famoso barco navegando pelo lago ou perceber que, no fundo, tudo o que Xica deseja é ser tratada como qualquer pessoa branca, e não reduzida à condição de mulher negra escravizada. Ainda assim, a repetição dessas situações acaba desgastando a narrativa.
O filme recupera seu fôlego com a chegada do fiscal do rei, vivido por um José Wilker completamente à vontade no papel. É também nesse momento que acompanhamos uma transformação interessante da protagonista, tanto em seu comportamento quanto em sua aparência. Xica passa a incorporar roupas e posturas tradicionalmente masculinas, mas, ao perceber que essa estratégia não lhe traz o reconhecimento desejado, reencontra sua própria identidade. A partir daí, abraça uma figura que remete diretamente a Oxum, reforçando um sincretismo religioso que Cacá Diegues traduz com enorme naturalidade e sensibilidade.

Zezé Motta em cena de “Xica da Silva”- Divulgação Vitrine Filmes
Assistir a Xica da Silva quase cinquenta anos após seu lançamento é uma experiência bastante diferente daquela vivida pelos mais de 3,1 milhões de espectadores que lotaram os cinemas em 1976. O público mudou, o cinema mudou, mas muitas das questões sociais, políticas e raciais levantadas pelo filme continuam assustadoramente presentes, tornando a obra um documento histórico tão relevante hoje quanto era à época de sua estreia.
Em 2026, a maioria das produções nacionais ainda concentra seus protagonistas em personagens brancos. Há meio século, porém, Xica da Silva colocou uma mulher negra, então em início de carreira, no centro de uma superprodução que facilmente poderia ter fracassado. Em vez disso, tornou-se um dos maiores marcos da história do cinema brasileiro.
Hoje existe uma tendência crescente de abrasileirar produções estrangeiras, enquanto Xica da Silva continua lembrando que nossa própria cultura é rica o suficiente para gerar histórias universais e atemporais. Mesmo que seu ritmo revele o peso da época em que foi produzido e que sua estrutura, por vezes, aproxime o filme do formato novelesco, sua força histórica, cultural e cinematográfica permanece intacta.
Às vésperas de completar cinquenta anos, Xica da Silva retorna aos cinemas em uma restauração em 4K por meio da Sessão Vitrine Petrobras, oferecendo ao público a oportunidade de revisitar um clássico que continua essencial para compreender não apenas a história do cinema brasileiro, mas também a do próprio país.
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