Dirigido por Betão Aguiar, Nem Tudo é Paz e Amor apresenta um olhar distinto sobre o movimento da contracultura, evidenciando suas consequências, belezas e traumas que atravessaram gerações
Nos dias de hoje, existe uma certa glamourização do passado, como se épocas anteriores fossem necessariamente melhores do que o presente. Quando pensamos especificamente na contracultura, movimento que ganhou força no Brasil durante as décadas de 1960 e 1970, essa idealização se torna ainda mais evidente. Em oposição aos valores conservadores da época, o movimento defendia a liberdade sexual, a igualdade entre os sexos e a ruptura com estruturas autoritárias, tanto no âmbito privado, representado pela família, quanto no público, marcado pela ditadura militar que vigorava no país.
Dirigido por Betão Aguiar, filho da escritora e produtora Marília Aguiar e de Paulinho Boca de Cantor, integrante fundamental dos Novos Baianos, Nem Tudo é Paz e Amor reúne depoimentos de importantes nomes ligados a esse período, como Helena Ignez, além de seus descendentes, como Anelis Assumpção.
A proposta é interessante justamente por buscar não apenas revisitar a contracultura, mas também compreender como suas escolhas reverberaram nas gerações seguintes. O problema é que o filme demora a encontrar a agilidade necessária para romper com a imagem romantizada desse movimento, algo que se torna mais evidente apenas em seu último ato.

Anelis Assumpção em cena de “Nem Tudo é Paz e Amor”- Foto de Fábio Burtin
Construído a partir de uma sucessão de entrevistas, intercaladas por momentos musicais que surgem de maneira pouco orgânica, Nem Tudo é Paz e Amor adota uma estrutura documental extremamente clássica para uma produção que pretende discutir as consequências de um período que, por essência, esteve distante de qualquer convencionalismo.
Nesse formato, o filme perde ritmo e deixa escapar parte da potência de seu próprio tema. Relatos íntimos de nomes como Moreno Veloso, Nara Gil, Marília Aguiar, Sarah Sheeva, Beto Lee e Anelis Assumpção acabam se tornando redundantes, enquanto figuras importantes, como Baby do Brasil, permanecem restritas a imagens de arquivo.
Apesar de relativamente curto, com menos de 90 minutos de duração, o longa sofre com um problema significativo de ritmo, transmitindo constantemente a sensação de que pouco avança. Nem mesmo a representação do período consegue explorar plenamente suas cores e contradições. O espírito do “é proibido proibir” aparece, mas suas nuances não são desenvolvidas com a profundidade necessária antes de serem interrompidas por trechos e diálogos que, em determinados momentos, beiram o vazio.
Visualmente, a fotografia também contribui para essa sensação de monotonia. A predominância da estética talking head, com os entrevistados posicionados de maneira semelhante ao longo do filme, provoca certo cansaço e reforça a impressão de uma narrativa pouco dinâmica. E é justamente nesse ponto que reside a maior oportunidade desperdiçada pelo documentário: o embate entre a criação de novas liberdades e as consequências de uma geração de crianças que cresceu imersa nos ideais da contracultura.
Esses filhos, expostos desde cedo a relações, comportamentos e valores que romperam com padrões tradicionais, carregam traumas, conflitos e reflexões geracionais que ajudam a desmontar a visão romantizada daquele período. Muitos deles, inclusive, escolheram não reproduzir determinadas experiências com os próprios filhos. É nesse conflito entre liberdade e consequência que Nem Tudo é Paz e Amor encontra seu material mais rico, e é justamente aí que o documentário poderia ter mergulhado com muito mais força.

Moreno Velozo em cena de “Nem Tudo é Paz e Amor”- Foto de Fábio Burtin
Ao final, o direcionamento de nicho de Nem Tudo é Paz e Amor parece voltado principalmente para aqueles que desejam conhecer melhor a contracultura brasileira ou que nutrem curiosidade e até nostalgia por uma época frequentemente retratada de maneira idealizada.
O filme, porém, não consegue transmitir com potência suficiente nem a complexidade do período retratado, nem os impactos que ele deixou nas gerações seguintes. Ainda assim, encontra seu espaço ao questionar, mesmo que de maneira irregular, a ideia de que aquele passado foi simplesmente um tempo de liberdade, música e amor.
Distribuído pela Pandora Filmes, Nem Tudo é Paz e Amor integrou a seleção do festival In-Edit Brasil 2026, onde teve quatro sessões esgotadas, e chega ao circuito comercial no dia 27 de agosto.
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