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saint-seiya cavaleiros do zodiaco
Anime e MangásCrítica

32 anos de Cavaleiros do Zodíaco: o fenômeno que o Brasil jamais verá novamente

Por Alvaro Tallarico
Última Atualização 1 de setembro de 2026
11 Min Leitura
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Há fenômenos culturais que atravessam gerações e outros que acabam se tornando parte da própria história de um país. Cavaleiros do Zodíaco conseguiu as duas coisas.

Nesta terça-feira, 1º de setembro de 2026, completam-se 32 anos da estreia de Cavaleiros do Zodíaco no Brasil. Foi naquele mesmo 1º de setembro, em 1994, que a Rede Manchete exibiu pela primeira vez “As lendas de uma nova era” e apresentou ao público brasileiro Seiya, Saori, o Santuário, as armaduras e aquele universo que rapidamente tomaria conta da televisão.

Eu tinha 9 anos. E é difícil explicar para quem não viveu aquele período o tamanho do que aconteceu depois.

A chegada de Cavaleiros do Zodíaco ao Brasil, por sinal, teve algo de improvável. A série foi oferecida à Rede Manchete por meio de um acordo de permuta com a Samtoy, representante da Bandai no país. A emissora recebeu inicialmente 52 episódios sem precisar comprá-los e, em troca, exibia os comerciais dos bonecos.

Parecia uma boa estratégia para vender brinquedos. Ninguém poderia imaginar que estava começando um dos maiores fenômenos da cultura pop brasileira.

Cavaleiros do Zodíaco explodiu. De repente, aqueles comerciais dos bonecos eram quase tão aguardados e lembrados quanto os próprios episódios. As armaduras tomaram as prateleiras e, principalmente, o imaginário das crianças. Todo mundo queria um Cavaleiro. Pais peregrinavam pelas lojas atrás dos personagens mais desejados, havia disputa pelos brinquedos e a pirataria cresceu tanto que a própria Samtoy precisou alterar os comerciais para avisar que os bonecos originais eram os da Bandai.

Nesta data, em 1994, a lenda dos Cavaleiros de Atena chegava pela primeira vez às telas brasileiras. O que começou naquele 1º de setembro se transformou em uma paixão gigante que une gerações da nossa comunidade até hoje!

"Com um movimento de mão, eles eram capazes de rasgar o… pic.twitter.com/vLs9iwPBcL

— Toei Animation Brasil (@ToeiAnimeBrasil) September 1, 2026

Quem viveu sabe. Não era apenas um desenho de sucesso. Cavaleiros estava nos quartos, nas brincadeiras, nas conversas da escola, nas bancas de jornal e nas listas de presentes. A série havia escapado da televisão e entrado definitivamente no cotidiano. Cada criança diria que era um cavaleiro diferente, os episódios eram discutidos no dia seguinte na hora do recreio..

Vieram revistas, álbuns, mangás, brinquedos, produtos licenciados e todo tipo de material que pudesse carregar aqueles personagens. Mais importante ainda, Cavaleiros ajudou a mostrar que havia no Brasil um público gigantesco interessado em animação japonesa.

Outros animes já haviam passado por aqui, claro, mas aquela explosão ajudou a mudar o mercado. Depois, títulos como Dragon Ball, Pokémon, Yu Yu Hakusho, Sakura Card Captors, Digimon, Samurai X e tantos outros encontraram um terreno muito mais fértil. Para uma geração inteira, Cavaleiros do Zodíaco foi a porta de entrada para descobrir que existia um universo de histórias japonesas muito maior do que aquilo que conhecíamos.

Por isso, comemorar os 32 anos de Cavaleiros do Zodíaco no Brasil também significa lembrar de um capítulo decisivo na formação da cultura otaku brasileira.

E se alguém ainda tiver dúvida sobre a força dessa relação, basta olhar para o que aconteceu muito tempo depois daquela estreia na Manchete. Décadas mais tarde, Cavaleiros ainda conseguiu levar cerca de 1 milhão de brasileiros às salas de cinema para assistir a um filme da franquia.

Pense nisso: uma obra japonesa criada nos anos 1980, exibida pela primeira vez no Brasil em 1994, ainda era capaz de mobilizar uma multidão décadas depois. Poucas franquias conseguem construir uma relação desse tamanho com um país.

É justamente por isso que acredito que Cavaleiros do Zodíaco é um fenômeno que provavelmente nunca veremos novamente da mesma maneira. Não porque tenham deixado de existir grandes animes ou porque as novas gerações não tenham suas próprias paixões. O mundo simplesmente mudou.

O Brasil de 1994 tinha uma relação completamente diferente com a televisão. Não existiam redes sociais ou streaming e muito menos a possibilidade de encontrar em segundos praticamente qualquer anime produzido no Japão. A TV aberta concentrava uma audiência que hoje está espalhada por inúmeras telas e plataformas. Quando alguma coisa realmente estourava, parecia que todo mundo estava assistindo junto.

Cavaleiros pegou justamente esse momento e o transformou em algo único. Chegou a incomodar a Globo, virou febre comercial, tomou as bancas e lojas e, acima de tudo, conquistou uma geração que nunca abandonou completamente aqueles personagens.

Talvez seja essa permanência a parte mais bonita de toda a história.

Os produtos mudaram, as plataformas mudaram, novas versões apareceram e nós também envelhecemos. Ainda assim, a comunidade permanece. Há colecionadores, pesquisadores, artistas, escritores e fãs que acompanham cada novidade. Há pessoas que se conheceram por causa da série e carregaram essas amizades para a vida. E, evidentemente, continuamos discutindo qual Cavaleiro de Ouro é o mais poderoso, qual armadura é a mais bonita ou qual batalha é a melhor.

Eu faço parte disso. E, para deixar registrado, Shiryu sempre foi o meu preferido. Ele carregava uma conexão muito forte com a natureza, vivia nos Cinco Picos Antigos e trazia consigo a sabedoria do Mestre Ancião, que parecia estar presente em cada uma de suas decisões. Era um personagem guiado pela honra e pelo senso de responsabilidade, mas que também tinha algo que o diferenciava dos demais: uma vida afetiva mais claramente estabelecida com Shunrei, mostrando que por trás do guerreiro existia também um homem capaz de amar, cuidar e construir vínculos.

Shiryu tinha força, mas não precisava provar o tempo todo que era forte, era humilde; sua serenidade, seu respeito pela natureza e pelos ensinamentos de seu mestre faziam dele, para mim, um dos personagens mais humanos de Cavaleiros do Zodíaco.

Além disso, ele é o único que constrói uma vida familiar depois das grandes batalhas, com Shunrei ao seu lado e um filho, mostrando um caminho que os outros Cavaleiros não tiveram. Enquanto Seiya, Hyoga, Shun e Ikki continuam ligados à vida de guerreiros, Shiryu encontra em Rozan algo além da luta: amor, família, tranquilidade e continuidade.

Há algo muito especial em perceber que uma obra que me acompanha desde a infância também me aproximou de pessoas que talvez nunca cruzassem meu caminho de outra forma. É nesse momento que a cultura pop deixa de ser apenas algo que consumimos e passa a fazer parte das relações que construímos.

Mesmo depois de 32 anos, Cavaleiros do Zodíaco continua encontrando formas de permanecer presente. E isso também passa pelos mangás.

A Editora JBC segue investindo na franquia no Brasil. A editora publicou em 2025 o 16º e último volume de Cavaleiros do Zodíaco – Next Dimension, encerrando a publicação brasileira da continuação canônica criada por Masami Kurumada.

E, em 2026, os fãs continuam acompanhando a publicação de Cavaleiros do Zodíaco – Saint Seiya Final Edition, nova edição da série clássica que reúne a obra de Kurumada em 20 volumes e traz novas capas, ilustrações e três capítulos adicionais publicados pelo autor em formato de minissérie.

É curioso pensar nisso justamente agora. Enquanto comemoramos 32 anos da chegada da série à televisão brasileira, os mesmos personagens continuam ocupando espaço nas bancas e livrarias, chegando às mãos de uma nova geração e também de quem cresceu com eles.

Mas, pensando bem, nem precisamos de novidade.

Basta tocar “Os Guardiões do Universo” para muita gente voltar imediatamente a outro tempo. Voltamos para a televisão ligada, para os comerciais dos bonecos, para as revistas, as brincadeiras, as discussões e aquela ansiedade para descobrir o que aconteceria no próximo episódio. Cada fã guarda suas próprias lembranças e, de alguma maneira, todas elas se encontram.

Eu tinha fita cassete com as músicas. Esses dias me peguei ouvindo no YouTube e senti um sabor gostoso de nostalgia, inocência e pureza.

Trinta e dois anos depois daquela primeira transmissão na Rede Manchete, talvez seja esse o verdadeiro poder de uma obra capaz de atravessar o tempo. Nós mudamos, o mundo mudou e nossa maneira de consumir cultura é completamente diferente, mas algumas histórias encontram um jeito de continuar caminhando ao nosso lado.

São 32 anos de Cavaleiros do Zodíaco no Brasil e de um dos maiores fenômenos culturais que este país já viu. Uma história que foi de incomodar a Globo a levar multidões aos cinemas, das disputas por bonecos às revistas, mangás e coleções, e que ajudou a abrir as portas para uma geração inteira de animações japonesas.

Mais do que tudo isso, porém, Cavaleiros do Zodíaco criou vínculos que resistiram ao tempo.

Talvez jamais vejamos outra coisa igual. E tudo bem. Não precisamos repetir aquele fenômeno, porque ele ainda está aqui.

Nós ainda estamos aqui.

Enquanto alguém se emocionar ao ouvir a abertura, guardar com carinho uma armadura, discutir seu Cavaleiro favorito ou simplesmente sentir alguma coisa especial ao ouvir as palavras “Cavaleiros do Zodíaco”, aquela tarde de 1º de setembro de 1994 continuará viva de alguma maneira.

E, no fim, seremos nós, os fãs, a resistir ao tempo e a tudo.

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Jornalista especializado em Jornalismo Cultural pela UERJ com experiência em Jornalismo Esportivo. Autor dos livros "O que é Arte? Com a palavra, o artista", "A Paulistana de Ganesha", e outros.

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