Dirigido por Michael Spierig e Peter Spierig, A Queda 2 – No Limite estrutura os fundamentos para uma interessante franquia, mas esquece o que tornou o primeiro filme tão interessante
Com orçamento estimado entre 3 e 5 milhões de dólares e uma história focada principalmente na tensão, A Queda (2022, Scott Mann) pode não ter se tornado um fenômeno junto ao grande público, mas encontrou força justamente em sua capacidade de transformar uma premissa simples em uma experiência angustiante. O roteiro não era exatamente original, mas entregava emoção, ação e reviravoltas suficientes para prender a audiência, e seu desempenho acabou abrindo espaço não apenas para uma sequência, mas para a possibilidade de uma franquia.
A Queda 2 – No Limite continua diretamente de onde o primeiro filme termina. Após a morte de Shiloh Hunter se transformar em uma trend viral, sua irmã Jax embarca em uma jornada para lidar com o luto, ao lado de Luce, amiga de Shiloh. Para isso, as duas escalam uma montanha de 914 metros na Tailândia em busca de uma estátua de dragão que, segundo a lenda, seria capaz de devorar os medos de quem a encontra. A mensagem não poderia ser mais explícita.
Juntamente com Luce, Jax inicia um processo de enfrentamento dos próprios medos. Afinal, ela nunca foi tão destemida quanto a irmã. Isso é reforçado por um flashback recorrente ao longo da produção, que revela como a última interação entre as duas foi amarga e, de certa forma, premonitória.

Harriet Slater e Arsema Thomas em cena de “A Queda 2 – No Limite”- Divulgação Paris Filmes
Assim, durante a jornada de Jax, novamente acompanhamos decisões estúpidas tomadas por personagens que parecem não compreender plenamente o tamanho do perigo em que estão se colocando. A diferença é que, desta vez, não estamos em uma torre de rádio de 600 metros de altura, mas em uma montanha de 914 metros, percorrida por frágeis estacas de madeira que contornam a estrutura.
Como já podemos perceber por essa rápida introdução, a escala da franquia aumentou em mais de um sentido. E, inicialmente, tudo parece maior: os perigos, a altura e os pontos de vista em primeira pessoa que exploram a vertigem da audiência. O ambiente também muda completamente, trocando o deserto do primeiro filme por uma paisagem muito mais verde e chuvosa, capaz de proporcionar novas situações e diferentes formas de tensão.
O problema é que, conforme o tempo passa, percebemos que a verdadeira tensão não está necessariamente ali.
Jax começa a história como uma covarde de carteirinha, enquanto Luce assume as rédeas da situação. Porém, sem uma construção realmente convincente, Jax encontra sua força e passa a demonstrar uma habilidade que sua personagem não havia apresentado até então, tornando-se, em determinados momentos, até mais habilidosa do que Hunter. A transformação poderia funcionar como parte de seu arco emocional, mas acontece de maneira tão conveniente que exige uma considerável capacidade de abstração por parte do espectador.

Tom Brittney, Harriet Slater e Arsema Thomas em cena de “A Queda 2 – No Limite”- Divulgação Paris Filmes
Assim como em A Queda, existe um twist relacionado à interação entre as duas personagens presas nas alturas. Mas no fim, a revelação pouco altera a relação entre ambas, o que me fez sentir ainda mais falta de Becky, uma personagem que poderia ter levado Jax nessa missão como uma forma de ambas encontrarem algum tipo de paz. Mas Becky sempre foi mais inteligente do que isso.
Também desaparecem algumas das tensões mais básicas que funcionavam tão bem no primeiro filme: fome, sede e, principalmente, a constante sensação de “e agora, qual é o plano?”. As duas estão presas no chamado cotovelo do diabo, enquanto a mochila contendo um rádio está a poucos metros de distância, pendurada em uma frágil viga de metal. O caminho para alcançá-la é claramente estabelecido como uma possibilidade de tudo ou nada, mas a produção demora demais para transformar essa situação em uma ação concreta.
Na medida em que a produção cresce em escala, os efeitos especiais que eram mais mascarados em A Queda também ficam muito mais visíveis. E isso acaba retirando parte da imersão necessária para uma experiência desse tipo. Em muitos sentidos, A Queda 2 – No Limite parece um filme feito para a televisão, especialmente por repetir a estrutura de seu predecessor sem compreender completamente aquilo que o tornava tão interessante.
A questão nunca foi apenas utilizar a acrofobia como ferramenta de entretenimento. O primeiro filme funcionava porque havia um envolvimento genuíno com Becky, e sua luta para sobreviver fazia com que cada novo obstáculo tivesse um peso emocional. Com Jax, esse envolvimento não acontece da mesma maneira.

Harriet Slater e Arsema Thomas em cena de “A Queda 2 – No Limite”- Divulgação Paris Filmes
O terceiro ato, entretanto, encontra um novo terreno. Depois de Jax vencer seus medos e se tornar, por decisão do roteiro, mais habilidosa do que a própria irmã, as duas finalmente chegam à parte da montanha tão destacada no pôster: a ponte de madeira.
É justamente nesse momento que o filme encontra algumas novidades que seu antecessor não apresentava. A tensão funciona melhor, e as reações físicas da audiência tornam-se bastante perceptíveis. Durante a sessão, inclusive, foi possível ouvir expressões de surpresa vindas de uma pequena cabine de imprensa, então imagine o impacto em uma sala de cinema maior.
Ao final, A Queda 2 – No Limite entretém ao repetir uma fórmula que já se provou eficiente. Os planos de detalhes, como parafusos e elementos perigosos que os personagens não percebem, a acrofobia como principal motivadora da tensão e a sensação de que qualquer coisa pode acontecer continuam presentes, mas a estética passa menos uma sensação de perigo, e sim um sentimento plástico de comercial, nós não acompanhamos a mesma “decadência” que vimos Becky no primeiro filme: morrendo de desidratação, ficando branca, mais fraca, e isto faz falta.
Ao deixar de lado a tensão básica em prol de uma grandiosidade que nunca encontra sustentação suficiente, a produção não alcança seu potencial máximo e permanece morna durante boa parte de sua duração, ao mesmo tempo que abre a porta para uma sequência que aí sim pode finalizar a trilogia de A Queda com um peso bem mais pessoal.
Distribuído pela Paris Filmes, A Queda 2 – No Limite chega aos cinemas em 1 de outubro de 2026.
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