Dirigido por Anita Barbosa, Se Eu Fosse Você 3 faz uma passagem de bastão que diverte, mas poderia representar algo muito maior para a franquia
Poucas franquias nacionais são tão queridas quanto Se Eu Fosse Você. A premissa já não era exatamente original em 2006, e muito menos é hoje, mas o carisma de Gloria Pires e Tony Ramos, aliado a um roteiro interessado antes de tudo em entreter, transformou os dois primeiros filmes em grandes sucessos da comédia popular brasileira. Quase 20 anos depois, a franquia sobrevive ao teste do tempo, mas, à medida que seu elenco principal envelhece, uma passagem de bastão para uma nova geração se torna inevitável.
Se Eu Fosse Você 3 funciona, então, simultaneamente como continuação e como uma espécie de leve remake. Helena e Cláudio ainda estão presentes, mas o verdadeiro foco passa para Bia, agora interpretada por Cleo Pires, e Aquiles, vivido por um Rafael Infante deliberadamente exagerado. Gloria Pires e Tony Ramos têm uma participação tão pequena que, se somarmos seus minutos em cena, provavelmente não chegaremos muito longe. E a saudade existe, especialmente porque a dupla possuía um brilho próprio e uma acidez na relação que fazia boa parte da graça dos filmes anteriores.
Rapidamente entendemos as diferenças entre os novos protagonistas. Bia é uma chef de cozinha controladora, metódica e acostumada a ter tudo sob controle, enquanto Aquiles é o típico “pai legal”: atleta, descontraído e completamente desligado das responsabilidades cotidianas. Quando um raio cai pela terceira vez na mesma família e os dois trocam de corpos, precisam aprender a lidar com as diferenças um do outro e, principalmente, tentar reacender uma relação que há muito tempo perdeu a chama.

Cleo Pires, Rafael Infante e Valentina Daniel em cena de “Se Eu Fosse Você 3”- Divulgação Buena Vista International
É justamente aí que o filme encontra sua maior oportunidade perdida. A escolha mais interessante teria sido transformar Helena e Cláudio em mentores do novo casal, utilizando a experiência de quase duas décadas para orientar Bia e Aquiles enquanto enfrentam o mesmo problema que eles próprios já viveram. Em vez disso, os personagens simplesmente ignoram a situação e seguem suas vidas como se tudo fosse perfeitamente normal. A passagem de bastão é compreensível; desperdiçar uma possibilidade tão rica de construir essa passagem dentro da própria narrativa, não.
Assim, acompanhamos Cleo Pires e Rafael Infante durante praticamente toda a produção. Os dois possuem uma interação espirituosa, e Infante encontra espaço para transformar Aquiles em uma figura propositalmente caricatural, mas falta à dupla a mesma química e, sobretudo, a acidez que existia na relação entre Helena e Cláudio. Cleo Pires, por sua vez, entrega uma atuação que funciona dentro da proposta, mas raramente consegue escapar da própria persona.
Dentro de uma estrutura bastante conhecida, Se Eu Fosse Você 3 também elimina boa parte das piadas machistas dos antecessores e promove uma limpeza geral em sua estética. Tudo é mais clean, contemporâneo e polido. A decisão é compreensível e até necessária para atualizar a franquia, mas, nesse processo, o filme também acaba removendo parte da personalidade que tornava os anteriores tão especiais. A produção não depende da nostalgia, e isso é positivo, porém utiliza uma marca extremamente poderosa para entregar algo que, no fim das contas, é apenas divertido.

Gloria Pires e Tony Ramos em cena de “Se eu Fosse Você 3”- Divulgação Buena Vista
E talvez esse seja o maior problema: Se Eu Fosse Você 3 nunca parece disposto a ser mais do que isso. Longe de momentos grandiosos como o famoso coral ao som de Beethoven, o longa cumpre sua função, mantém a franquia viva e oferece algumas boas tiradas, mas não encontra o humor, o charme ou o carisma que fizeram seus antecessores serem tão reconhecidos e amados.
Se este fosse o primeiro filme da trilogia, dificilmente teria a mesma força para lotar pré-estreias e eventos como o terceiro filme vem fazendo. E isso é particularmente frustrante porque Anita Barbosa conhece muito bem esse universo, tendo trabalhado nos dois primeiros longas. Ao tentar dar uma nova alma à franquia, ela encontra apenas uma fagulha do que poderia existir aqui.

Gloria Pires e Tony Ramos em cena de “Se eu Fosse Você 3”- Divulgação Buena Vista
A estrutura deixa essa sensação ainda mais evidente: Se eu Fosse Você 3 começa, apresenta os conflitos, acontece a troca de corpos, Rafael Infante brilha em um personagem completamente exagerado, Cleo Pires se mantém dentro de sua persona, e então tudo termina. Não há uma catarse realmente marcante, um grande clímax ou uma transformação capaz de justificar plenamente a jornada. O encerramento é tão simples e convencional que fica a impressão de que algumas cenas simplesmente desapareceram pelo caminho.
Ainda assim, Se Eu Fosse Você 3 é rápido, limpo, divertido e possui boas tiradas. Talvez o longa nem pretendesse carregar o mesmo charme dos anteriores, mas funcionar como uma ponte entre uma sequência de legado e um possível recomeço. Como tentativa de abrir novos caminhos para a franquia, funciona apenas parcialmente. Resta torcer para que, caso uma nova aventura aconteça, essa nova geração encontre a coragem para ser tão engraçada, caótica e catártica quanto seus antecessores.
Distribuído pela Buena Vista International, Se Eu Fosse Você 3 chega aos cinemas em 8 de outubro.
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