Dirigido por Gabriel França e CD Vallada, Consequências Paralelas tropeça na própria ambição de revolucionar a ficção científica brasileira
Com reconhecimento internacional, incluindo o prêmio do público no Macabro: Mexico City International Horror Film Festival, Consequências Paralelas é uma produção de baixo orçamento que aposta em uma estrutura minimalista: uma única sala, três atores e uma trama que mergulha na ficção científica, explorando realidades e universos paralelos. A proposta tem potencial e demonstra a disposição da equipe de experimentar dentro do cinema de gênero nacional. Entretanto, apesar das boas intenções envolvidas, o longa tropeça em suas próprias ambições, comprometendo boa parte daquilo que poderia torná-lo uma experiência instigante.
O roteiro é simples demais para as ideias que pretende desenvolver e, paradoxalmente, complexo demais para a estrutura que estabelece. Há conveniências narrativas em excesso e uma teatralidade que nem sempre funciona a favor da produção. A limitação espacial, por exemplo, parece menos uma necessidade dramática do que uma escolha conveniente para concentrar a ação na poltrona que funciona como portal para realidades alternativas. I
Isso se torna ainda mais frustrante quando se considera que a sala, segundo me mostraram os próprios diretores, foi inteiramente transformada pelo trabalho da diretora de arte Daniela Aldrovandi. O espaço poderia ser explorado de maneira muito mais expressiva, mas acaba subaproveitado, reduzido a um cenário que raramente contribui para expandir as possibilidades visuais e narrativas do filme.

Carol Macedo, Felipe Hintze e João Fenerich em cena de “Consequências Paralelas”- Divulgação O2Play
A própria ideia de uma poltrona cujo botão permite transferir a consciência de quem se senta para uma versão de si mesmo em outra realidade é interessante. O problema é que o conceito nunca ganha contornos suficientemente claros, tampouco se desenvolve de maneira satisfatória. Consequências Paralelas parece acreditar que mencionar termos e conceitos complexos é suficiente para conferir profundidade à narrativa.
Assim, sob uma aparência de transgressão e revolução, esconde-se uma história que pouco aprofunda as próprias ideias. A ficção científica, que poderia servir como ferramenta para questionar identidade, escolhas e consequências, transforma-se em uma casca conceitual que promete muito mais do que efetivamente entrega.
A representação visual da quebra da tela quando as dimensões são alteradas é uma solução interessante para comunicar a ruptura da realidade. Contudo, essa mudança estética não encontra correspondência em transformações narrativas significativas. As diferentes realidades acabam reproduzindo essencialmente o mesmo conflito: Max fez algo terrível contra Bruna, então João deseja matá-lo por vingança.
A repetição das mesmas ações esvazia progressivamente o mistério que deveria sustentar toda a tensão dramática de Consequências Paralelas. Em vez de ampliar as possibilidades da premissa, o filme se mantém preso a um único embate, enquanto seus personagens passam boa parte da projeção gritando, chorando e se desesperando. O resultado é um desgaste emocional que, em vez de envolver o espectador, torna a experiência cansativa.

Carol Macedo, Felipe Hintze e João Fenerich em cena de “Consequências Paralelas”- Divulgação O2Play
A situação se agrava quando a intensidade das interpretações começa a comprometer a própria dicção dos atores. O choro constante e a insistência em demonstrar sofrimento substituem nuances emocionais que poderiam conferir maior humanidade aos personagens. É frustrante observar esse resultado, sobretudo considerando que a preparação de elenco ficou a cargo de Vinicius de Oliveira, ator experiente no audiovisual brasileiro.
Ainda assim, mesmo um profissional com essa trajetória encontra limites diante de um roteiro que oferece pouco espaço para a construção dos personagens e de atuações que, em diversos momentos, soam excessivamente artificiais. O problema não está na ausência de emoção, mas na incapacidade de transformar essa emoção em algo que ultrapasse a superfície do desespero.
Tecnicamente, a alternância entre longos planos-sequência e cortes extremamente rápidos e caóticos produz uma sensação de desconforto que nem sempre parece deliberada ou coerente com a proposta narrativa. Ao mesmo tempo, a estética pálida e sem vida do cenário pouco acrescenta à atmosfera, carecendo de nuances visuais que poderiam diferenciar as realidades e reforçar a sensação de instabilidade.
O que resta é uma experiência marcada pelo vazio e por um certo blasé, como se Consequências Paralelas estivesse mais interessado em aparentar ousadia do que em explorar as consequências de suas próprias escolhas. Existe uma zona de conforto nas soluções narrativas, e são poucas as ocasiões em que a produção realmente se arrisca. Muitas ideias são resolvidas por conveniência, surgem sem preparação ou permanecem restritas ao diálogo, quando poderiam ser incorporadas à ação e exploradas cinematograficamente.
Ao final, Consequências Paralelas pode ter sido realizado com paixão e vontade de abrir novos caminhos para a ficção científica brasileira, mas essas intenções não bastam para sustentar o resultado. Existe uma premissa com potencial, assim como um esforço legítimo de experimentar com os recursos disponíveis.
O problema é que, na tentativa de construir algo grandioso e revolucionário, o filme acaba negligenciando os fundamentos que poderiam dar força às suas ideias: um roteiro consistente, personagens bem desenvolvidos e escolhas formais que realmente ampliem a experiência. Em vez de subverter as convenções do gênero, Consequências Paralelas termina prisioneira delas, entregando uma obra que promete provocar, mas que dificilmente permanece na memória.
Distribuído pela O2 Play, Consequências Paralelas chega aos cinemas em 15 de outubro.
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